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domingo, 7 de junho de 2020

DO CONVENTO DA SANTÍSSIMA TRINDADE DOS FRADES TRINOS - À MAIS ANTIGA FÁBRICA DE CERVEJAS DE PORTUGAL

001 Santa Casa da Misericórdia nos espaços do ex-Convento da Santíssima Trindade, Trindade, Lisboa

Porque nesta semana se celebra a solenidade da Santíssima Trindade, junto reedito um poste evocativo, em que se pretende demonstrar uma relação da religião com a cultura; com os bens culturais e económicos.

002 Rua Nova da Trindade - toponímia

Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos na Rua Nova da Trindade - Lisboa.

A construção data de finais do século XIII, mais propriamente de 1294.

003 Cervejaria Trindade. Fachada na Rua Nova da Trindade

Do tempo do “rei poeta e lavrador” de nome Dinis e Rainha Santa Isabel. Nesta altura já D. Dinis havia estabelecido “as pazes com os bispos portugueses, sendo a concórdia sancionada pelo papa em 1289”. Também foi este rei poeta quem instituiu o ensino da formação em Teologia na cidade olisiponense. Daí estarem criadas as condições propícias à criação de conventos.
004 Sala de refeições na Cervejaria Trindade, no mesmo espaço do antigo refeitório dos monges trinos
Contudo, D. Dinis estabelece regras: “As ordens religiosas são proibidas de herdar dos seus professos”. Esta regra visava, certamente, evitar que se concentrassem riquezas, influências e poderes excessivos em instituições religiosas.
005 Cervejaria Trindade. Reconstituição do púlpito na sala de refeições da Cervejaria, coincidindo com o refeitório do antigo Convento dos frades trinos
Além disso D. Dinis estabelece que os tabeliães fiquem “proibidos de lavrar escrituras de venda de propriedade a religiosos.” E determina ainda as Inquirições para averiguar quais as terras indevidamente apropriadas, quer pela nobreza, quer pelo clero.
Estabelecidas estas principais regras, mudam-se as circunstâncias.  
006 Sala no antigo refeitório dos monges. Imagem gentileza da Cervejaria Trindade, in desdobrável
O rei e a rainha vão, eles próprios, apoiar a Ordem de Cristo, os franciscanos e várias instituições de assistência social e religiosa, incluindo a criação de um Hospital em Santarém.
É, também, neste contexto de apoio a obras assistenciais que o Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos inicia a sua vivência em Lisboa.
007 Novas alegorias no exterior da Cervejaria Trindade
A função desta Ordem Trinitária, onde se inclui o Convento da Trindade (designação abreviada) não se esgota na redenção dos cativos como consta na sua denominação. A Ordem, originária da localidade de Cerfroid, perto de Paris, criada por S: João da Mata (S. Jean de Matha) e por São Félix de Valois, actua também na hospitalidade, educação, cuidados nas igrejas e na evangelização.
008 Alegorias na Cervejaria Trindade
O Convento da Trindade passa por vários acidentes e provações. É algumas vezes destruído: Em 1704 por um incêndio; em 1755, pelo grande terramoto, seguido logo no ano imediato por novo incêndio. Finalmente, em 1834, é extinto, como muitos outros.
Parte do património posto à venda é comprado por Manuel Garcia, industrial galego.
009 Trindade. Casa Ferreira das Tabuletas
Este empreendedor teve visão de negócio, investindo na primeira fábrica de cerveja de Portugal, no local onde já havia boémia vária (entre o Chiado e o Bairro Alto), reuniões de grupos e um crescendo número de trabalhadores tipográficos; do correio, transportes e comércio e muitos residentes no novo Bairro Alto e Baixa - Chiado.
O ex-Convento, adquirido pelo industrial galego, residente ali perto na ilustrativa Casa das Alegorias - no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, nunca mais terá fechado as portas, até à atualidade, reconvertendo-se e tornando-se numa casa típica.
010 Trindade. Casa Ferreira das Tabuletas com alegorias e símbolos maçónicos
Os espaços do refeitório monacal e alguns outros adjacentes foram decorados por Francisco Ferreira (o “Ferreira das Tabuletas”), que também decorou a citada Casa das Alegorias, apresentando simbologia maçónica, bem como os Quatro Elementos terrestres e as Quatro Estações do Ano .
011 Trindade. Parte superior da Casa Ferreira das Tabuletas. Alegorias e símbolos maçónicos
Também na Cervejaria estão as alegorias representantes da Indústria e do Comércio, tal como na emblemática e vizinha casa de habitação do empreendedor galego onde, aliás, se afirma que viveu algum tempo o artista Rafael Bordalo Pinheiro que originou o nome ao Largo fronteiro.
Por sua vez, Maria Keil residente por longos anos na proximidade, também foi chamada a intervir na decoração da Cervejaria Trindade. Mais um motivo para uma visita ao local.
012 Trindade. Largo Rafael Bordalo Pinheiro que terá vivido na "Casa do Ferreira das Tabuletas"
Sem se arvorar em formalidades, a Cervejaria Trindade apresenta salas entre o típico popular, outras mais chiques e intimistas. As iguarias estão de acordo para uma casa com mariscos e a uma dieta pró mediterrânica, desafiando bons apetites em espaço de cultura, memória-oração e retiro: boémio, organizacional/empresarial e familiar.
Palavras-Chave: Bairro Alto, bem cultural decorativo, bem cultural edificado, bem cultural toponímico, Cervejaria Trindade, Convento da Santíssima Trindade, Lisboa, Trindade .
Fontes:

--TRINDADE, Cervejaria, et al. – “A História” in desdobrável s.l; s.d.
 
Em linha, documentos acedidos em dezembro de 2016 e em 6 de junho 2020 -
 
--ANCIÃES, Alfredo Ramos – “Trindade: A Mais Antiga Fábrica de Cerveja em Portugal” https://cumpriraterra.blogspot.com/2016/12/121trindade-mais-antiga-fabrica-de.html
--BRANQUINHO Isabel – Aproximação ao Convento do Mosteiro da Santa Trindade de Santarém (1208-1500) - http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/4423/3/LS_S2_13-14_IsabelBranquinho.pdf
--INÁCIO, Carlos Revez; CABRITA, Fernanda; PEREIRA, Guilherme; SILVA, José António, et al. – “Na Trindade, Nem Sempre Bom Vento, Nem Sempre Convento” in “Congresso Internacional os Trinitários e os Mercedários no Mundo Luso-Hispânico”. Lisboa, 20 a 23 de Julho, 2016 (resumos) - http://antt.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/17/2016/07/2016-07-Resumos-Cong-Trinitario.pdf
--SILVA, Liliana; João Luís Inglês et al. - Ordem da Santíssima Trindade http://fundis.cidehus.uevora.pt/fundo/373/Ordem_da_Santissima_Trindade
--UL – Fac. Ciência et al. -  “Casa do Ferreira das Tabuletas” https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_do_Ferreira_das_Tabuletas

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

CARDAES DO BAIRRO ALTO DE SÃO ROQUE ENTRE FRATRIMÓNIOS DA NOSSA HERANÇA CULTURAL


001 Silhar no Convento dos Cardaes. Será produto da mão de artífice nacional ou holandês, e porquê?
Estamos, em meu entender, num dos sítios referenciais de Lisboa pela carga (que também é cargo e encargo), de marcas presentes, atinentes à nossa História, como povo: pioneiro, bandeirante, acolhedor e solidário, mas também, com defeitos, ou parcos de informação, a começar por nós próprios.
No caso, em destaque dos Cardaes, do Bairro Alto de São Roque, ou das Mercês e envolvência, foram tomadas opções históricas: fratrimoniais, artísticas, políticas e de gestão que nos orgulham. De modo que, podemos na atualidade admirar, reflectir, questionar e fruir tudo isto.

002 E este será holandês ou português. Porquê?
Entre a escolha do local do Convento (“estar juntos”) dos Cardaes, os seus estilos, com destaque para o barroco; as duas opções de padrões de azulejaria - uma opção estrangeira, no caso, holandês, e outra nacional, que não só têm diferenças, como, de certo modo, se complementam.
Não poderemos, depois de ter refletido, afirmar onde está o melhor padrão, o melhor modelo, a melhor arte, a melhor mensagem que estes dois tipos de herança cultural azulejar nos proporcionam e continuarão a oferecer bons motivos de visita. Apesar de tudo, é possível estabelecer comparações e, cada apreciador, na sua livre expressão, destacará as suas próprias opiniões ou a crítica, documentalmente sustentada.
Não é só este tipo de arte azulejar que nos leva a admirar e a refletir. É, outrossim: a arquitetura, a pintura, os embutidos, a talha “cintilante” que no templo/capela ou igreja contrastam com a simplicidade dos demais espaços do convento. É, também, a escultura, peças várias; os espaços, mais ou menos vazios, ou mais ou menos cheios, de bens; e de gente: que aqui vem ou reside, trabalha, descansa ou é aqui assistida social e fratrimonialmente.
Teremos, certamente, tempo e oportunidade para questionar, embora nem sempre possamos obter as melhores respostas. Questionar, p. exemplo:
-Qual o percurso para chegar até aqui, com esta dedicação e preservação para podermos fruir desta herança cultural?
-Como foi possível preservar todos estes Bens materiais e imateriais, tendo os mesmos passado por vendavais de instabilidade, não só a telúrica mas, sobretudo, os abalos sociais e políticos que atravessaram a nossa História e, particularmente, a História Conventual?
Com base nesta seleção de motivos iremos brevemente visitar o Convento dos Cardaes. Desde já desejamos um percurso agradável para fruir das melhores oportunidades; de preferência com algum doce conventual - lavor das irmãs, dos colaboradores/as e continuadores/as desta singular marca de Lisboa e Portugal.
Tags: Bairro Alto, Convento dos Cardaes, Herança Cultural, Fratrimónio, História, Lisboa, Portugal, Príncipe Real
181 AA Cumprir a Terra fich CONVENTO Cardaes Bairro Alto Príncipe Real Fratrimónio

domingo, 25 de dezembro de 2016


118. PATRIMÓNIOS E FRATRIMÓNIOS NA COLINA DE SÃO ROQUE
Imagem do logótipo. O fundo do escudo a vermelho, significará vida, o cão com um pão na boca representa a imagem ligada a S. Roque trazendo alimento aos que sofrem de peste e iniquidades. O bastão e a cabaça significam o amparo e a prossecução da viagem / peregrinação. A coroa e a pomba são características da devoção ao Espírito Santo com a presença do ágape eucarístico.
(Gentileza da imagem: PINTO, Helena Gonçalves et al. “Símbolos” https://www.irmandadesaoroque.pt/instituicao/simbolos#ler-mais )

Tudo parece indicar que a Igreja de São Roque, localizada na Trindade / Bairro Alto foi construída sobre antigos alicerces do cemitério dos pestíferos ou da Ermida deste orago.

Quer a Ermida, quer a Igreja foram erguidas em louvor de S. Roque, como premonição contra as pestes em épocas de misérias mil e inexistência de medicinas preventivas.

Para lá da colina de São Roque, na Trindade / Bairro Alto por onde este orago entrou em Portugal, o santo natural de Montpellier - França é venerado em várias localidades da lusofonia, ou levado pelos portugueses. Exemplo: em Abrigada - Alenquer, Açores, Braga, Brasil, Castelo de Vide, Funchal, Goa, Marelim - São Paio - Penafiel, entre tantas outras localidades.

As irmandades religiosas, instituídas a partir da Idade Média para apoio aos deserdados da vida, ou caídos em desgraça por circunstâncias de guerra ou outras, foram uma ajuda essencial para minorar as misérias.

Atualmente e, não obstante, a criação das Organizações de assistência social no âmbito do Estado, dos Seguros e dos Sindicatos, para os quais se descontam quotizações, continua a haver razões para a renovação destas irmandades religiosas, até porque, como consta na “Coluna do irmão provedor” – Notícias da Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa, 2106: “Falta […], estudar a outra parte do Homem, a mais difícil: o seu Espírito […]. No alto das experiências desta Irmandade, afirma-se na mesma “Coluna do Provedor” que:

“A nossa irmandade acompanhou esta evolução nos últimos cinco séculos” e por razões históricas, que são do conhecimento comum, o mesmo Provedor diz-nos que:

“A Irmandade chegou ao IIIº Milénio tão enfraquecida quanto as demais instituições religiosas.[…]”. Contudo:

“Em 2004, um grupo de Irmãos tomou-a nos braços e soergueu-a da letargia em que se encontrava”. (V. Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa, et al -  “A Tragédia do Mundo e a Nossa irmandade” in boletim Notícias da Irmandade, 2016.  
A fachada da igreja de São Roque é simples, mesmo austera, racional, maneirista, portuguesa e jesuítica. Contrasta com o interior barroco na tradição do concílio de Trento (1545-1563) a fim de provocar exaltação no auditório, como reforma ou reação às críticas protestantes, como são exemplo a interposição das 95 teses de Lutero.

O interior é constituído por nove capelas:

1)-Capela Mor, onde figura em plano superior a pintura de Cristo Salvador do Mundo e no plano inferir/central figura a escultura de madeira de São francisco Xavier; executada na primeira metade do século XVII;

2)-Capela de São João Batista.
Retábulo Principal da Capela de São João Batista na Igreja de São Roque

Atestando a importância desta capela afirma-se que o museu local abriu em 1905; estamos ainda na capicua de 111 anos com a designação de Museu do Thesouro da Capela de São João Baptista.

Nesta designação museológica verifico que se tomou a parte pelo todo. Sendo que o todo é o conjunto da Igreja de São Roque, as capelas com as suas irmandades e a antiga Casa Professa da Companhia de Jesus que usou estas instalações.

Esta Capela de São João Batista, mandada executar em Itália por D. João V, foi pré-inaugurada / consagrada pelo Papa Bento XIV em Roma; novamente desmontada e transportada, pedra por pedra, para Lisboa em três naus. Conjuntamente vinham dezenas de alfaias, peças de ourivesaria e ornamentos.

O projeto e a execução foram de Luigi Vanvitelli e Nicola Salvi (1742-1747). Contudo os trabalhos foram acompanhados, mesmo à distância; alterados por D. João V e pelo arquiteto e ourives João Frederico Ludovice, de naturalidade alemã que adotou Portugal como seu país. Em Portugal, Ludovice deixou descendência, amizades com a família real (D. Pedro II, D. João V e D. José), bem como obra vária, inclusivamente no Paço da Ribeira e no Convento de Mafra;
3)-Capela de Nossa Senhora da Doutrina, ou de Santa Ana, mãe de Maria, ligada à confraria do mesmo nome, executada na primeira metade do séc. XVII;

4)-Capela de São Francisco Xavier, o principal jesuíta enviado por D. João III para o Oriente. Esta capela foi patrocinada por António Gomes de Elvas, da família de mercadores e detentores do Ofício de Correio Mor do Reino; executada na primeira metade do século XVII;

5)-Capela de São Roque, orago da ex-Ermida e da atual Igreja. Tem como figura central a escultura de São Roque; executada na segunda metade do século XVI;
6)-Capela do Santíssimo Sacramento, ou de Nossa Senhora da Conceição, patrocinada por Luísa Fróis, benemérita dos Jesuítas;

7)-Capela de Nossa Senhora da Piedade. Patrocinada pelo escrivão de D. Sebastião, Martim Gonçalves da Câmara, onde se encontra sepultado. Esteve ao cuidado da Irmandade de Nossa Senhora da Piedade. Data da segunda metade do século XVII, terminada em 1711. Tem como figura central a escultura de uma Pietá;

8)-Capela de Santo António. Patrocinada por Pedro Machado de Brito, com indicação de que deveria servir para sua sepultura e descendentes. Tem como figura central a escultura de Santo António com o menino. Data da segunda metade do século XVII;

9)-Capela da Sagrada Família. Patrocinada pela Congregação de Amor e Graça dos Nobres. Data da primeira metade do século XVII.

Tags: Bairro Alto, Trindade, irmandades, jesuítas, maneirismo, barroco

Fontes:

-BRITO, Maria Filomena, et al – Igreja de São Roque. Lisboa: Santa Casa da Misericórdia, 2008

-MANTAS, Helena Alexandra Soares, et al – Museu de São Roque. Lisboa: Santa Casa da Misericórdia, 2008

Em linha, acedidas em 22.12.2016

ANCIÃES, Alfredo Ramos – “Bairro Alto – Sétima Colina Curiosidades” http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/12/115-bairro-alto-setima-colina.html

-CANELAS, Lucinda - “D. João V quis um Vaticano em Lisboa” https://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/d-joao-v-quis-um-va-ticano-em-lisboa-26550701

-COUTINHO, Maria João Pereira; FERREIRA, Sílvia - “As irmandades da Igreja de São Roque […]”  file:///C:/Users/Utilizador/AppData/Local/Microsoft/Windows/INetCache/IE/1ECY7F6B/4587-1-15164-1-10-20140717.pdf

-GUEDES, José Benard, PINTO; Helena Gonçalves et al. “Símbolos” https://www.irmandadesaoroque.pt/instituicao/simbolos#ler-mais

-MORNA, Teresa Freitas - Lisboa: Capela de São João Baptista revela esplendor - http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/dossier/lisboa-capela-de-sao-joao-baptista-revela-esplendor/

-PENTEADO, Pedro – “Confrarias Portuguesas […]” http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/4930/1/LS_S2_07_PedroPenteado.pdf 

-PINTO, Helena Gonçalves – “Irmandade da Misericórdia e de São Roque” https://www.irmandadesaoroque.pt/patrimonio/historia/as-festas-em-honra-de-sao-roque/49-as-festas-em-honra-de-sao-roque 

-SANTA CASA da Misericórdia, et al. - “Santa Casa Da Misericórdia: A Fundação da Irmandade” http://www.scms.pt/index.php/a-irmandade.html

-SUA PESQUISA.com, et al - “Concílio de Trento” http://www.suapesquisa.com/resumos/concilio_trento.htm  

-WIKIMEDIA, et al - “Confraria Religiosa” https://pt.wikipedia.org/wiki/Confraria

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

BAIRRO ALTO / SÉTIMA COLINA CURIOSIDADES SÃO ROQUE


SÃO ROQUE. NOTAS DE UM PERCURSO

Tanto o museu como a colina de São Roque - Lisboa devem o nome a este santo, natural de Montpellier (cª 1284-cª1327). Faz ora, em 16.8.2016 o 689º, supostamente o ano da sua partida. Proveniente de família abastada, nasce quando seus pais estão de idade avançada. Os progenitores sempre terão acreditado num milagre de ter um filho. Contudo, os pais morrem antes de Roque atingir a maioridade.
001(AA) Imagem de São Roque in Capela da Freguesia da Abrigada - Alenquer, onde pode ver-se o cão a entregar um pão a Roque
Quando pode dispor de alguns bens, Roque exerce com eles o que, em termos de Nova Museologia e Social, ou de Filosofia do Cristianismo, se pode classificar de ação fratrimonial. Roque distribui os bens pelos pobres, praticamente em segredo.

Sem subsistência, resolve partir para Roma. Pede esmola para sobreviver. Já em Itália, em Acquapendente, depara-se com o alastramento da peste. Não foge da mesma. Enfrenta-a e dirige-se ao hospital para ser útil.

Consta que a sua presença em Acquapendente, como noutras localidades, por onde passa, a peste se dizima em breve tempo. Ainda em Itália tem conhecimento de que a localidade de Piacenza (ou Placência) se debate com os mesmos problemas de peste. Roque parte para ser útil nesta localidade. Também aqui vai assistir enfermos.
Contudo, em Piacenza, é o próprio Roque que não resiste incólume. Fica gravemente doente, infestado dos males que cura à polução. Afasta-se por sua vontade, muito debilitado e a custo, para não ser um peso para os outros, nem contribuir para a difusão da infestação. Abriga-se junto a uma choça, sem quaisquer bens, nem mesmo água.

Roque aceita o destino.
Quer, porventura, o Altíssimo que Roque não definhe ali, isoladamente. Junto dele vê aparecer uma fonte, que se preserva na atualidade e é visitada em memória do santo, sendo as águas procuradas como bênção.

Perto desse local de abrigo há um castelo habitado por um nobre de nome Gotardo e um cão. O cão apercebe-se da presença de Roque e vem em seu auxílio trazendo-lhe alimentação que desvia do castelo. Gotardo acha estranho o inabitual desaparecimento do animal e da comida. Resolve investigar para onde o animal se dirige e Gotardo vê-se em presença do estranho.
Gotardo conversa com Roque. Resultado - um novo convertido. Gotardo renuncia, igualmente, aos bens e vai disfarçado pedir esmola; faz-se eremita. Entretanto Roque recupera e volta a Piacenza onde cura os doentes, apenas com a sua presença e a bênção das ruas com o sinal da cruz.
É altura de voltar para a sua terra. Mas em Montpellier não é reconhecido, nem pelo seu tio governador. É preso, falsamente acusado de espião, não acreditam (ou fingem, não acreditar) nele. Na cadeia, prestes ao falecimento, cuja hora da morte consta que lhe foi revelada, pede ao carcereiro que lhe dê o privilégio de ser assistido por um sacerdote para que lhe dê a extrema-unção.

Em breve, Roque é encontrado sem vida, após a presença de uma intensa luz a sair do cárcere.
Acorre o carcereiro que se depara com uma mensagem escrita: «Os que tocados pela peste invocarem o meu servo Roque, serão livres por sua intercessão desta cruel enfermidade».
A sua morte é divulgada e ocorre gente à prisão. Entre as pessoas, um familiar certifica que é mesmo Roque, pois reconhece-lhe um sinal de cruz com que Roque nascera. E assim se difunde a aura deste cidadão europeu, de Montpellier, por quase todo o mundo conhecido, especialmente pelo mundo de tradição cristã.
002 (AA) Imagem parcial do Museu de São Roque e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

OCULTO DO SANTO EM LISBOA
O culto, em Lisboa, data de inícios do século XVI, ao tempo de D. Manuel I e liga-se precisamente ao sítio de São Roque na 7ª colina – junto ao Bairro Alto.
Neste local, fora de portas da muralha fernandina, havia um cemitério.

Como a fama de Roque se expandira em tempos de pestes, D. Manuel I resolve solicitar a Veneza uma relíquia do santo e, para isso, constrói-se uma ermida no local, onde acaba por dar origem a um templo maior, a atual Igreja de São Roque, funcionando como local de culto e como peça integrante do Museu de São Roque.

 JESUÍTAS EM SÃO ROQUE
Em 1540, ao tempo de D. João III, entram os jesuítas e já com falta de instalações em Santo Antão (o Velho e o Novo) escolhem também o sítio de São Roque na então denominada Vila Nova de Andrade.

A decisão de se expandir a cidade para a parte de cá do vale do Rossio e das Portas de Santa Catarina, terá resultado da necessidade de albergar mais gente, devido ao desenvolvimento das atividades ligadas ao mar, à expansão pelos Descobrimentos e ao sismo e maremoto de 1531. Certa população das zonas orientais; à volta do Castelo, Alfama e Mouraria, bem como outros novos habitantes, vão-se transferindo para sul e ocidente, isto é para o Bairro Alto ou de São Roque.
003 Imagem da Capela de São João Batista com iconografia do batismo de Jesus no Museu de São Roque (gentileza – publicada in https://www.facebook.com/museudesaoroque/ )
Sabe-se que desde 1513 com D. Manuel I havia sido autorizado o plano de edificação desta zona ao serem adquiridos terrenos de propriedade e/ou usados por: Guedelha Palaçano, Filipe Gonçalves, Luís de Atouguia; terrenos do Convento da Trindade e da cerca deste convento, juntamente com a Vila Nova do Olival, junto ao mesmo convento; e ainda, os terrenos de Bartolomeu de Andrade e sua esposa - Francisca Cordovil. Daí, também, a designação de Vila Nova de Andrade atribuída ao Bairro Alto.

Posteriormente, sendo rei D. João III, fervoroso adepto dos jesuítas, facilita-lhe a vinda e a instalação nesta zona. A Ermida de São Roque passa para a Companhia de Jesus em 1553 e não tarda a sua conversão em Casa Professa, onde já existia o Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos que resta em memória toponímica da zona e em alguns equipamentos e edifícios, tais como o Teatro da Trindade, a Central Telefónica da Trindade, a Cervejaria Trindade e outros equipamentos e topónimos.
Com a expulsão dos Jesuítas, em 1759, as instalações desta Casa Professa são entregues à Santa Casa da Misericórdia com os seus bens de recheio.

MUSEU DE SÃO ROQUE, CAPICUA 111
Em 1898 é criado formalmente o Museu de São Roque, que acaba por abrir portas ainda em tempo da monarquia, isto é, no ano de 1905. E aqui temos a capicua 111, que a meu ver deveria ser festejada, entre 2016 /2017.

Trata-se, em minha opinião, de um dos mais interessantes museus de Arte Sacra a nível nacional e internacional, pelo espólio original que dispõe, como coleções de «pintura, escultura, ourivesaria, iluminura, têxteis, relicários, frontais de altar […]» do século XVIII.
Bem como a própria igreja de São Roque com seu conjunto de peças, entre as quais se destaca a característica e importante capela de São João Batista onde o arquiteto e ourives português, por adoção, João Ludovice tem especial intervenção nas peças decorativas.
 
004, 005, 006 (AA) Pormenores do Palácio Ludovice / Solar do Vinho do Porto
Em memória de João Ludovice, nesta zona, podem ser visitadas, não só a capela de São João Batista, bem como as suas moradas, nomeadamente a Rua de São Pedro de Alcântara, onde se encontra o Solar do Vinho do Porto e que brevemente será hotel de charme.

Na envolvente, Igreja da Encarnação ao Chiado, repousa para a eternidade Ludovice, presente na arte do Museu de São Roque, bem como no Convento de Mafra, na qualidade de Arquiteto Mor. Acresce que o Convento de Mafra faz ora 300 anos do lançamento da primeira pedra. Nesta altura já existia o Bairro Alto onde João Ludovice acaba por construir o seu palácio do qual as três imagens supra são testemunho.
Tags: Arquitetura, Bairro Alto, História, João Ludovice, Museu de São Roque

Fontes:
-CERVEJARIA Trindade, et al. – “Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos”. Desdobrável. Lisboa: Cervejaria Trindade, s.d. ;

Em linha, acedidos em 6.12.2016:

-AGÊNCIA Eclésia et al – Capela de São João Baptista na Igreja de São Roque https://www.youtube.com/watch?v=h1kByvmn7qs
-CML et al. – “Bairro Alto” http://www.cm-lisboa.pt/equipamentos/equipamento/info/bairro-alto

-CML, Agenda Cultural Lisboa, et al. – “Museu de São Roque” http://www.agendalx.pt/local/museu-de-sao-roque

-MUSEU de São Roque, et al. – “Museu de São Roque” https://www.facebook.com/museudesaoroque/ ; ------- - Capela de São João Baptista na Igreja de São Roque - http://www.museu-saoroque.com/pt/igreja-de-sao-roque/as-capelas/capela-de-sao-joao-batista.aspx Museu de São Roque ; Padre António Vieira ; Capela de São João Batista”

-PORTUGAL, Património Cultural, Sistema  de  Informação  para  o  Património  Arquitetónico –
“Bairro         Alto         de         São         Roque         /         Vila         Nova         de         Andrade”
 http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5019

-SANTA       Casa      da      Misericórdia,      et al.        –        “Museu        de        São        Roque”
http://www.museudesaoroque.com/pt/igreja-de-sao-roque/historia.aspx ; -------
“Robot            sorridente            mostra            Museu            de            São           Roque”

-WIKIMEDIA et al - “Companhia de Jesus”. https://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_de_Jesus
115 Cumprir a Terra AA "BAIRRO ALTO / SÉTIMA COLINA CURIOSIDADES"

terça-feira, 22 de novembro de 2016

112. SÉTIMA COLINA DE LISBOA FOI PRECURSORA


Caríssimas(os). Bem-vindas(os) à 7ª (Sétima) Colina de Lisboa.
Não vamos percorrer toda a colina, porque não sairíamos de lá nas próximas 24 horas, mas interpretá-la-emos, a partir de um ponto muito importante – São Pedro de Alcântara. Esta colina esteve abandonada durante muito tempo, até porque fazia parte das periferias de Lisboa.

Durante séculos Lisboa manteve-se confinada à parte oriental do Vale do Rossio, pese embora, ainda no tempo de D. Afonso Henriques, este precursor ter instalado tropas nos sítios evocativos dos Mártires da Cidade e, pelo menos, alguns templos.
Nestas sítios de devoção aos Mártires, o rei manda edificar capelas em agradecimento pelas vitórias alcançadas; quer a nível temporal – isto é, das conquistas de territórios, quer a nível espiritual, na esfera do religioso e imaterial – trazendo ab-inicio, ou novamente, a cristandade para estas paragens.
 


001.Correio oficial. Reconstituição de entrega de correspondências, séc. XVI
&
Não terá sido por acaso que esta colina é para muitos a sétima, isto é a última entre a primeira – a do Castelo ou de São Jorge e a Sétima, ou de São Roque.
Na realidade, já desde o século XV (tempo de D. Afonso V e D. João II) nesta zona da Sétima Colina / Bairro Alto assenta arraiais o capitalista Guedelha Palaçano (ou Abraam Guedelha) ao que tudo indica de origem judaica.
Aqui começa a expansão de Lisboa e é também aqui que este capitalista (intelectual e humanista) no tempo de D. João II vai proporcionar os primórdios da construção do novo Bairro Alto. Cá está a designação  - “Bairro” e “Alto” a testemunhar esta periferia de Lisboa.
002Carruagem de Mala-Posta, 1859-1864
Aqui é realizada a primeira intervenção com projeto de urbanização. E tão novo projeto, quanto rompe os antigos paradigmas de construção da urbe. Assim, o Bairro Alto foi o primeiro modelo de construção racional / ortogonal, que vem, inclusivamente, inspirar a reconstrução da Baixa Pombalina, pós terramoto. Com tal projeto de construção numa malha com ruas perpendiculares parecia já prever o desenvolvimento das comunicações;
003.Malaposta em viagem 1860`-1864
pois é daqui ou destas periferias que nasce o Correio Público territorial, e quiçá o marítimo, para longas distâncias.

Por aqui se situou a sede do Correio Geral, ainda a cavalo, depois em barco; seguido das carruagens de Malas-Postas.
Estas carruagens foram, simultaneamente, os primeiros transportes públicos de pessoas, cobrando bilhetes para médias e longas distâncias, com preços fixos e obedecendo a horários estipulados e zelosamente cumpridos, salvo as exceções de acidentes.
004.Figura do Ardina. Pormenor do monumento inaugurado em 1904. Escultor - Costa Mota (tio); Arquiteto – Álvaro Augusto Machado
Aqui foram instaladas, também, as primeiras tipografias de jornais e revistas e a difusão das respetivas publicações, de que vamos ver, pelo menos, uma ou duas dessas marcas patrimoniais evocativas, da escrita e informação, em São Pedro de Alcântara / Príncipe Real.
 
Etiquetas: Bairro Alto, comunicações, correio, história, Lisboa, São Pedro de Alcântara, transportes, urbanização ortogonal

Fontes:
-CNC Centro Nacional de Cultura, et al – Judeus e Árabes na Península Ibérica. Lisboa: CNC, 1993

Em linha, acedidas em 22.11.2016 -
-ANCIÃES, Alfredo Ramos – 111.FRATRIMÓNIOS E NOVOS MUSEUS EM DESENVOLVIMENTO http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/11/111-fratrimonios-e-novos-museus-em.html -------  110.CENTRALIDADE E O NOME DE LISBOA - PORTUGAL PARA LÁ DO MITO E DA LENDA http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/11/110-geografia-centralidade-de-portugal.html ------- 109.JARDIM E MIRADOURO DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/11/109-jardim-e-miradouro-de-sao-pedro-de.html -------  107.LOCALIDADES & PATRIMÓNIOS TANGÍVEIS E VIRTUAIS http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/11/107-localidades-patrimonios-tangentes-e.html ------- 106.VISITA À SÉTIMA COLINA DE LISBOA INCLUI, ENTRE OUTROS E IMPORTANTES ATRATIVOS, A COMEMORAÇÃO DE UM TRICENTENÁRIO (cont.) ------- 105.UMA VISITA À SÉTIMA COLINA DE LISBOA http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/11/106-visita-setima-colina-de-lisboa.html ------- 104.UMA VISITA A LISBOA EM TEMPO DE SANTOS http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/10/104-uma-visita-lisboa-em-tempo-de-santos.html

 -BRAGA, Isabel, et al – “Bairro Alto Uma História Concentrada: 500 Anos do Bairro Alto” http://observador.pt/2014/12/05/o-bairro-da-sobrevivencia/ 
-GENEAL, et al – “Guedelha Palaciano ou Palaçano” http://geneall.net/pt/forum/156059/guedelha-palaciano/
-RODRIGUES, Catarina Marques, et al – “Comemorações 501 Anos do Bairro Alto: O Bairro da Sobrevivência, 2014”  http://observador.pt/2014/12/05/o-bairro-da-sobrevivencia/

Imagens:
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