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domingo, 7 de junho de 2020

DO CONVENTO DA SANTÍSSIMA TRINDADE DOS FRADES TRINOS - À MAIS ANTIGA FÁBRICA DE CERVEJAS DE PORTUGAL

001 Santa Casa da Misericórdia nos espaços do ex-Convento da Santíssima Trindade, Trindade, Lisboa

Porque nesta semana se celebra a solenidade da Santíssima Trindade, junto reedito um poste evocativo, em que se pretende demonstrar uma relação da religião com a cultura; com os bens culturais e económicos.

002 Rua Nova da Trindade - toponímia

Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos na Rua Nova da Trindade - Lisboa.

A construção data de finais do século XIII, mais propriamente de 1294.

003 Cervejaria Trindade. Fachada na Rua Nova da Trindade

Do tempo do “rei poeta e lavrador” de nome Dinis e Rainha Santa Isabel. Nesta altura já D. Dinis havia estabelecido “as pazes com os bispos portugueses, sendo a concórdia sancionada pelo papa em 1289”. Também foi este rei poeta quem instituiu o ensino da formação em Teologia na cidade olisiponense. Daí estarem criadas as condições propícias à criação de conventos.
004 Sala de refeições na Cervejaria Trindade, no mesmo espaço do antigo refeitório dos monges trinos
Contudo, D. Dinis estabelece regras: “As ordens religiosas são proibidas de herdar dos seus professos”. Esta regra visava, certamente, evitar que se concentrassem riquezas, influências e poderes excessivos em instituições religiosas.
005 Cervejaria Trindade. Reconstituição do púlpito na sala de refeições da Cervejaria, coincidindo com o refeitório do antigo Convento dos frades trinos
Além disso D. Dinis estabelece que os tabeliães fiquem “proibidos de lavrar escrituras de venda de propriedade a religiosos.” E determina ainda as Inquirições para averiguar quais as terras indevidamente apropriadas, quer pela nobreza, quer pelo clero.
Estabelecidas estas principais regras, mudam-se as circunstâncias.  
006 Sala no antigo refeitório dos monges. Imagem gentileza da Cervejaria Trindade, in desdobrável
O rei e a rainha vão, eles próprios, apoiar a Ordem de Cristo, os franciscanos e várias instituições de assistência social e religiosa, incluindo a criação de um Hospital em Santarém.
É, também, neste contexto de apoio a obras assistenciais que o Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos inicia a sua vivência em Lisboa.
007 Novas alegorias no exterior da Cervejaria Trindade
A função desta Ordem Trinitária, onde se inclui o Convento da Trindade (designação abreviada) não se esgota na redenção dos cativos como consta na sua denominação. A Ordem, originária da localidade de Cerfroid, perto de Paris, criada por S: João da Mata (S. Jean de Matha) e por São Félix de Valois, actua também na hospitalidade, educação, cuidados nas igrejas e na evangelização.
008 Alegorias na Cervejaria Trindade
O Convento da Trindade passa por vários acidentes e provações. É algumas vezes destruído: Em 1704 por um incêndio; em 1755, pelo grande terramoto, seguido logo no ano imediato por novo incêndio. Finalmente, em 1834, é extinto, como muitos outros.
Parte do património posto à venda é comprado por Manuel Garcia, industrial galego.
009 Trindade. Casa Ferreira das Tabuletas
Este empreendedor teve visão de negócio, investindo na primeira fábrica de cerveja de Portugal, no local onde já havia boémia vária (entre o Chiado e o Bairro Alto), reuniões de grupos e um crescendo número de trabalhadores tipográficos; do correio, transportes e comércio e muitos residentes no novo Bairro Alto e Baixa - Chiado.
O ex-Convento, adquirido pelo industrial galego, residente ali perto na ilustrativa Casa das Alegorias - no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, nunca mais terá fechado as portas, até à atualidade, reconvertendo-se e tornando-se numa casa típica.
010 Trindade. Casa Ferreira das Tabuletas com alegorias e símbolos maçónicos
Os espaços do refeitório monacal e alguns outros adjacentes foram decorados por Francisco Ferreira (o “Ferreira das Tabuletas”), que também decorou a citada Casa das Alegorias, apresentando simbologia maçónica, bem como os Quatro Elementos terrestres e as Quatro Estações do Ano .
011 Trindade. Parte superior da Casa Ferreira das Tabuletas. Alegorias e símbolos maçónicos
Também na Cervejaria estão as alegorias representantes da Indústria e do Comércio, tal como na emblemática e vizinha casa de habitação do empreendedor galego onde, aliás, se afirma que viveu algum tempo o artista Rafael Bordalo Pinheiro que originou o nome ao Largo fronteiro.
Por sua vez, Maria Keil residente por longos anos na proximidade, também foi chamada a intervir na decoração da Cervejaria Trindade. Mais um motivo para uma visita ao local.
012 Trindade. Largo Rafael Bordalo Pinheiro que terá vivido na "Casa do Ferreira das Tabuletas"
Sem se arvorar em formalidades, a Cervejaria Trindade apresenta salas entre o típico popular, outras mais chiques e intimistas. As iguarias estão de acordo para uma casa com mariscos e a uma dieta pró mediterrânica, desafiando bons apetites em espaço de cultura, memória-oração e retiro: boémio, organizacional/empresarial e familiar.
Palavras-Chave: Bairro Alto, bem cultural decorativo, bem cultural edificado, bem cultural toponímico, Cervejaria Trindade, Convento da Santíssima Trindade, Lisboa, Trindade .
Fontes:

--TRINDADE, Cervejaria, et al. – “A História” in desdobrável s.l; s.d.
 
Em linha, documentos acedidos em dezembro de 2016 e em 6 de junho 2020 -
 
--ANCIÃES, Alfredo Ramos – “Trindade: A Mais Antiga Fábrica de Cerveja em Portugal” https://cumpriraterra.blogspot.com/2016/12/121trindade-mais-antiga-fabrica-de.html
--BRANQUINHO Isabel – Aproximação ao Convento do Mosteiro da Santa Trindade de Santarém (1208-1500) - http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/4423/3/LS_S2_13-14_IsabelBranquinho.pdf
--INÁCIO, Carlos Revez; CABRITA, Fernanda; PEREIRA, Guilherme; SILVA, José António, et al. – “Na Trindade, Nem Sempre Bom Vento, Nem Sempre Convento” in “Congresso Internacional os Trinitários e os Mercedários no Mundo Luso-Hispânico”. Lisboa, 20 a 23 de Julho, 2016 (resumos) - http://antt.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/17/2016/07/2016-07-Resumos-Cong-Trinitario.pdf
--SILVA, Liliana; João Luís Inglês et al. - Ordem da Santíssima Trindade http://fundis.cidehus.uevora.pt/fundo/373/Ordem_da_Santissima_Trindade
--UL – Fac. Ciência et al. -  “Casa do Ferreira das Tabuletas” https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_do_Ferreira_das_Tabuletas

domingo, 25 de dezembro de 2016


118. PATRIMÓNIOS E FRATRIMÓNIOS NA COLINA DE SÃO ROQUE
Imagem do logótipo. O fundo do escudo a vermelho, significará vida, o cão com um pão na boca representa a imagem ligada a S. Roque trazendo alimento aos que sofrem de peste e iniquidades. O bastão e a cabaça significam o amparo e a prossecução da viagem / peregrinação. A coroa e a pomba são características da devoção ao Espírito Santo com a presença do ágape eucarístico.
(Gentileza da imagem: PINTO, Helena Gonçalves et al. “Símbolos” https://www.irmandadesaoroque.pt/instituicao/simbolos#ler-mais )

Tudo parece indicar que a Igreja de São Roque, localizada na Trindade / Bairro Alto foi construída sobre antigos alicerces do cemitério dos pestíferos ou da Ermida deste orago.

Quer a Ermida, quer a Igreja foram erguidas em louvor de S. Roque, como premonição contra as pestes em épocas de misérias mil e inexistência de medicinas preventivas.

Para lá da colina de São Roque, na Trindade / Bairro Alto por onde este orago entrou em Portugal, o santo natural de Montpellier - França é venerado em várias localidades da lusofonia, ou levado pelos portugueses. Exemplo: em Abrigada - Alenquer, Açores, Braga, Brasil, Castelo de Vide, Funchal, Goa, Marelim - São Paio - Penafiel, entre tantas outras localidades.

As irmandades religiosas, instituídas a partir da Idade Média para apoio aos deserdados da vida, ou caídos em desgraça por circunstâncias de guerra ou outras, foram uma ajuda essencial para minorar as misérias.

Atualmente e, não obstante, a criação das Organizações de assistência social no âmbito do Estado, dos Seguros e dos Sindicatos, para os quais se descontam quotizações, continua a haver razões para a renovação destas irmandades religiosas, até porque, como consta na “Coluna do irmão provedor” – Notícias da Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa, 2106: “Falta […], estudar a outra parte do Homem, a mais difícil: o seu Espírito […]. No alto das experiências desta Irmandade, afirma-se na mesma “Coluna do Provedor” que:

“A nossa irmandade acompanhou esta evolução nos últimos cinco séculos” e por razões históricas, que são do conhecimento comum, o mesmo Provedor diz-nos que:

“A Irmandade chegou ao IIIº Milénio tão enfraquecida quanto as demais instituições religiosas.[…]”. Contudo:

“Em 2004, um grupo de Irmãos tomou-a nos braços e soergueu-a da letargia em que se encontrava”. (V. Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa, et al -  “A Tragédia do Mundo e a Nossa irmandade” in boletim Notícias da Irmandade, 2016.  
A fachada da igreja de São Roque é simples, mesmo austera, racional, maneirista, portuguesa e jesuítica. Contrasta com o interior barroco na tradição do concílio de Trento (1545-1563) a fim de provocar exaltação no auditório, como reforma ou reação às críticas protestantes, como são exemplo a interposição das 95 teses de Lutero.

O interior é constituído por nove capelas:

1)-Capela Mor, onde figura em plano superior a pintura de Cristo Salvador do Mundo e no plano inferir/central figura a escultura de madeira de São francisco Xavier; executada na primeira metade do século XVII;

2)-Capela de São João Batista.
Retábulo Principal da Capela de São João Batista na Igreja de São Roque

Atestando a importância desta capela afirma-se que o museu local abriu em 1905; estamos ainda na capicua de 111 anos com a designação de Museu do Thesouro da Capela de São João Baptista.

Nesta designação museológica verifico que se tomou a parte pelo todo. Sendo que o todo é o conjunto da Igreja de São Roque, as capelas com as suas irmandades e a antiga Casa Professa da Companhia de Jesus que usou estas instalações.

Esta Capela de São João Batista, mandada executar em Itália por D. João V, foi pré-inaugurada / consagrada pelo Papa Bento XIV em Roma; novamente desmontada e transportada, pedra por pedra, para Lisboa em três naus. Conjuntamente vinham dezenas de alfaias, peças de ourivesaria e ornamentos.

O projeto e a execução foram de Luigi Vanvitelli e Nicola Salvi (1742-1747). Contudo os trabalhos foram acompanhados, mesmo à distância; alterados por D. João V e pelo arquiteto e ourives João Frederico Ludovice, de naturalidade alemã que adotou Portugal como seu país. Em Portugal, Ludovice deixou descendência, amizades com a família real (D. Pedro II, D. João V e D. José), bem como obra vária, inclusivamente no Paço da Ribeira e no Convento de Mafra;
3)-Capela de Nossa Senhora da Doutrina, ou de Santa Ana, mãe de Maria, ligada à confraria do mesmo nome, executada na primeira metade do séc. XVII;

4)-Capela de São Francisco Xavier, o principal jesuíta enviado por D. João III para o Oriente. Esta capela foi patrocinada por António Gomes de Elvas, da família de mercadores e detentores do Ofício de Correio Mor do Reino; executada na primeira metade do século XVII;

5)-Capela de São Roque, orago da ex-Ermida e da atual Igreja. Tem como figura central a escultura de São Roque; executada na segunda metade do século XVI;
6)-Capela do Santíssimo Sacramento, ou de Nossa Senhora da Conceição, patrocinada por Luísa Fróis, benemérita dos Jesuítas;

7)-Capela de Nossa Senhora da Piedade. Patrocinada pelo escrivão de D. Sebastião, Martim Gonçalves da Câmara, onde se encontra sepultado. Esteve ao cuidado da Irmandade de Nossa Senhora da Piedade. Data da segunda metade do século XVII, terminada em 1711. Tem como figura central a escultura de uma Pietá;

8)-Capela de Santo António. Patrocinada por Pedro Machado de Brito, com indicação de que deveria servir para sua sepultura e descendentes. Tem como figura central a escultura de Santo António com o menino. Data da segunda metade do século XVII;

9)-Capela da Sagrada Família. Patrocinada pela Congregação de Amor e Graça dos Nobres. Data da primeira metade do século XVII.

Tags: Bairro Alto, Trindade, irmandades, jesuítas, maneirismo, barroco

Fontes:

-BRITO, Maria Filomena, et al – Igreja de São Roque. Lisboa: Santa Casa da Misericórdia, 2008

-MANTAS, Helena Alexandra Soares, et al – Museu de São Roque. Lisboa: Santa Casa da Misericórdia, 2008

Em linha, acedidas em 22.12.2016

ANCIÃES, Alfredo Ramos – “Bairro Alto – Sétima Colina Curiosidades” http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/12/115-bairro-alto-setima-colina.html

-CANELAS, Lucinda - “D. João V quis um Vaticano em Lisboa” https://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/d-joao-v-quis-um-va-ticano-em-lisboa-26550701

-COUTINHO, Maria João Pereira; FERREIRA, Sílvia - “As irmandades da Igreja de São Roque […]”  file:///C:/Users/Utilizador/AppData/Local/Microsoft/Windows/INetCache/IE/1ECY7F6B/4587-1-15164-1-10-20140717.pdf

-GUEDES, José Benard, PINTO; Helena Gonçalves et al. “Símbolos” https://www.irmandadesaoroque.pt/instituicao/simbolos#ler-mais

-MORNA, Teresa Freitas - Lisboa: Capela de São João Baptista revela esplendor - http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/dossier/lisboa-capela-de-sao-joao-baptista-revela-esplendor/

-PENTEADO, Pedro – “Confrarias Portuguesas […]” http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/4930/1/LS_S2_07_PedroPenteado.pdf 

-PINTO, Helena Gonçalves – “Irmandade da Misericórdia e de São Roque” https://www.irmandadesaoroque.pt/patrimonio/historia/as-festas-em-honra-de-sao-roque/49-as-festas-em-honra-de-sao-roque 

-SANTA CASA da Misericórdia, et al. - “Santa Casa Da Misericórdia: A Fundação da Irmandade” http://www.scms.pt/index.php/a-irmandade.html

-SUA PESQUISA.com, et al - “Concílio de Trento” http://www.suapesquisa.com/resumos/concilio_trento.htm  

-WIKIMEDIA, et al - “Confraria Religiosa” https://pt.wikipedia.org/wiki/Confraria