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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

121.TRINDADE: A MAIS ANTIGA FÁBRICA DE CERVEJA


No Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos na Rua Nova da Trindade - Lisboa.
(reconstrução de púlpito no antigo e novo local de refeições)

A construção data do século XIII, mais propriamente de 1294. Do tempo do “rei poeta e lavrador” de nome Dinis e Santa Rainha. Nesta altura já D. Dinis havia estabelecido “as pazes com os bispos portugueses, sendo a concórdia sancionada pelo papa em 1289”. Também foi este rei poeta quem instituiu o ensino da formação em Teologia na cidade olisiponense.

Daí estarem criadas as condições propícias à criação de conventos Contudo, D. Dinis estabelece regras: “As ordens religiosas são proibidas de herdar dos seus professos”;  possivelmente para evitar que se concentrem riquezas, influências e poderes excessivos em instituições religiosas. Além disso D. Dinis estabelece que tabeliães fiquem “proibidos de lavrar escrituras de venda de propriedade a religiosos.” E determina ainda as Inquirições para averiguar quais as terras indevidamente apropriadas, quer pela nobreza, quer pelo clero.

(sala no antigo refeitório dos monges. Imagem gentileza Cervejaria Trindade, desdobrável)
Estabelecidas as principais regras, mudam-se as circunstâncias. O rei e a rainha vão, eles próprios, apoiar a Ordem de Cristo, os franciscanos e várias instituições de assistência social e religiosa, incluindo a criação de um Hospital em Santarém.

É neste contexto de apoio a obras assistenciais que o Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos inicia a sua existência. A função desta Ordem Trinitária, onde se inclui o Convento da Trindade (designação abreviada) não se esgota na redenção dos cativos como consta na sua denominação. A Ordem, originária da localidade de Cerfroid, cerca de Paris, criada por São João da Mata e por São Félix de Valois, atua também na hospitalidade, educação, cuidados nas igrejas e evangelização.
O Convento da Trindade passa por várias provações e é, algumas vezes, destruído: Em 1704 por um incêndio; em 1755, pelo grande terramoto, seguido logo no ano imediato por novo incêndio. Finalmente, em 1834 é extinto, como muitos outros.

Parte do património posto a venda, é comprado por Manuel Garcia, industrial galego. Este empreendedor teve visão de negócio, investindo na primeira fábrica de cerveja de Portugal, no local onde já havia boémia vária, reuniões de grupos e um crescendo número de trabalhadores tipográficos, do correio geral, transportes e comércio e muitos residentes no novo Bairro Alto e Baixa - Chiado.

E a Casa – ex-Convento adquirido pelo industrial galego nunca mais fechou, até à atualidade, tornando-se social e típica. Os espaços do refeitório monacal e alguns outros adjacentes foram decorados por Francisco Ferreira (o “Ferreira das Tabuletas”) apresentando simbologia maçónica, os Quatro Elementos” terrestres, as Quatro Estações (tendo uma sido destruída).Também as imagens representantes da Indústria e do Comércio.

Maria Keil, residente por longos anos na proximidade, também foi chamada a intervir na decoração.
003 Imagem AA. decoração signo maçónico

Falta falar da cerveja e das iguarias apresentadas para este local que serve bem, sem se arvorar em formalidades, apresenta salas entre o típico popular, outras mais chiques e intimistas. As iguarias estão de acordo para uma cervejaria e a uma dieta pró mediterrânica.
E bons apetites em espaços de cultura, memória-oração e retiro.

Tags: Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos, Cervejaria Trindade, património decorativo, património edificado

Fontes:
TRINDADE, Cervejaria, et al. – “A História”, desdobrável s.l; s.d.
Em linha -
-BRANQUINHO Isabel – Aproximação ao Convento do Mosteiro da Santa Trindade de Santarém (1208-1500) - http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/4423/3/LS_S2_13-14_IsabelBranquinho.pdf

-INÁCIO, Carlos Revez; CABRITA, Fernanda; PEREIRA, Guilherme; SILVA, José António, et al. – “Na Trindade, Nem Sempre Bom Vento, Nem Sempre Convento” in “Congresso Internacional os Trinitários e os Mercedários no Mundo Luso-Hispânico”. Lisboa, 20 a 23 de Julho, 2016 (resumos) - http://antt.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/17/2016/07/2016-07-Resumos-Cong-Trinitario.pdf

 -SILVA, Liliana; João Luís Inglês et al - Ordem da Santíssima Trindade http://fundis.cidehus.uevora.pt/fundo/373/Ordem_da_Santissima_Trindade
-WIKIMEDIA, et al https://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_da_Sant%C3%ADssima_Trindade

domingo, 13 de novembro de 2016

109. JARDIM E MIRADOURO DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA

Chama-se Jardim António Nobre - poeta de corrente ultra-romântica e simbolista; 1867-1900, natural da Foz do Douro – Porto. A designação de São Pedro de Alcântara deve-se à denominação da Rua e Convento contíguos, acabando por se estender à zona envolvente.

Fred Kradolfer e o patamar superior:
Este patamar é indicado para miradouro pelo motivo de se situar mais alto; por contar com telescópio e mesa com mapa das zonas observáveis sobre a cidade. Este mapa desenhado e pintado sobre azulejo é da autoria de Fred K. em colaboração com a Fábrica Viúva Lamego.
Sobre Freda K. de nacionalidade suíça, diga-se que foi um dos mais importantes artistas plásticos que estava na vanguarda da modernização gráfica em Portugal.
Nos 44 anos que permaneceu em Portugal, onde veio a falecer, Fred K. deixou intervenções na cerâmica, no vitral, nos anúncios publicitários e iluminados, pinturas a óleo; colaborando com a Sociedade Nacional de Belas Artes em diversas exposições.
Foi especial colaborador na grande Expo do Mundo Português de 1940, acabando por receber da Presidência da República as insígnias da Ordem Militar de Santiago de Espada.
O patamar inferior:
É acedido por duas escadarias, uma em cada extremidade. Este patamar encontra-se decorado com bustos de figuras clássicas e do Renascimento Português. Foi sobretudo no âmbito do programa da disciplina de Museologia que escolhemos este local e envolvência para visita inicial.
Primeiro porque ali se encontram os bustos de Ulisses e Homero, o herói e o escritor das Epopeias da Grécia Clássica (Ilíada e Odisseia) e algumas figuras romanas – Marco Aurélio e a sua esposa a Imperatriz Faustina. Acontece que quisemos aliar o contexto do início histórico e mítico dos museus, na versão do então designado museion.
E tinha que ser assim, pois não iriamos começar a disciplina descurando as bases teóricas e inspiradoras, ligadas às musas, aos deuses e à História Clássica que enformaram e continuam a enformar a cultura portuguesa, ocidental e do médio oriente.
Além de que, em uma versão da lenda da fundação de Lisboa, se atribui a denominação de Odisseu/Ulisses à antiga "Allis Ubbo" (=enseada amena) que parece vir do Fenício). E chega-se a "Felicitas Iulia Olisipo" nome que terá evoluído para Lixbûnâ ou Al-ushbona no tempo muçulmano.
Portanto, não é por acaso que aqui se encontra a representação de Ulisses e de Homero (seu “biógrafo”) sobre uma das colinas mais emblemáticas da cidade de Lisboa; por uns considerada a quinta e por outros a sétima colina (a).
Quer seja a 5ª, quer a 7ª, ambos os números têm um significado especial para Portugal. 
Acontece que os clássicos, representados em São Pedro de Alcântara,  não estão sós; pois encontram-se envolvidos/acompanhados por uma série de figuras do Renascimento e dos Descobrimentos. Desde o Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Cabral, Camões, D. João de Castro, João de Barros, Albuquerque, e outros.
.....................
(a)Relevam-se as partículas sublinhadas "lis" nos dois parágrafos supra. Não deve ser por pura coincidência que Lisboa se chama Lisboa, embora haja ainda uma outra versão de que a flor-de-lis, representada na Sé de Lisboa e no brasão de Carnide pode também, esta flor, estar ligada ao nome Lisboa. Porém, esta 3ª versão parece-me menos provável. 
Tags: História, Lisboa, museologia, património edificado, Patriarcado, São Pedro de Alcântara
Fontes acedidas em 6.11.2016
ANCIÃES, Alfredo Ramos - 105.Uma Visita à 7ª Colina de Lisboa http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/10/105-uma-visita-setima-colina-de-lisboa.html
C.M.L et al - Archivo pitoresco. Semanario illustrado, 5.º Ano, n.º 25, 1862 divulgado em http://paixaoporlisboa.blogs.sapo.pt/tag/jardim+ant%C3%B3nio+nobre ; ------- Jardim de São Pedro de Alcântara / Jardim António Nobre http://www.cm-lisboa.pt/zonas/centro-historico/espacos-verdes/info/jardim-de-sao-pedro-de-alcantara-jardim-antonio-nobre ;
WIKIMEDIA, et al – Fred Kradolfer https://pt.wikipedia.org/wiki/Fred_Kradolfer

sexta-feira, 22 de maio de 2015

43. AQUILINO RIBEIRO: FORMAS DE AMOR DE LUTA CÍVICA E DE COMUNICAÇÃO


1-Nota biográfica.

2-O Amor pela Natureza e a generosidade altruística.

3-O Amor pela luta cívica em “Quando os Lobos Uivam”.

4-O Amor pela sustentabilidade/biodiversidade: A luta contra o liberalismo e o regime vigente.

5-O amor solidariedade e o amor que perdoa.

Palavras-chave - Missão e Ética: Quase toda a vida de Aquilino foi dedicada à Missão que ele próprio resumiu nos finais dos seus dias - “mais não pude”. A base de mudança para a missão e ética em Aquilino assenta na promoção dos valores de: liberdade e melhoria das condições de vida através da luta cívica e do trabalho "alcança quem não cansa", cultura, preservação da Natureza e conduta sem hipocrisias. 

1-NOTA BIOGRÁFICA

Aquilino nasce em 1885, no Carregal, Sernancelhe e morre na capital, em 1963. Em 1933, recebe o Prémio da Academia das Ciências de Lisboa e, em 1935 é eleito sócio correspondente da mesma Academia. Em 2007, a Assembleia da República aprova uma homenagem, incluindo a transferência do corpo com honras de Estado para o Panteão Nacional de Santa Engrácia.

Originário e profundamente beirão, aos 10 anos, faz exame da Escola Primária no Colégio de Nossa Sra. da Lapa e, aos 15, encontra-se no “Colégio Roseira”, de Lamego. Após um curto intervalo de tempo, quando estuda Filosofia em Viseu, transfere-se para o “Seminário de Beja”. A falta de vocação leva-o a abandonar o Seminário e vir para Lisboa, aos 18. Um ano depois regressa a Soutosa mas aos 21 anos está novamente em Lisboa, desenvolvendo uma ação de cariz ideológico-republicano e colaborando com o jornal “A Vanguarda”.

Em 1907, inicia a publicação de livros, onde denota uma intervenção na esfera política, com o conto “A Filha do Jardineiro” em parceria com José Silva.  Esta obra de ficção tem como objetivo a caricatura do regime monárquico vigente, através da análise de figuras públicas. Ainda em 1907, adere à Maçonaria. Pouco tempo após é preso e acusado de anarquista. Consegue evadir-se da prisão e prossegue contactos com a Maçonaria, incluindo a vertente carbonária. Em 1910, encontra-se a estudar Letras na Sorbonne, vindo a Portugal após a Revolução do 5 de Outubro. O relacionamento com Grete Tiedemann leva-o à Alemanha, onde reside durante alguns meses (1912/1913) e casa.

Em 1914, nasce o filho Aníbal Aquilino Fritz, que veio a ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Entre 1915 e 1918, exerce funções de professor no Liceu Camões. Segue-se outro período intenso, na Biblioteca Nacional, como na produção literária de “Terras do Demo”, direção da revista “Seara Nova”, publicação “O Malhadinhas”; "Andam Faunos pelos Bosques" e “Estrada de Santiago”, até que entra na revolta de 1927, em Lisboa. Participa no movimento militar republicano contra a Ditadura Militar e na revolta de Pinhel em 1928.

Consequentemente, procura Paris para se exilar. Em 1929, casa em segundas núpcias, com a filha do Presidente da República, Bernardino Machado. Continua a atividade de escrita regular de livros, destacando-se, nos anos 30, "O Homem que Matou o Diabo" e "Batalha Sem Fim”. Fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores nos anos cinquenta. Prossegue a produção de várias obras, entre as quais “A Casa Grande de Romarigães” (1957) e “Quando os Lobos Uivam” (1958). Neste ano de 1958 é nomeado sócio efetivo da Academia e torna-se militante da candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República.

Proposto para Prémio Nobel da Literatura em 1960

Entre um leque extenso de proponentes encontram-se nomes tais como: José Cardoso Pires; David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Alves Redol e Virgílio Ferreira. Com uma obra literária composta, grosso-modo, por contos, romances, novelas e artigos em periódicos, desenvolve uma linguagem vernácula e antiga em desuso e difunde termos pouco conhecidos, enriquecendo, sobremaneira, o vocabulário e a literatura de expressão portuguesa. Concluindo, na sua obra literária perpassam contextos e costumes, com relevância para modos de fazer tradicionais.

A propósito do Nobel da Literatura em 1998, José Saramago disse: “Se Aquilino Ribeiro fosse vivo quem o recebia era ele”.

Alcança quem não cansa era o ex-libris ou a visão/esperança de Aquilino.

Em relação ao ex-libris, se hoje Aquilino viesse à Terra possivelmente ficaria espantado por ter conseguido muito mais do que o esperado, tendo em conta um “Centro de Estudos Aquilino Ribeiro” (na Universidade Católica / Viseu); destaques no “Instituto Camões, da Cooperação e da Língua Portuguesa” (Lisboa), em Instituições de Ensino Secundário e Superior; representação na estatuária e na toponímia e um lugar no memorial do Panteão Nacional de Santa Engrácia, aprovado pela Assembleia da República, para lá de tantas homenagens que continuam a fazer-lhe, nomeadamente em visitas: à Fundação com o seu nome, em Soutosa; em geral às “Terras do Demo”: Sernancelhe, Penedono, Vila Nova de Paiva, Moimenta da Beira, Aguiar da Beira, no Distrito de Viseu; e à “Casa Grande de Romarigães” no concelho de Paredes de Coura.

"Mais não pude": Foi o epitáfio sugerido pelo próprio Aquilino em antevisão da sua morte. Atendendo às circunstâncias do tempo e dos regimes, podemos hoje dizer que fazer mais era difícil ou mesmo impossível, conforme sugere Aquilino. Resta-nos o respeito e a gratidão pelo seu contributo imortal no edifício da cidadania e da dignidade humana.

 Aquilino e a sua relação com o Convento da Tabosa

 “Na aldeia de Tabosa, vizinha do Carregal, os populares contaram à Lusa outra versão da história do nascimento de Aquilino. "As pessoas antigas diziam que Aquilino Ribeiro era filho de uma freira e de um padre [não da criada de servir Mariana do Rosário conforme consta na sua biografia e tendo nascido no convento]. Depois é que foi levado para o Carregal, porque naquela altura era um escândalo ser filho de um padre e de uma freira", afirmou Hermínio Pereira […]. Outro conterrâneo, João Granja "avança até a forma como Aquilino Ribeiro terá saído, em segredo, do convento” […]. `Para não dar mau falar à freira, nasceu e fizeram-no sair pela roda onde davam de comer aos pobres. Depois levaram-no pelas matas do Torgal, para que ninguém o visse, até ao Carregal, onde uma mulher o criou à mama`". […] (cf. FERREIRA, Ana, ob. cit.; Agência Lusa / Expresso).

2-AMOR PELA NATUREZA E GENEROSIDADE ALTRUÍSTICA

”Em Aquilino Gomes Ribeiro, o sentimento estético e o sentimento ético não se confundem, mas comungam da mesma malga: o amor pela natureza. Diz Urbano Tavares Rodrigues em `O Génio de Aquilino` que “O Mestre é livre-pensador e anticlerical […] mas uma irreprimível atracção o faz abeirar-se dos franciscanos”.

Será que Aquilino era mesmo um anticlerical extremista?

Por mais consideração que mereçam os estudos, incluindo os referentes à figura de Urbano Tavares Rodrigues, não concordo que Aquilino fosse um anticlerical puro e duro. Aquilino apenas era anticlerical na medida em que criticava a hierarquia católica e os clérigos, nomeadamente os que viviam em hipocrisia, que pregavam uma coisa e faziam outra diferente.

Encontrei em Aquilino referências ao Espírito Santo e aos franciscanos; um episódio referente ao “Bom Abade de Pera e Peva em “Aldeia: Terra Gente e Bichos” e uma recorrência à terminologia da Igreja e dos clérigos, que nem sempre me parece formulada de forma crítica. Aquilino era anticlerical somente na medida em que pretendia chamar a atenção para os desvios da mensagem e comunicação cristã original. Em meu entender, Aquilino foi um dos precursores que levaram à renovação do espírito franciscano, tal como está a acontecer na atualidade com o Papa Francisco. Na tumba da Panteão Nacional e, quiçá, em dimensões exteriores, Aquilino encontra um Arauto de nível mundial na figura de Bergoglio.

3-O AMOR PELA LUTA CÍVICA em “Quando os Lobos Uivam”,

O que motivou Aquilino em “Quando os Lobos Uivam” (romance de 1958) foi o fim dos baldios na Serra dos Milhafres. Em finais dos anos 40, o Estado Novo resolve, sem auscultar as populações, apropriar-se das terras que, desde tempos imemoriais, eram explorados pelas comunidades beirãs, onde recolhiam lenha e apascentavam o gado. A população viu-se sem aquele recurso, complicando-se o “modus vivendi”.

Aquilino denunciou, como pode, a situação. Fê-lo por cidadania, altruísmo e solidariedade que são formas de amor para com os seus próximos conterrâneos. 

Uma das principais personagens da obra - Manuel Louvadeus – ex-emigrante no Brasil chega à sua terra natal e vê as populações atingidas com as mudanças e expropriações. Louvadeus volta ao Brasil com a ideia de retornar em auxílio dos conterrâneos, para recuperarem o amor-próprio e desenvolverem a Terra. Nesta perspetiva Louvadeus abre-se com o pai, nestes termos: 

– “Nesta aldeia miserável [...] mais pobre, mais fanática, mais desoladora, hei-de criar uma escola de Artes e Ofícios. Uma escola para lavrantes de pedra. [...]

– Hei-de oferecer lactário... hospital [...]  cantina, onde se dê comer às crianças [...], pôr telefone, luz eléctrica [...]”.

4-O AMOR PELA SUSTENTABILIDADE E BIODIVERSIDADE DA TERRA: A LUTA CONTRA O LIBERALISMO E O REGIME VIGENTE

É notável encontrar na obra de Aquilino a insistência à temática ambiental, como em “Via Sinuosa (1918)” e no “Jardim das Tormentas” (1913), bem como, “O Romance da Raposa” (1923), “Arca de Noé”; “III Classe” (1935) e no “Livro da Marianinha” (1963).

Aquilino é um dos mais arrojados elementos de luta contra os impactos negativos da exploração da natureza. A ideia de um desenvolvimento sustentável está presente em várias obras de Aquilino, com destaque para “Volfrâmio” (1944) e “Quando os Lobos Uivam” (1958). (1) (cf. QUEIRÓS, doc. cit.)

Na obra infantil de 1924 - O Romance da Raposa”:

“[…] Aquilino traça um vasto e pormenorizado fresco da biodiversidade das florestas endógenas do nosso país […]. A sua preocupação com as espécies ameaçadas leva-o a aproveitar o ensejo para denunciar a ameaça de extinção que pesa sobre o lince, sessenta anos antes da campanha nacional para o salvar, no último reduto da Malcata ! […]”. Aquilino emita os sons dos grilos, rãs, rolas, mochos e refere-se às espécies e às formas geológicas, como afirma Urbano Tavares Rodrigues: “Não há talvez em toda a literatura portuguesa quem, como Aquilino Ribeiro, sinta e exprima o campo em todas as suas dimensões [...].

Esta visão da Natureza é uma das formas de expressar o seu amor pela Existência.

Não obstante, Aquilino estar inserido nas lides políticas e maçónicas ele recorre constantemente aos termos da mentalidade católica-cristã. A terminologia frequente de: Deus, Cristo, Diabo, Demo, Barzebu, inferno, santos, campanário, sinos, devoção, rezas, divina graça, pragas e maldições, benta, benzedura, anjinho do senhor, rezas, corte celeste, escândalo, vergonha, rosário, infidelidades, cobras, tentações, contas a Deus, marranito (de marrano, judeu ou mouro que professa a fé cristã mais por conveniência do que por convicção), padre, missa, santarrão, alma cristã, etc., são produto da vasta cultura, não servindo apenas para a crítica, a denúncia mas também como meio de expressão, dando espaço à comunicação dos valores locais, não de um mundo regionalista, à parte, mas como parte integrante num mosaico de terras, povos e culturas; permitindo também a recuperação de termos ancestrais, de raiz clássica e bíblica, em perigo de desuso. A introdução de termos regionalistas de que é acusado, não corresponde à verdade total, pois esse vocabulário aparece em expressões existentes no Mundo Antigo, que entraram em desuso, devido à pouca valorização que se fazia das raízes culturais. Aquilino retoma essa vertente linguística ancestral, resgatando-a do esquecimento, elevando, assim, o nível cultural das populações e a riqueza da língua portuguesa.

As circunstâncias de miséria levam Aquilino a introduzir os episódios do “surripianço de comida” e dos “pilha-galinhas” (cf. RIBEIRO: 1974, pp. 41-42), dando vazão ao instinto da sobrevivência ou, se quisermos, ao vitalismo, de uma forma genérica. Há toda uma animação e vontade gregária/vitalista das gentes nos serões com namoricos e o gozo, como que a justificarem a falta de liberdades e as poucas notícias de outras terras e de outras culturas. (cf. RIBEIRO: 1974, pp. 46-49).

5-O AMOR SOLIDARIEDADE E O AMOR QUE PERDOA

Embora no estilo de romance, Aquilino em “Terras do Demo” faz uma análise das pessoas e da natureza envolvente. Deixa-nos um documento com valor etnográfico, incluindo os defeitos “O homem é o lobo do homem”.  Mas este mesmo homem não é só lobo, ele é também capaz de perdoar e de se desprender dos seus próprios bens. É o caso do “brasileiro” Alonso que ao chegar subitamente à sua aldeia lhe é revelada a infidelidade/traição da mulher. Aí ele desfaz-se de todas as suas prendas que traz do Brasil para a mulher e distribui tudo pelas pessoas da Terra, como num ágape (refeição / amor que se doa/distribui/comunga). Ao chegar junto da esposa com intenções de a matar, ela mesma se antecipa, expondo-se e clamando ao marido que a mate porque é o que merece. A esposa - Zefa do Alonso entrega a vida pelo amor e é ainda o Amor que a vai resgatar da morte por ter cedido ao vitalismo da carne. Perante o clamor da esposa “mata-me, mata-me”, o Alonso fica desarmado de fúria; não consegue fazer mal algum e, pelo contrário, protege a mulher cobrindo-lhe as partes sensuais com que ficara involuntariamente exposta.

Aquilino escreve sobre o Homem da Nave/Terras do Demo para comunicar a sua Terra, fazendo denúncia das condições miseráveis. É pelo amor solidariedade, pelo semelhante e pela natureza que escreve e luta. As personagens são cópia das pessoas reais. Através delas vemos a miséria que grassa pelas terras frias, difíceis de trabalhar, onde o pão é escasso. O discurso está mesclado com valores ético-religiosos. É como no Amor bíblico, traduzido em: “amarás o próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que este" (Marcos 12,30-31).

 
Fontes:

-FIDALGO, Anabela (Prof.) – Resumos de Aulas de Literatura da Professora. USMMA, 2014/2015

-RIBEIRO, Aquilino – Terras do Demo. Lisboa: Círculo de Leitores, 1974

-RODRIGUES, Urbano Tavares - A Horas e Desoras- Lisboa: Edições Colibri, 1993

        Em linha:



---------------- Aquilino Ribeiro – da Lapa à Sorbonne passando pelo M.U.D. e pela Sociedade Portuguesa de Escritores in http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2013/06/24/AQUILINO-RIBEIRO-_9600_-DA-LAPA-_C000_-SORBONNE-PASSANDO-PELO-M.U.D.-E-PELA-SOCIEDADE-PORTUGUESA-DE-ESCRITORES-.aspx



-FERREIRA, Ana Maria – Fernanda Almeida partilha berço com o escritor Aquilino Ribeiro in http://expresso.sapo.pt/aquilino-ribeiro-fernanda-almeida-partilha-berco-com-o-escritor-cfotos=f117118 / Agência Lusa, 15.9.2007

-LIMA, Conceição – As Reconfigurações do Amor em Aquilino Ribeiro: Incursão em Obras Representativas.- Dissertação de mestrado in https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/15188/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20mestrado_Concei%C3%A7%C3%A3oLima.pdf, s. l., s.d.

-QUEIRÓS, António dos Santos - Aquilino Ribeiro e a Filosofia da Natureza e do Ambiente in http://philoetichal.blogspot.pt/p/projecto-de-investigacao-filosofia-e.html?showComment=1365462770347, acedido em 15.4.2015


------------------ “O militante nº 260” in http://www.pcp.pt/publica/militant/260/p18.html).

Tags.: Aquilino Ribeiro; Terras do Demo, luta cívica, Panteão Nacional, literatura, património imaterial, património edificado, património paisagístico, património natural