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quarta-feira, 11 de março de 2015

37. MINHAS MEMÓRIAS - EXPOSIÇÃO 2º PISO MUSEU DOS CTT

Rua de D. Estefânia entre Abril de 1983 e Maio de 1985


Meio suporte ação:

Grito gesto manifesto mensageiro

Som fumo torre pombo-correio caminheiro

Arte epigrafia traço signo desenho cor

Pergaminho papiro papel tradutor

Luz farol ótica semáforo informação

Sopro tubo pneumático telegrama condução

Expressão dor alegria comunicação.

(Pensamento ara 2014)

Começamos pela Sala chamada “posto” por sugestão com os postos dos correios. Tinha 3,85x2,60 m2 e funcionava também como local de repouso dos visitantes. Apresentava essencialmente venda de materiais: postais, livros, diapositivos relacionados com a exposição de comunicações, tecnologias e organização de serviços. Aproveitava-se a decoração das paredes para a representação hierárquica das principais funções e serviços dos CTT, através de um organograma, no qual podia localizar-se o Museu, dependente diretamente do CA – Conselho de Administração dos CTT;

Sala de introdução histórica (8,50x6,00 m2). Além de uma série de espécimes de telecomunicações e do correio, esta sala exibia miniaturas referentes a equipamentos de grandes dimensões, tais como viaturas e ambulâncias ferroviarias postais e aviões.
Numa parede em frente de quem entrava podia observar-se uma sequência de figuras que, só por si, apresentavam uma panorâmica dos principais sistemas de transmissões de mensagens, através dos tempos. Este painel continha uma síntese bem conseguida da História dos Correios Telecomunicações e Faróis. Os Guias (Agentes/Monitores de Exposição) serviam-se destes painéis de imagens para melhor e mais facilmente introduzirem os visitantes no mundo dos Correios e Telecomunicações. Os visitantes podiam recolher aqui as primeiras impressões e informação;

Sala de filatelia: Expunha os espécimes referentes a este setor do Museu: Marcas de dia, carimbos, espécimes de numismática e medalhística e selos de correio num expositor de gavetas, recolhendo-se estes expositores, sempre que não estivessem a ser observados. Conseguia-se assim a tripla função: a) diminuição do espaço necessário para expor milhares de espécimes, b) melhor conservação, especialmente contra os raios ultravioletas; c) proteção contra roubos;

Sala de recetáculos postais e outras peças com 5,40x2,65 m2. Vários modelos de receptáculos eram apresentados, inclusivamente alguns de outros países. O símbolo da União Postal Universal (UPU), uma representação do globo terrestre em latão, à volta do qual figuram pessoas de vários continentes a passar mensagens escritas entre si, como num abraço fraternal (1). Além destas peças destacava-se um expositor com tampa de vidro em V, situado no centro da sala, contendo uma série de postais com valor etnográfico regional proporcionando uma mostra dos hábitos e trajes populares da região de Lisboa (2);

Gabinete da conservadora-chefe e sala de reuniões com 8,70x3,00 m2.
 

 
Além destas peças destacava-se um expositor com tampa de vidro em V, situado no centro da sala, contendo uma série de postais com valor etnográfico regional proporcionando uma mostra dos hábitos e trajes populares da região de Lisboa (2).
Gabinete da conservadora-chefe e sala de reuniões com 8,70x3,00 m2.
........................
(1)  Simbolo/bandeira da União Postal Universal. Não se trata da imagem da peça tridimensinal exposta no ex. Museu dos CTT, hoje no Museu das Comunicações mas de uma imagem bidimensinal, acedida pela Wikipédia in http://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_Postal_Universal.

 
(2) Esteve prevista a criação de Delegações do Museu dos CTT no Porto, Faro e Regiões Autónomas. Aspiração que na realidade não passou do papel, algumas exposições pontuais e temporárias nessas localidades. A área das comunicações e especialmente a de telecomunicações desenvolveu-se muito nos últimos 30 anos, havendo patrimónios consideráveis para se poder voltar ao desiderato. Urge, pois, tornar este desejo/intenção num projeto de Museu Nacional das Comunicações com núcleos onde se justifiquem para a divulgação dos acervos e desenvolvimento das capacidades turísticas das Regiões e Localidades. (cf. ANCIÃES,  Alfredo Ramos in http://cumpriraterra.blogspot.pt/2014/02/para-um-museu-nacional-dos-media-e-das.html)
 
 
Fontes auxiliares:
ANCIÃES, Alfredo Ramos - O Museu dos CTT. Lisboa: Arquivo UNL, 1988/1989. Disponível também em Arquivo do Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações.
 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

34. MINHAS MEMÓRIAS

Do Museu dos CTT Rés-do-Chão da Rua de D. Estefânia entre Abril de 1983 e Maio de 1985

“Senhor:
posto que o capitão-mor desta vossa frota,
e assim os outros capitães escrevam a
Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa
terra nova, que ora nesta navegação se achou,
não deixarei também de dar disso minha conta
a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder,
ainda que --para o bem contar e falar--
o saiba pior que todos fazer” [...] (1)

Neste piso encontravam-se os serviços técnicos de Filatelia e organização de exposições itinerantes, bem como um serviço de documentação.
Seguia-se um pequeno jardim com cerca de 300 m2. Situado nas traseiras do edifício, entre este e o pavilhão da Mala-Posta. Revelava este jardim um interesse didático, como local de introdução ao espaço expositivo do referido pavilhão da Mala-Posta, bem como uma síntese da atividade de transporte do correio via terrestre e via marítima.

Nos quatro painéis de azulejos da fachada do pavilhão, frente ao jardim, podia observar-se o painel da Nau de Gaspar de Lemos que transportara a célebre Carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão oficial que seguia na Armada de Pedro Alvares Cabral, para o rei D. Manuel I. Acto que simbolizava o primeiro transporte de correio a longa distância, do continente americano para Portugal. Outro painel apresentava a primeira Ambulância Ferroviária Postal Portuguesa. O terceiro painel representava um acto simbólico de idealismo, sonho e realidade. Tratava-se da imagem da “Passarola Voadora” de Bartolomeu Lourenço de Gusmão; prestava homenagem a este português nascido nas Terras de Vera Cruz e funcionava como introdução ao transporte do Correio Aéreo.

Ainda no jardim encontravam-se quatro réplicas de marcos, em pedra, de sinalização de caminhos, nomeadamente para a carruagem da Mala-Posta, cujos locais de fixação eram:

1 – Ota, 2 Castanheira do Ribatejo, 3- Cercal, 4- Caldas da Rainha.

De curiosidade é o facto de esses marcos estarem equipados com relógios de sol que permitiam aos passantes e viajantes informarem-se do decorrer do tempo, em dia limpo. Este pormenor revelava curiosidade, sobretudo nas visitas escolares. (2)

Ao fundo do jardim situava-se o Pavilhão da Mala-Posta. Com as dimensões aproximadas de 11,10x17,30 m2. Neste pavilhão figuravam peças originais, ou seja, as diligências mistas do primeiro transporte público de carreira em Portugal para passageiros e correio. Além desta coleção, estavam presentes alguns quadros de viaturas automóveis, algumas das quais usadas ao tempo da abertura da exposição do pavilhão, em 1975.

Também havia expostos alguns exemplares de fardamentos de carteiros, de várias épocas. Interessante igualmente se revelava um quadro, pintura a óleo, de José Pedro Roque, 1973, onde na realidade incluía quatro cenas correspondentes a quatro momentos da viagem da Mala-Posta e ainda o mapa de Portugal indicando o percurso da Mala-Posta do Carregado até ao Porto, com as respetivas Estações de Muda (3) incluindo as refeições e a pernoita, nalguns casos. Este quadro revelava-se um dos espécimes de maior valor didático do Museu dos CTT, dado apresentar as fases mais importantes do percurso da Mala-Posta. O quadro podia ser comparado com os espécimes autênticos de carruagens da época (primeiro transporte público de carreira para passageiros e correio) e com uma miniatura de Raul Campos, 1954, referente ao edifício da Estação de Muda de Casal dos Carreiros, situada entre Caldas da Rainha e o Cercal.

OBS. Do Museu dos CTT ...  continua em próximo post

Notas:
(1)Primeiro parágrafo da Carta de Pero Vaz de Caminha, enviada ao rei D. Manuel I aquando do descobrimento da Terra Nova ou de Vera Cruz no dia 1º de Maio de 1500. 
(2)Com o encerramento do Museu dos CTT na Estefânia, estes painéis e marcos foram trasladados para o Museu da Fundação Portuguesa das Comunicações na Rua de D. Luís I / Rua do Instituto Industrial.
(3)Estações de Muda eram os edifícios quase standard existentes no percurso para a muda dos cavalos (daí o nome) substituindo os cansados por outros cavalos frescos, a fim da viagem poder prosseguir a bom ritmo. Estas Estações serviam também para descanso dos passageiros e algumas para pernoita.

 Fontes auxiliares:
-ANCIÃES, Alfredo Ramos - O Museu dos CTT. Lisboa: Arquivo UNL, 1988/1989. Disponível também em Arquivo do Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações.
-CAMINHA, Pero Vaz de; Biblioteca Nacional in  http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/carta.pdf, acedida em 20.2.2015

 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

18 RAIZES E FUNDAMENTOS PARA UM FUTURO MUSEU NACIONAL DAS COMUNICAÇÕES E TRANSPORTES



Para que a jornada da vida valha a pena, arranja tempo para brincar, ler, viajar, trabalhar, cuidar, descansar, divertir, amar e comunicar. (Pensamentos AA, 2014)

Organização e Política Museológica ao Tempo do Estado Novo

Em 19 de julho de 1952, a cerca de cinco meses após a exoneração de Mário Gonçalves Viana, I conservador, é nomeado o II conservador-chefe. Trata-se de António Mora Ramos que esteve à frente do Museu dos CTT até 6.8.1958, tendo-se desencadeado com este conservador um processo algo semelhante ao do I conservador, devido às mesmas questões de acumulação de funções e de vencimento, como professor do ensino técnico. Deste modo, também Mora Ramos opta por deixar o Museu e os CTT.

No tempo em que Mora Ramos dirige o museu, inaugura-se a 1ª exposição, patente a todo o público, na Rua das Picoas, nº 7, 2º andar onde são expostos espécimes da coleção postal. A primeira exposição com espécimes de telecomunicações viria a ter lugar no ano seguinte (1959), num edifício dos CTT da Rua Castilho e já com a Dr.ª Maria da Glória Pires Firmino, que viria a ser designada conservadora-chefe, substituindo António Mora Ramos.

Em relação à secção de telecomunicações Mora Ramos deixou a exposição pronta a ser exibida, tanto quanto nos informa o seguinte extrato: “No campo telegráfico e telefónico tem já o museu instalações definitivamente montadas, com os aparelhos aptos a funcionar, prontos a mostrar aos empregados e ao público como executam o seu serviço. Foi um trabalho que levou anos, mas, de facto, valeu a pena” (1).

E prosseguindo esta transcrição de Mora Ramos podemos verificar que, não obstante o museu “começar apenas a definir os seus contornos”, são várias as realizações que se devem a este conservador que subiu, “palmo a palmo” a escala socioprofissional, a trabalhar e estudar simultaneamente. Diz-nos Mora Ramos quase no início da sua gestão do Museu que: “Muitas outras montagens estão em curso ou aguardam ocasião – miniaturas de transportes, de instalações técnicas, de serviços, representações esquemáticas, etc.” (2) 

Além destas realizações referidas pelo próprio Mora Ramos, destacamos: A transferência do museu, em 1954, da Rua de São Mamede (ao Caldas), nº 17 para instalações mais espaçosas na Av. Fontes Pereira de Melo nº 26 – 1º; a montagem do setor postal no 2º andar da Rua das Picoas, nº 7 – A, cuja inauguração se realizou em 1958; a preparação e montagem do setor de telecomunicações na Rua Castilho, nº 15 – 2º, cuja inauguração, desta exposição a que Mora Ramos dedicara tantos esforços, não teve o prazer de assistir, uma vez que foi exonerado, a seu pedido, de conservador-chefe do museu em 6 de agosto de 1958, tendo a exposição de telecomunicações da Rua Castilho sido inaugurada no ano seguinte ao da sua exoneração (1959).

Integravam esta exposição, além dos espécimes autênticos de telecomunicações, miniaturas e vária documentação iconográfica, motivo pelo que consideramos uma exposição deste género, pela primeira vez patente ao público, bastante ilustrativa.

Enquadra-se a ação deste II conservador do museu no seguimento da ação do seu predecessor. No entanto a realização de Mora Ramos é mais notória sob o ponto de vista da integração na política museológica vigente, no que respeita aos valores corporativistas, ao passo que a ação do I conservador Mário Viana, se consubstanciou mais nos aspetos técnicos inerentes à refundação do museu, identificação e inventariação dos espécimes que haviam sido acumulados durante muitos anos sem quaisquer referências documentais. Terá sido um verdadeiro “quebra-cabeças” identificar e caraterizar objetos de que “já nem os velhos se lembravam”, como chegou a referir o professor Mário Viana na sua palestra sobre o museu (3).

Na circular nº 33/A de 1947, ano da nomeação de Mário Viana, sob o título Organização do Museu dos CTT podemos verificar o seguinte:

“Estando, presentemente, em organização activa o Museu dos CTT, no qual se devem recolher e catalogar, além de todo o material em uso, todos os aparelhos e utensílios antigos ou postos de parte susceptíveis de documentarem, de uma forma viva e expressiva, a múltipla e extensa actividade da nossa corporação, é de absoluta conveniência fazer recolher ao referido museu tudo quanto, de qualquer maneira, ofereça interesse para a história dos CTT em Portugal”. (4)

Já no Regulamento do Museu dos CTT publicado em ordem de Serviço nº 5501, 1, de Março de 1955 (5) (tempo do II conservador Mora Ramos) o ponto 2 da secção I faz especial referência a “O Valor Psico-Pedagógico de um Museu Profissional”, integrando-se na respetiva época do Estado Novo/Corporativo.

O texto da palestra é ilustrativo: “Trata-se não apenas de uma palestra, mas de mais uma das muitas dezenas de palestras que a Administração-Geral, ao serviço de uma constante política do espírito, já realizou”(6).

Estas declarações são indicativas do aproveitamento em termos sócio-político-ideológicos da ação estatal esperada pelo museu. Referindo-se aos novos funcionários, o conservador Mora Ramos diz que deveriam passar, aquando da admissão, por um estágio no museu, a fim de conhecerem o passado e o presente da “Casa” que iriam servir: “Interessa, sobretudo, que cada funcionário (…) veja e sinta que é um elo da cadeia, um pormenor indispensável no arranjo do conjunto. Interessa sobretudo, que encontre na grandeza da Administração o estímulo indispensável para levar avante o seu próprio trabalho, com entusiasmo, com dinamismo, com justificado orgulho!”[;] “Este Museu vivo que corresponde a uma necessidade da nossa época e da nossa Administração, este Museu que, se Deus quiser, permitirá criar uma colectiva consciência profissional” (7).
Do acima exposto e de outros postes relacionados, poderemos concluir que o atual Museu das Comunicações (herdeiro do Museu Postal, Museu dos CTT, Museu CTT das Comunicações e para-museus: dos TLP, CPRM – Companhia Portuguesa Rádio Marconi e Teledifusora de Portugal) está em condições de se reorganizar e ocupar um lugar de Museu Nacional (e na museologia nacional) de que este Portugal quase milenário, tanto carece para preservação eficaz dos Patrimónios de Comunicações e Transportes. Nenhum outro museu sectorial o poderá fazer com tanta pertinência e abrangência. Estes tempos de privatizações exigem-no. Deixar andar, assobiando para o lado, como se nada se passasse será incúria. Mais tarde “é sempre tarde de mais” como diz Pedro Abrunhosa num dos seus temas.

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Notas:

(1) RAMOS, António Mora – O Valor Psico-Pedagógico de um Museu Profissional. Lisboa: Ed. dos Serviços Culturais dos CTT, 1954, p. 18

(2) RAMOS, ob. cit. p. 19

(3) VIANA, Mário Gonçalves – Um Museu dos CTT: Objectivos – Organização – realização – Funcionamento. Lisboa: Ed. dos Serviços Culturais dos CTT, 1949, p. 58

(4) CTT Circular Nº 33/A de 1947, ano da nomeação de Mário Viana, sob o título Organização do Museu dos CTT

(5) Trata-se do primeiro regulamento formal do Museu dos CTT

(6) RAMOS, ob. cit., pp. 5-6

(7) RAMOS, ob cit., pp. 9-11

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos - O Museu dos CTT. Lisboa: Arquivo UNL, 1988/1989. Disponível também em Arquivo do Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações.
 
-CTT Circular Nº 33/A - Organização do Museu dos CTT, 1947

-RAMOS, António Mora – O Valor Psico-Pedagógico de um Museu Profissional. Lisboa: Ed. dos Serviços Culturais dos CTT, 1954

-VIANA, Mário Gonçalves – Um Museu dos CTT: Objectivos – Organização – Realização – Funcionamento. Lisboa: Ed. dos Serviços Culturais dos CTT, 1949