Mostrar mensagens com a etiqueta Carnide. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carnide. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 8 de setembro de 2020
A CAPICUA 424 NAS TERRAS DA LUZ
Nossa Senhora recebe na Terra Santa o nome de Miriam que significará "Senhora da Luz". Consta que aos três anos de idade foi oferecida pelos pais ao Templo de Jerusalém, onde terá convivido até aos doze anos.
O Nome Miriam terá sido atribuído por inspiração profética, à Mãe de Jesus Cristo.
O Evangelho de S. João refere claramente o episódio. A designação de “Luz” nas terras da Lusofonia acaba por passar a casas, equipamentos e associações, incluindo à denominação do estádio do Benfica / Estádio da Luz, nome atribuído por influência da proximidade ao Santuário da Luz de Carnide - Lisboa.
A 8 de Setembro do ano de 1596, há precisamente 424 anos (registe-se a capicua) a imagem da Nossa Senhora da Luz é transferida da pequena Ermida para a atual Igreja.
No Altar-Mor existe uma tela associada ao seguinte discurso:
“[...] Residia em Jerusalém um homem chamado Simeão [...] Impelido pelo Espírito. Veio ao Templo. Quando José e Maria trouxeram o Menino a fim de cumprirem o que ordenava a Lei […] Simeão tomou-O nos braços, bendisse a Deus e exclamou: «Agora, Senhor, podes deixar o Teu servo partir em paz, segundo a Tua palavra, porque os meus olhos viram A […] Luz para iluminar as nações […]”. (cf. Lc 2,23-32).
Miriam (Maria / Senhora da Luz) foi A escolhida para conceber e dar à Luz A Luz do Mundo.
A tradição indica ainda que Nossa Senhora da Luz, da Purificação, da Candelária ou das Candeias são praticamente sinónimas e veneradas em muitas localidades do mundo lusófono. Carnide está entre os primeiros pontos de entrada e difusão do culto a nível mundial. Este ano, com pena nossa, não se celebra, nem vive um mês inteiro de Festa e de Feira da Luz.
Para o ano que vem, lá estaremos se o Altíssimo permitir e ajudar.
Palavras-chave: Carnide, Feira da Luz, Natividade de Nossa Senhora, Senhora da Luz
Fontes:
--ANCIÃES, Alfredo Ramos – Alma e Luz de Carnide. Lisboa: Apenas Livros, 2013
--VATICANO, et al – “A Virgem Maria na formação intelectual e espiritualn- documento da Congregação para a Educação Católica “
--VATICANO, et al - “Série de artigos sobre Mariologia católica”
https://pt.wikipedia.org/wiki/Natividade_de_Nossa_Senhora
domingo, 25 de junho de 2017
164 A QUINTA / PALÁCIO DA MARQUESA DE RAVARA E O CULTO AO DIVINO ESPÍRITO SANTO EM CARNIDE
001
Palavras-chave: Associação Socorro e Amparo, Carnide, Colégio do Menino Jesus, Culto do Divino Espírito Santo, Marquesa de Ravara, Ordem de S. Miguel de Ala
Antigo
palácio, situado na Rua do Norte (ex-Rua do Correio-Mor), na imediação do Largo
do Coreto, antes designado Alto do Poço. Continua a fazer jus à antiga
proprietária D. Anna Maria Guido - Marquesa de Ravara ou Marquesa de Fora; assim
conhecida, talvez pela procedência italiana do título nobiliárquico.
002
Prima pela
simplicidade na arquitetura e na decoração, como singela e popular era a
religiosidade que liga este palácio à proprietária e ao culto, com a filosofia
milenarista e práticas relacionadas com o Divino Espírito Santo, a Terceira
Pessoa da Santíssima Trindade. As atuais funções parecem ainda fazer jus à
origem.
003
Aqui
tem sede a Associação Socorro e Amparo: Colégio do Menino Jesus, bem como a sede
sul da Ordem de S. Miguel de Ala, cuja tradição diz ter sido fundada por D.
Afonso Henriques há 870 anos (2017-1147=870).
Segundo Vitor Bom Norte, o lugar de “Grão-Mestre da Ordem de São
Miguel da Ala "é [ou pertence ao] Rei de Portugal” que não estando em funções, é representado
pelo(s) pretendente(s) ao trono.
O facto de haver dois ramos aspirantes à coroa portuguesa tem
gerado desinteligências inclusivamente em processos nos tribunais. Nada
que não possa ser resolvido na Justiça e na Sociedade portuguesa (a). Contudo, o lugar de
Grão-Mestrado está atribuído ao Arcanjo São Miguel, patrono da Ordem e também
protetor associado ao culto do Divino Espírito Santo.
(a)A História de Portugal regista várias mudanças de dinastia. Até será
salutar que se mantenham dois ou mais ramos; permitirá quando um falha, ser investido
outro.
004
O logótipo que acima vemos com uma asa e um sol traduz
uma “aparição” a D. Afonso Henriques e seus próximos que terão visto este signo na mui difícil
batalha da reconquista da cidade Escalabitana, escassos meses, antes da chegarem
a Lisboa.
A decoração
dos tetos conta com anjos e crianças tocando flauta, a descansar ou sonhar, distribuindo flores, ou apanhando borboletas.
D. Anna
Maria Guido - Marquesa de Ravara uma das últimas apoiantes (no Continente europeu
português) do interessante culto ao Divino Espírito foi, em meu entender, mestra
exemplar de fratrimónios(a) na versão setecentista, baseada na ancestralidade e
na pureza do bodo e do ágape, tantas vezes representados por figuras angélicas e crianças
do povo.
Daí que
peça permissão para divulgar as imagens decorativas dos anjos que povoam esta
quinta / palácio e associação de socorro e amparo; imagens estas, publicadas em
primeira mão pelo amigo Vitor Bom Norte.
(a)O termo fratrimónio, traduzido em práticas museológicas, segundo tudo parece
indicar, começou com o amigo, ex-Professor de Museologia Mário de Sousa Chagas.
Este conceito tem sido por nós ampliado, inclusivamente nas aulas de Nova
Museologia da USMMA - Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão e na USIA -
Universidade Sénior Intergeracional da Amadora
Fontes:
-Imagens - 001 a 004 Arq. pessoal AA; 005 a 009 Sítio - gentileza de Vitor Bom Norte / Associação Socorro e Amparo - Colégio Menino Jesus
-Bibliografia -
-Imagens - 001 a 004 Arq. pessoal AA; 005 a 009 Sítio - gentileza de Vitor Bom Norte / Associação Socorro e Amparo - Colégio Menino Jesus
-Bibliografia -
ANCIÃES, Alfredo
Ramos – Alma e Luz de Carnide. Lisboa: Apenas Livros, Ld.ª, 2013
-Em Linha, acedidas em 19.06.2017
-NORTE, Vitor
Bom – “A Nossa Escola” https://colegiodomeninojesus.blogspot.pt/2010/01/blog-post.html?showComment=1497540662170#c1872654867518023025; ---“Estou a Crescer” https://colegiodomeninojesus.blogspot.pt/2010/01/estou-crescer.html?showComment=1497541758189#c3646948871258834651; ---“Ordem de Cavalaria de S. Miguel da Ala” - https://colegiodomeninojesus.blogspot.pt/2009/12/ordem-de-cavalaria-de-s-miguel-da-ala.html
Etiquetas:
Associação Socorro e Amparo,
Carnide,
Colégio do Menino Jesus,
Culto do Divino Espírito Santo,
Marquesa de Ravara,
Ordem de S. Miguel de Ala
quinta-feira, 15 de junho de 2017
163 CARNIDE – LISBOA: OS SANTOS E AS FESTAS POPULARES
001 Cartaz de Carnide. in sítio da Junta de Freguesia, 2017
Palavras-chave: Carnide, Lisboa, marchódromo, Santo António, santos populares
Hoje, dia 16 de Junho de 2017, teremos novamente as marchas no Largo da Luz. Tudo parece indicar que na origem
destas festas há um fundo pagão. O processo de cristianização foi-se mesclando
com novos hábitos e novas manifestações. Contudo há uma essência que se mantém.
O primeiro dos santos populares a
ser festejado é Santo António, devido à data da sua morte ter ocorrido a 13 de
junho. Venerado em quase todo o mundo cristão com especial destaque para a
cidade natal de Lisboa.
002 Decoração de rua, festas populares na Voz do Operário, 2016
Com fama de santo milagreiro, foi
canonizado em 1232 no ano seguinte ao da sua morte. O processo foi dos mais
rápidos da História eclesiástica, tal era a consideração e a fama de que gozava
entre a hierarquia da Igreja e a população.
Para lá de santo foi proclamado
Doutor da Igreja em 1946 pelo Papa Pio XII (1). Na Arte tem representação na
escultura, pintura, numismática, filatelia e museografia, com destaque para o
Museu da Cidade, Museu Antoniano de Lisboa e Igreja de Santo António.
(1)Pio XII considera Santo António um «exímio teólogo e insigne mestre em matérias de ascética e mística».
(1)Pio XII considera Santo António um «exímio teólogo e insigne mestre em matérias de ascética e mística».
003 Arte parietal na Voz do Operário, 2016
Fernando de Bulhões, nome de
batismo de Santo Antoninho, como é carinhosamente chamado por muita gente. Nasce
a dois passos da Sé Catedral, tendo crescido junto à Matriz e estudado na vizinhança,
em São Vicente de Fora. Não admira a densidade de representação artística na
cidade. Ademais, o Papa Leão XIII intitulou-o de “Santo de todo o mundo”.
São dignas de nota as
manifestações populares, o enfeite das ruas, escadinhas, largos e demais
espaços públicos com destaque para os bairros e sítios com antiguidade.
004 Marcha Infantil de Carnide, 2016
Exemplos marcantes de novos envolvimentos,
público e do poder local nas marchas, verificam-se em Carnide. Esta freguesia
de Lisboa criou o seu próprio marchódromo no Jardim da Luz, junto à igreja e convento
dos franciscanos.
Carnide apresenta várias Marchas. Algumas
são de população infantil, co-organizadas com as escolas locais. A “Marcha dos
Avós” e a “Grande Marcha Popular do Teatro de Carnide” também têm animado Carnide.
Além dos recursos locais, Carnide também tem apresentado em desfile uma Marcha
convidada.
Fontes imagens. 001 Gentileza à Junta de Freguesia de Carnide; 002 a 004 Arquivo pessoal AA.
Fontes em linha, acedidas em 15.06.2017:
-ANCIÃES, Alfredo Ramos - Festas Juninas – Do Paganismo
ao Popular -
WIKI.. et al.-“Paganismo e Cristianismo”; http://pt.wikipedia.org/wiki/Cristianismo_e_paganismo; http://pt.wikipedia.org/wiki/Cristianiza%C3%A7%C3%A3o; “Festas
juninas” http://pt.wikipedia.org/wiki/Festa_junina
sexta-feira, 2 de junho de 2017
066 162 CARNIDE VISTO PELO PÓRTICO ORIENTAL
037
Palavas-chave: Bandarra, Carnide, Igreja, José
de Guimarães, São Lourenço, Templários
Por volta de 2010 encontrei nas festas da minha
aldeia uma conterrânea. Queria agradecer a Nossa Senhora mas não sabia
como. Pergunta-me se, em Lisboa, sabia onde era a Senhora da Luz.
-Tenho uma oferta para Ela e não encontro gente
que conheça o sítio onde se encontra a imagem.
-Caríssima, o que é que deseja em relação à
Senhora da Luz?
-Queria muito lá ir mas não posso. Se fizer
o favor de me levar a promessa que tenho para a Santa, fico-lhe muito agradecida.
-Eu é que agradeço em confiar-me o cumprimento
desse tão nobre desejo. Respondi à Srª Maria, esposa do amigo e saudoso Manuel Eiras, das Terras de Magriço.
038
Chegado a Lisboa fui entregar a oferta
ao funcionário do santuário. Pedi um recibo para levar de recordação. Nesta
altura começava o estudo na zona mas não sabia que, em termos paroquiais, o
sítio da Luz e Carnide se chamava (e chama) paróquia de São Lourenço e não paróquia
de Nossa Senhora da Luz como pensa a quase generalidade dos visitantes e mesmo muitos
residentes locais.
039
Quando o colaborador da Igreja me entrega o
recibo, fico a olhar para o mesmo, ao ver a referência à paróquia de São Lourenço
e não de Nossa Senhora da Luz. Depois de uma breve conversa com o Sacristão, comecei
a investigar o porquê de se chamar paróquia de São Lourenço. Fui às netes e bibliotecas. Entrei no recinto
e no templo / Igreja de São Lourenço para perceber a grande influência deste santo mártir
(Huesca, Hispânia, 225 -- +258, Roma), então
pertencente ao império romano. Tudo parece indicar que a divulgação e
frequência desta Igreja de São Lourenço terá sofrido “concorrência” do santuário
da Luz, após a construção da Igreja e Conventos no Largo da Luz.
040
Antes de entrar no atrium da igreja de São Lourenço, analiso o
recinto muralhado. Olhando atentamente vejo vários painéis coloridos. Um deles
contém a legenda supra: “AS TENTAÇÕES / JOSÉ DE GUIMARÃES”.
041
Entro e deparo-me com um espaço que me dá uma
sensação de templo cristão mas não me pareceu tão católico e trentista como o
templo da Senhora da Luz e tantas outras igrejas portuguesas. No interior
existe o mínimo de imagens. As paredes predominantemente brancas. No altar-mor vejo
uma imagem, algo inigmática, que não tem semelhança com as tradicionais imagens
de arte religiosa.
042
Interroguei um responsável pela igreja e não
soube, ou não quis, responder à interpretação da imagem no plano central do
altar mor. Trata-se de uma pintura moderna ou pós moderna que me pareceu, antecedida por uma
silhueta de figura antropomórfica na retaguarda, segurando uma espada.
Já na fachada, junto à porta principal deparo-me com a imagem seguinte.
Já na fachada, junto à porta principal deparo-me com a imagem seguinte.
043
E continuei a investigar, até que um dia
encontrei um residente – expert em
brasões. Trocámos impressões.
Ele pergunta-me:
-O amigo das Terras do Demo e de Magriço sabe
da existência de um Sapateiro, o Bandarra?
044
-Sim, vivi em Trancoso. Teremos que continuar a investigar a influência
do “bandarrismo”, especialmente nesta zona de Carnide, certamente.
«Foi
o fogo do teu amor, Senhor, que permitiu ao diácono São Lourenço permanecer
fiel» (cf. Santo Agostinho
(354-430) Bispo de Hipona, Norte de África, Doutor da Igreja).
«O
exemplo de São Lourenço encoraja-nos a dar a vida […]. Não são as chamas da
fogueira, mas as chamas de uma fé viva que nos consomem […]. Pois não foi o
próprio Salvador que disse, acerca deste fogo sagrado: «Vim lançar fogo sobre a
terra […]» (Lc 12,49).
«Foi
também graças a este incêndio interior que São Lourenço permaneceu insensível
às chamas do martírio: ardendo em desejos de estar com Jesus, ele não sentia a
tortura. Quanto mais crescia nele o ardor da fé, menos sofria […]. A força do
braseiro divino que tinha encendiado no coração acalmava as chamas do braseiro
ateado pelo carrasco. (cf. E. Q. do dia 10.08.2015 e Arautos do Evangelho)
045
E cogitámos sobre o significado de vários
símbolos em Carnide, alguns que parecem inéditos na Igreja de São Lourenço e envolvência.
Há, em nosso entender, razões para a existência destes signos nesta zona, outrora
“termo de Lisboa”, que também foi um dos termos do concelho de Belém.
P. S. A visita guiada com o grupo de Nova Museologia da
Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão trará outras explicações.
Fontes:
-ANCIÃES, Alfredo Ramos –
Alma e Luz de Carnide. Lisboa: Apenas Livros, Ldª, 2013
Em linha, acedidos em
01.06.2017 -
-ANCIÃES, Alfredo Ramos – “067 161 Carnide e a sua
Infanta: A obra e a relação platónica com o Poeta” http://cumpriraterra.blogspot.pt/2017/05/067-161-carnide-e-sua-infanta-obra-e.html
------------- - “068 160 Alô
Carnide alô Lisboa: Aproveitando a o fim de ano letivo & preparação para as
festas e feira tradicional de Nossa Senhora da Luz” http://cumpriraterra.blogspot.pt/2017/05/068-alo-carnide-alo-lisboa-aproveitando.html
quarta-feira, 31 de maio de 2017
067 161 CARNIDE E A SUA INFANTA: A OBRA E A RELAÇÃO PLATÓNICA COM O POETA
020
Palavras-chave: Camões, Carnide, história, Infanta D. Maria, Literatura, lusitanismo, maneirismo, saudosismo
Filha de D. Manuel I, a infanta D. Maria
(1521-1577) nasce nos Paços da Ribeira e entrega a alma ao criador em Santos-o-Novo,
Lisboa. No ano em que vem ao mundo, falece seu pai, D. Manuel I (Alcochete,
1469 — +Lisboa, 1521) e, pouco tempo após, a mondadeira leva a sua mãe – Dª
Leonor de Áustria (1).
Dª Leonor (1498 — +1558), filha de Filipe, O Belo (1478 —+1506) (2) nasce em Bruxelas,
atual Bélgica e falece em Talavera, Espanha.
D. Leonor, mãe da infanta deixa Portugal,
após enviuvar, regressando a Espanha.
……………………………………..
(1) Dª Leonor de Áustria, também dita de Habsburgo ou de Espanha,
3ª esposa de D. Manuel I, arquiduquesa de Áustria, princesa de Espanha e
sucessivamente rainha de Portugal e de França, após casamento em segundas
núpcias com Francisco I.
(2) Filipe, O Belo rei consorte de Castela por se ter casado com a
rainha Joana, a louca, filha dos reis católicos.
021
A infanta, protetora de Carnide, fica entregue
a sua tia D. Catarina de Áustria, esposa de D. João III e irmã do Imperador
Carlos V. A vida de D. Maria fica, assim, subordina aos interesses do Reino e
do Rei, seu irmão.
D. João III ordena a constituição da Casa da
Infanta, tendo esta 16 anos. Couberam-lhe avultados bens, uma herança das
maiores da Europa, o que lhe permitiu torna-se senhora de cidades, vilas,
terras e muitos outros bens em Portugal, Espanha e França.
022
No seu paço particular de Santos-o-Novo apoia
a música, a literatura e as artes manuais. Cria uma espécie de Universidade à
dimensão da época. Desejada para casamento pelos príncipes de França, Espanha,
Hungria e Alemanha; e até por Luís de Camões.
Como a realização de um amor carnal/material
fosse impossível no contexto dos padrões culturais e sociais da época,
desenvolve-se um Amor platónico que apenas é conhecido pela tradição e
dedutivamente pela poesia de Camões.
023
A principal razão de nenhum dos casamentos com
a infanta se ter efetuado foi, certamente, o impedimento imposto pelo rei seu
irmão. Urgia evitar que a infanta deixasse a Casa Real de Portugal com um
importante dote que fazia falta à família e a Portugal. Após a morte de D. João
III, a infanta vai a Espanha. Visita a sua mãe e esta implora à filha que fique
com ela e com as muitas fortunas que lhe cabem. Porém D. Maria prometera
regressar a Portugal e cumpriu a palavra.
024
O adiamento ab eterno do casamento da infanta
serve não só os propósitos de D. João III, bem como do seu tio, Carlos V,
imperador do Sacro-Império Romano-Germânico e Rei da Espanha. Este monarca sabe
da vontade de D. Leonor, mãe da infanta, em casar com o delfim de seu marido
Francisco I de França (1497-1547). Porém, Carlos V convence os seus próximos de
que a transferência dos bens da infanta e de sua mãe para França constitui um
perigo para a paz gálica e hispânica.
025
Os valores da infanta não são apenas os da sua
riqueza material. Consta que era dotada de grande inteligência, memória e
cultura. Aprendida com a sua família, também com a aia e irmã desta (Luísa Sigeia
e Ângela Sigeia, de Toledo) que a iniciaram nas letras e nas artes, incluindo
latim e música. Com frei João Soares de Urró aprendeu vária teoria e escrituras
sagradas. No seu
Paço de Santos–o-Novo são ensinadas estas disciplinas e também artes manuais.
026
Além da Igreja, Convento e Hospital da Luz (ou
de Nossa Senhora dos Prazeres) a infanta apoia várias outras instituições:
Santa Helena do Calvário, Nossa Senhora dos Anjos, Capuchos Arrábidos e de
Torres Vedras, S. Bruno, Santo Cristo dos Milagres (Santarém), S. Bento de Avis
e Nossa Senhora da Encarnação (Lisboa). Dá início à Igreja de Santa Engrácia,
apoia o Convento da Graça e o Mosteiro de São Bento; disponibiliza muitos
recursos para vestir e dar de comer aos pobres.
027
Quanto aos bens materiais «[…] em 1571 o
secretário do cardeal Alexandrino chamava-a “a princesa mais rica da
christandade”, referindo-se a suas inumeráveis joias, e um milhão de bens
patrimoniais, que ia gastando com os pobres». Em 1577, pouco antes do falecimento, faz uma
relação de bens e rendimentos, deixando-os em testamento, sobretudo para apoiar
os necessitados.
028
A publicação “O Instituto”, Nº 63 de 1916, pp.
283-288 apresenta uma súmula desse testamento. Prevendo a morte antes que a Igreja da
Luz estivesse concluída “determinou a infanta que o seu corpo fosse
provisoriamente depositado no mosteiro da Madre de Deus, em Xabregas […]» (cf.
ARAÚJO: 24), ali bem perto do seu Paço.
029
A trasladação para a Igreja do Mosteiro de
Nossa Senhora da Luz de Carnide efetua-se em 1597, tal como consta na descrição
das duas legendas infra. Sepultada definitivamente, segundo a sua vontade, em
campa rasa e sem legenda. Contudo, os freires de Cristo acabam por lhe dedicar
uma lápide situada no lado esquerdo da capela-mor, onde pode ler-se: «A CAPELLA-MOOR D`ESTE MOSTEIRO DE NOSSA SNRA
DA / LUZ E ESTE CRVZEIRO SÃO DA SEPOLTVRA (sic) DA SERENIS/SIMA IFFANTE DONA
MARIA Q[UE] D[EU]S TE[M] FILHA D`ELREI DÕ / MANUEL E DA RAINHA DONA LIANOR SVA
MOLHER NA / QVAL CAPELLA E CRVZEIRO SE NÃO DARA SEPOLTVRA A P[ESSO]A / ALGVVA
DE QVALQVER CALIDADE QVE SEIA NEEM EM TEM / PO ALGVM SE FARÁ NHV~ DEPÓSITO NEM
NENHUM LETE/REIRO POR ASSI ESTAR ASENTADO POR SVA M[AJESTA]DE E POR / CONTRATO
SOLENE E CELEBRADO Q[VE] SE FEZ CO O PA/DRE CONFIRMADO PELO PA/DRE DO[M] PRIOR
E MAIS PADRES DO SEV CONVENTO DE THOMAR / CUIO TRE[S]LADO ESTA NA TORRE DO
TOMBO E NESTA CASA / DE NOSSA SNRA FALECEO A DEZ DO N FRº DE 1577.»
030
Porém, em altura diferente, é-lhe dedicada uma
outra legenda mais sintética, sobre a própria pedra tumular: «AQVI JAZ / A IFFANTE DONA MARIA / FILHA DEL
REI DÕ MANOEL / E DA RAINHA DONA LIANOR / FALECEO EM 1577».
Já no século XX, a sepultura chã é
classificada como monumento nacional.
031
Beleza, grandeza e simplicidade da infanta
O conde de Vila Franca (3) apresenta a infanta “[…] alta, de
esplêndidas formas. Elegantíssima […] denotando grande energia e isenção de
carácter, uma formusura suavíssima, bem revelada na alvura da pelle, no azul
dos olhos vividos e na cor loira dos cabelos, que lhe coroavam de ouro a
espaçosa e ampla fronte, onde o talento espontâneo evidentemente se expandia.
Este talento era ainda abrilhantado por muita erudição e incessante amor ao
estudo ” (4).
……………………..
(3) Condes de Vila Franca, da família Gonçalves da Câmara (séc.
XVI-XVII).
(4) RODRIGUES, José Maria “Ful text of “Camões e a Infanta D.
Maria” in https://archive.org/stream/cameseinfantad00rodruoft/cameseinfantad00rodruoft_djvu.txt
………………………..
032
Diversos príncipes europeus desejaram-na para
casamento, quer pela sua beleza, quer pela fortuna, porém a infanta de Portugal
e da Luz de Carnide, não aceita propostas. Contudo, levantam-se suspeições de
que o seu irmão D. João III contribuiu para esse “desiderato” da infanta em
recusar matrimónio.
033
“Seu viver tão ajustado era aos sãos
princípios da religião, tão sereno e regular […] que mais parecia a Infanta uma
religiosa vivendo em estreita clausura do que uma Princesa estadiando no meio
do século na posse de fortuna colossal”. (cf. ARAÚJO, A. de Sousa: 19; O
Instituto, nº 63 (1916), p. 54).
034
«A própria Infanta no fervor da sua paixão
pelo local chega a residir pontualmente em Carnide, tendo comprado as casas de
D. Maria Coutinha que ficavam próximas da ermida». (ARAÚJO, A. de Sousa: 20,
cita SOVERAL: l. 39 vº).
035
«Considerada no seu tempo a princesa mais rica
herdeira da cristandade» (cf. ARAÚJO, A. de Sousa: 20-23). Usa a sua imensa riqueza para ajudar os
pobres, quer em vida, quer depois da sua morte. Em 1577 faz uma relação de bens
e rendimentos para apoiar os necessitados.
035
O Amor Platónico de Camões pela Infanta
José Maria Rodrigues (Coimbra, 1910) dedica um
estudo ao amor platónico que Camões revelava pela infanta. Vai buscar a
redondilha do “perdigão que perdeu a pena” como manifestação de melancolia e
sofrimento, quiçá revelando um saudosismo e lusitanismo. Atribui a Camões
sentimentos dolorosos ao considerar-se infeliz por não ver retribuído o mesmo
amor. Tudo parece indicar que a redondilha de melancolia e sofrimento data da
época da crise portuguesa que antecede o desastre de Alcácer Quibir. Próximo
dos finais da vida, Camões revela o seguinte pensamento: “morro com a Pátria” (5)
…………………….
(5) Frase citada in. "Obras de Luiz de Camões: precedidas
de um ensaio biographico, no qual se relatam alguns factos não conhecidos da
sua vida augmentadas com algumas composições inéditas do poeta pelo Visconde de
Juromenha ...".. Francesco Petrarca. Lisboa: Imprensa Nacional, 1860,
volume 1, p. 148
«Perdigão, que o pensamento
Subio a um alto logar,
Perde a penna do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar, nem no vento,
Asas com que se sostenha.
Não ha mal que lhe não venha!
Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E vendo-se depennado.
De puro penado morre.
Se a queixumes se soccorre,
Lança no fogo mais lenha.
Não ha mal que lhe não venha!».
Carolina Michaëlis de Vasconcellos (6) também se dedicou ao
tema dos amores platónicos de Camões pela infanta. O soneto citado por Carolina
(7) é, na opinião
desta filóloga, um dos que melhor caracterizam o amor não correspondido:
…………………………
(6)Carolina Wilhelma Michaëlis de Vasconcelos. Nasceu em Berlim, na
altura reino da Prússia, em 1851. Faleceu no Porto, em 1925. Contudo é considerada
portuguesa, quer pelo seu casamento com Joaquim António da
Fonseca de Vasconcelos, quer pelo grande sentimento
português, tendo mesmo dirigido a revista Lusitânia, daí o seu lusitanismo na análise da obra da Infanta e de
Camões. (cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Carolina_Micha%C3%ABlis )
(7)Cf. VASCONCELOS - A infanta D. Maria de Portugal
(1521-1577) e as suas Damas Porto: 1902, p. 4
«Doce sonho, suave e soberano,
Se por mais longo tempo me durára!
Ah! quem de sonho tal nunca acordára,
Pois havia de ver tal desengano!
Ah! deleitoso bem! ah! doce engano!
Se por mais largo espaço me enganára!
Se então a vida misera acabára,
De alegria e prazer morrera ufano.
Ditoso, não estando em mi, pois tive.
Dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhae com que me paga o meu destino!
Emfim, fóra de mim ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
Pois sempre nas verdades fui mofino»
[mofino = desgraçado, desventurado].
Outro soneto, muito conhecido e divulgado nos
estudos de José Maria Rodrigues, Coimbra, 1910 e no blogue de Montalvo é dos
que mais revela a desilusão de tanto ter errado, suspirado e lamentado por
erros que incluem o amor não correspondido:
«Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor, somente.
Tudo passei, mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
Errei todo o decurso de meus anos;
Dei causa a que a fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!»
José Maria Rodrigues classifica o poeta da
epopeia como:
«[…] o genial doido, ao comparar [o próprio
poeta] com o perdigão desasado, se devia recordar, com amarga saudade, do
tempo, não muito afastado, em que julgava pôr o pensamento em tão alto lugar!»
«Num tão alto lugar, de tanto preço,
Este meu pensamento posto vejo,
Que desfalece nele inda o desejo,
Vendo quanto por mi o desmereço.
Quando esta tal baixeza em mi conheço,
Acho que cuidar nele é grão despejo,
E que morrer por ele me é sobejo
E mór bem para mi, do que mereço.
O mais que natural merecimento
De quem me causa um mal tão duro e forte,
O faz que vá crescendo de hora em hora.
Mas eu não deixarei meu pensamento,
Porque, inda que este mal me cause a morte,
Un bel morir tutta la vita honora.»
Neste soneto, Camões (1524-1580) reconhece a
sua pequenez de estatuto social perante tão altíssimo e nobre amor, em relação
à infanta D. Maria, evidenciado em: “Quando esta tal baixeza em mi conheço”.
Ainda estamos no período clássico
renascentista da literatura. Camões denuncia: “[…] um mal tão duro e forte / O
que faz que vá crescendo de hora em hora”. Contudo, ainda não está cansado de
tanta desilusão, como no final dos seus dias. A força de vontade e um certo
contentamento são evidenciados entre o grande sofrimento: “Porque, inda que este mal me cause a morte, /
Un bel morrir tutta la vita honora.”
Verificamos que as descrições: física e
psicológica acerca da infanta têm como base as memórias recolhidas por fr.
Roque do Soveral, em "História do insigne do aparecimento de Nª Srª da Luz
e suas obras", bem como as investigações de George Cardoso em "Hagiológico
Lusitano", sendo o primeiro da altura do decadentismo, com a perda da
independência e o segundo já depois da restauração e ainda coincidente com a
estética barroca.
Outras fontes acerca da infanta são as de
Norberto de Araújo em "Inventário de Lisboa" (8) e de António de Sousa Araújo - escritor
na Editorial Franciscana em "O Santuário da Luz - Glória de Carnide".
……………………..
(8)Acerca deste movimento e suas reminiscências cf. ARAUJO, Ana
Paula in http://www.infoescola.com/movimentos-culturais/saudosismo-portugues/
Estas descrições pendem para o lado laudatório
com reminiscências de saudosismo e lusitanismo. Camões, por sua vez é destacado
como o grande poeta da epopeia, o eterno apaixonado, conhecedor do ambiente da
Corte mas pobre e, nos finais, caído na desgraça, juntamente com a Pátria.
José Maria Rodrigues e Carolina Michaëlis de
Vasconcellos analisaram a vida e obra de Camões entre finais do século XIX e
primeiro quartel do século XX, também num tempo de saudosismo e lusitanismo.
Nota final: para quem estiver interessado, a
freguesia de Carnide preserva marcas físicas e memoriais referentes à infanta,
desde a sua sepultura, legendas, brasão, um retrato no retábulo esquerdo do
cruzeiro da igreja e documentação afim.
Fontes:
-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Alma e Luz de Carnide. Lisboa: Apenas
Livros, 2013
-ARAÚJO, António de Sousa – O Santuário da Luz – Glória de
Carnide. Lisboa - Braga: Paróquia de Carnide (Edit.); Oficinas Gráficas da
Livraria Editora Pax. Ldª (Imp.), 1977
-ARAÚJO, Norberto de – Camões não foi bem como Aquilino o viu
“conferência proferida na Camara Municipal de Lisboa, 4 de Julho de 1949
------------- – Inventário de Lisboa. Lisboa: 1955
-CARDOSO, George – Hagiológico Lusitano, II, Lisboa: 1657
-O Instituto, nº 63 (1916)
-SOVERAL, Fr. Roque do - História do insigne aparecimento de Nª
Srª da Luz e suas obras. Lisboa: 1610
-VASCONCELOS, Carolina Michaëlis - A infanta D. Maria de
Portugal e as suas Damas. Porto: Edição facsimilizada da Typ. a Vapor Arthur
José de Souza, 1902
Em linha acedidas em 23.4.2015 e 31.05.2017:--ANCIÃES, Alfredo Ramos “41 Portugal Amores e Patrimónios Lusófonos Comunicados”
--ARQNET, et al. - “Maria (D.). Infanta de Portuga” http://www.arqnet.pt/dicionario/maria_inf7.html);
--DGCT et al “Infanta
D. Maria” http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.pt/; http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.pt/search/label/Infanta%20D.%20Maria ;
--CAMÕES, Luís de; OLIVEIRA, Esas Carmo, et al. - http://sonetoscamonianos.blogspot.pt/2009/03/erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente.html
--CAMÕES, Luís de; Jornal de Poesia et al. - http://www.jornaldepoesia.jor.br/camoes80.html
--PORTAL SÃO FRANCISCO et
al . - “Doce Sonho Suave e Soberano”
--RODRIGUES, José Maria - “Camões e a Infanta D, Maria...” https://archive.org/stream/cameseinfantad00rodruoft/cameseinfantad00rodruoft_djvu.txt;
--RODRIGUES, José Maria et al. - “Camões e a Infanta D. Maria: Parte I” - http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.pt/2010/08/camoes-e-infanta-d-maria-parte-i-o-meus.html;
--VASCONCELOS, Carolina Michaelis de -“Infanta D. Maria de Portugal
(1521-1577) e as suas damas” http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.pt/2011/09/infanta-d-maria-de-portugal-1521-1577_29.html
--WIKI..
et al. - “Maria de Portugal, Duquesa de Viseu; ” http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_de_Portugal,_Duquesa_de_Viseu
--WIKI.. et al. - Imagem
da Infanta D. Maria de Portugal, 6ª duquesa de Viseu in http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_de_Portugal,_Duquesa_de_Viseu#/m...
Subscrever:
Mensagens (Atom)




