quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

80 ANOS DE RADIODIFUSÃO PÚBLICA EM PORTUGAL E 9 SÉCULOS DA ORDEM DE CISTER

Entre 2015 e 2016 comemoram-se 80 anos de radiodifusão pública em Portugal. Os eventos de oito décadas da Rádio e de 9 séculos da Ordem de Cister não podiam passar ao de leve, como acontecimentos banais.

O destino, a sorte, ou o acaso, fizeram com que fossemos convidados a participar na avaliação (peça a peça) da coleção de radiodifusão que, em boa hora, José Madeira Neves recolheu e cuidou; a Câmara Municipal de Alcobaça adquiriu e preservou.
 
Imagens 1 e 2. Recorte do cartão/gentileza do Sr. José Madeira Neves; Dir. Museu das Comunicações - Cristina Weber e Câmara Municipal de Alcobaça

Em 1098 nasce em Cister, Dijon – França uma nova comunidade religiosa (1). Após cerca de dezassete anos, Bernardo instala-se num outro sítio, ermo de gente, e que viria a ser conhecido por Claraval. Tudo indicando que este nome vem de “Clara Vallis”, vale claro ou vale da luz, conotado com um significado bíblico e/ou religioso, à semelhança do que viria mais tarde a acontecer com a Luz de Benfica / Carnide, em Portugal. (2).

É no “vale claro” ou vale da luz, próximo de Cister, que a comunidade se desenvolve, pese embora a intenção inicial de São Bernardo ser apenas a de se retirar para meditar, orar, levar uma vida simples e frugal que a anterior Ordem de Cluny já não estaria nas melhores condições de proporcionar.  


 
Imagem 3. Convento de Alcobaça

      Contextualização:
      A nova Ordem de Cister atraiu, desde o início, grande adesão de membros e visibilidade. Fruto das condições da época é solicitada para povoar, defender, desenvolver e até conquistar ou reconquistar (3). Hoje em dia há várias terras que adotam a designação Terras de Cister com base no património edificado e cultural; também com base nos arroteamentos, secagem de pântanos, obras de hidráulica, metalurgia e mineração, entre outras obras realizadas e/ou geridas pelas comunidades cistercienses. 


 
Imagem 4. Rio Alcôa que poderá estar na origem do nome Alcobaça

A Ordem de Cister desenvolveu os correios para intercâmbio entre os vários locais de implantação. Caminhos e pontes foram melhorados, nomeadamente para as visitas: regulares e pontuais das redes de conventos no âmbito nacional, peninsular e europeu.

Alcobaça pertencia à Casa-Mãe de Cister (França) e tornou-se, ela própria no século XVI, como Casa-Mãe da mesma Ordem em Portugal. Há quem diga que nada acontece por acaso e, neste aparte, é oportuno trazer o caso da concretização, a breve trecho, da abertura dum espaço museológico de rádio e comunicações nas Terras de Cister de Alcobaça.

Em meu entender o novo museu da rádio em Alcobaça deverá alargar a exposição a outros patrimónios de comunicações, que não só da rádio. Para lá dos equipamentos radioelétricos e musicais, poderá expor e divulgar a toponímia ligada às comunicações; o percurso dos correios monacais, as cartas e os textos, as tecnologias da escrita, o telégrafo, a telefonia, até às estações de rádio e imprensa da região.

Imagem 5. Antiga Casa Vazão, onde será instalado o novo Museu de Alcobaça
 
       Como nasceu o projeto do museu da rádio em Alcobaça?

Resultou, em primeira instância, do labor de um colecionista e técnico, o Sr. José Madeira Neves que recolheu, colecionou e preservou durante anos um acervo que denominou “Espólio Colecção Madeira Neves – Casa das Máquinas Falantes”. A Autarquia foi sensível ao trabalho meticuloso do munícipe, adquiriu o acervo, fez uma pré-avaliação, peça a peça, e registou a informação em base de dados, dando-lhe uma mais-valia.

Um Museu da Rádio, Pessoas e Comunicações (4) pode plasmar estas valências. A coleção tem, desde já, um espólio que inclui peças de música, telefonia, telégrafo, fonógrafos, rolos de cera, altifalantes, amplificadores, recetores, incluindo do tipo militar, televisões, gravadores e leitores de bobinas de fita, cabina/locutório, máquinas fotográficas clássicas, leitores óticos, entre outros espécimes.
 
       Este acervo terá nascido com uma primeira ideia de coleção de recetores de radiodifusão, evoluindo para o conceito de “máquinas falantes”. Em 2016 poderá ver a luz do dia já com um conceito mais abrangente na ótica das tecnologias e da cultura musical, comunicações e entretenimento. Terá um olhar especial para os patrimónios do universo cisterciense, mormente das trinca e cinco casas da Ordem que contámos no espaço nacional (5). Demonstrará que o desenvolvimento dos correios e as comunicações terrestres, muito ficou a dever aos monges cistercienses porque os mosteiros mantinham comunicações entre si, especialmente entre a Casa-Mãe e as associadas (6).

A exposição será instalada na Rua Araújo Guimarães, envolvência do Jardim do Amor, do Arco de Cister e do Mosteiro. Há que dar vida a estes acervos, envolvendo o tecido humano e cultural, nomeadamente: associações musicais, etnográficas, comerciais, entre outras, porque todas usam e são produtoras de património e comunicações.

Não basta ter um sonho, é preciso trabalhar em cima dele para que o sucesso seja uma realidade. Espera-se que, enfim, em 2017 este acervo possa ser apreciado em condições de leitura e interpretação. Sucessos mil ao novo museu da rádio, pessoas e comunicações.

Um Bom Natal: De Belém a Éfeso, Meca, Oriente, Europa, Cister, Claraval, África, Ásia, Austrália, Américas, Alcobaça ... Portugal.

Tags: Alcobaça, Comunicações, História local, Museologia Social, Museu da Rádio, Terras de Cister

Notas:
       (1) Ordens religiosas são comunidades que podem ser de leigos ou clérigos, contudo, consagrados. Usam vestes características. Nos seus hábitos diários entram rotinas: levantar, orar, trabalhar/cuidar, retiro/reflexão/reclusão, recreio/comunicação, deitar. Existem quatro tipos de ordens religiosas: a) Monásticas: com homens ou mulheres, vivendo na comunidade dos mosteiros. Os Cistercienses, entre vários outros, estão inseridos nesta classificação; b)Mendicantes: com homens ou mulheres que vivem agrupados em comunidades de conventos, contudo têm uma vida menos isolada do que outros monges. Atuam ativamente no mundo secular, em obras com os pobres necessitados, serviço religioso de missas, procissões evangelização, etc. Os Franciscanos e Dominicanos, entre outros, pertencem a esta classificação; (c) Regrantes: são ordens de cónegos. Ex. de Santo Agostinho; d) Regulares: são os clérigos consagrados, vivendo em comunidade. Ajudam o clero secular nas paróquias, nas atividades da liturgia (missas), nos vários sacramentos e exercem a evangelização. Exemplo, os Jesuítas e os frades crúzios.
        (2) Repare-se que também o Mosteiro de Nossa Senhora da Luz de Carnide – Lisboa esteve na alçada dos monges cistercienses (no caso, de Seiça, concelho da Figueira da Foz), só em fase posterior passou para a órbita da Ordem de Cristo de Tomar.
        (3) São Bernardo, cognominado de Claraval, esteve pontualmente envolvido na ideologia das cruzadas. Quando analisadas de modo descontextualizado, as cruzadas parecem ter sido um erro histórico. No entanto devemos olhar para as raízes e o desenvolvimento do processo da Reconquista que teve como resultado o desabrochar de Portugal e o desenvolvimento do comércio entre o Ocidente e o Oriente. As cruzadas foram uma reação ao processo de expulsão e acantonamento forçado a que estiveram sujeitas as populações refugiadas nas regiões montanhosas, sobretudo das Astúrias. Hoje em dia, ambas as civilizações: de raiz islâmica e cristã deviam pedir mutuamente perdão porque ambas prevaricaram em invasões e barbarismos. É preciso um reinício de nova Era, de mútua aceitação, paz e prosperidade.
      (4) Esta é uma das designações possíveis que aqui incluo - Museu da Rádio Pessoas e Comunicações das Terras de Cister. Será mais abrangente do que apenas um museu baseado na simples referência técnica dos aparelhos de rádio. Cabe, porém, aos responsáveis uma designação que seja o mais consensual possível entre os autarcas e as populações.
       (5) Datas aproximadas do início do funcionamento destas comunidades religiosas cistercienses(a) nos seguintes locais.
- Lafões (H) 1138
- Tarouca (H) 1143
- Sever (H) 1144
- Alcobaça (H) 1153
- Salzedas (H) 1156
- São Pedro das Águias (H) 1170
- Santa Maria de Aguiar (H) 1174
- Tomarães (H) 1172
- Fiães (H)1175
- Stª Maria de Bouro (H) 1174
- Maceira Dão (H) 1188
- Seiça (H) 1195;
- Stª Maria da Júnias (H) 1209;
- Stª Maria de Ermelo (H) 1250;
- Stª Maria da Estrela (H) 1220;
- S. Paulo de Frades ou de Almaziva (H) 1221;
- Colégio do Espírito Santo ou de S. Bernardo (H) 1550;
- Nª Srª do Desterro (M) 1590
- Colégio de Nª Srª da Conceição de Alcobaça (H) 1648
- Lorvão (H) 1206
- Stª Maria de Celas (M) 1214
- Arouca (M) 1223
- Stª Maria de Cós (M) 1249
- S. Salvador de Bouças (M)
- S. Bento de Cástris, Évora (M) 1275
- Stª Maria de Almoster (M) 1278
- S. Dinis, Odivelas (M) 1295
- S. Bento de Xabregas (H) 1492)
- S. João de Vale Madeiro (M) 1530
- S. Bernardo ou Nª Srª da Conceição de Portalegre (M) 1530
- S. Bernardo de Tavira ou Nª Srª da Piedade de Tavira (M) 1530
- Nª Srª da Nazaré do Mocambo (M) 1653
- Tabosa de Sernancelhe (M) 1692
- Nª Srª do Desterro (H) 1763 (reconstrução)
- Real Misericórdia de Nª Srª da Nazaré, Setúbal (M) 1771

(cf.  Mapa e lista de Mosteiros Cistercienses em Portugal “Ordem de Cister. Herança cultural em Portugal e na Europa” - http://www.snpcultura.org/ordem_cister_heranca_cultural_portugal_europa.html, aced. 7.12.2015)

     (6)Após o encerramento forçado, por altura do Regime Liberal, tudo parece indicar que há vontades e condições para algumas destas comunidades cistercienses se voltarem a instalar em Portugal. 

(a) o “H” significa Homens e o “M” Mulheres:
....................................
Fontes:
-Anciães, Alfredo Ramos; Câmara Municipal de Alcobaça  -  "Avaliação da coleção de recetores de rádio, telégrafos, amplificadores, altifalantes, telefones, microfones e televisão". Sintra / Alcobaça, 2007
-Franco, José Eduardo – O Esplendor da Austeridade. Lisboa: INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2011. “Tema: História, Antropologia, Sociologia, Economia e Política”, Portugal; Terras de Cister.

 Documentos em linha, acedidos em 06.12.2015 -

-900 anos S. Bernardo de Claraval - http://www.arautos.org/especial/28855/sao-bernardo-de-claraval.html ; http://www.arautos.org/noticias/67679/2015--Abadia-de-Claraval-festeja-900-anos.html
-Acervo do futuro museu da rádio de Alcobaça - http://www.cm-alcobaca.pt/pt/noticias/2497/acervo-do-futuro-museu-da-radio-de-alcobaca-contem-mais-de-5000-pecas.aspx

-Câmara quer abrir museu da rádio em Alcobaça - http://www.diarioleiria.pt/noticias/camara-quer-abrir-museu-da-radio-em-alcobaca-ate-final-do-ano
-Câmara de Alcobaça adquire lojas armazéns Vazão para instalar o futuro museu da rádio - http://www.pportodosmuseus.pt/2015/10/06/camara-de-alcobaca-adquire-lojas-armazens-vazao-para-instalar-o-futuro-museu-da-radio/
-Futuro museu da rádio de Alcobaça contém mais de 5.000 peças - http://cister.fm/cister/noticias/cultura-e-musica/acervo-do-futuro-museu-da-radio-de-alcobaca-contem-mais-de-5000-pecas/
-Herança cultural em Portugal e na Europa - http://www.snpcultura.org/ordem_cister_heranca_cultural_portugal_europa.html
- Hino dos 80 anos da rádio - http://media.rtp.pt/extra/radio/video-de-comemoracao-dos-80-anos-da-radio/
-Mosteiros cistercienses -  http://www.snpcultura.org/ordem_cister_heranca_cultural_portugal_europa.html  
-Museu da rádio em Alcobaça - http://www.gazetacaldas.com/53273/museu-da-radio-em-alcobaca-em-2016/
-Museu da rádio será instalado nos antigos armazéns Vazão - http://www.oalcoa.com/museu-da-radio-sera-instalado-nos-antigos-armazens-vazao/
-Ordem de Cister. Herança cultural em Portugal e na Europa - http://www.snpcultura.org/ordem_cister_heranca_cultural_portugal_europa.html

Imagens: -
1 a 2. José Madeira Neves; Dir. Museu das Comunicações - Cristina Weber; Câmara Municipal de Alcobaça;
       3 a 5. Arq. pessoal AA

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

116 MINHAS MEMÓRIAS COM AGRADECIMENTOS

Santa Luzia ou Santa Lúcia de Siracusa e a minha cura.
Trata-se duma santa, natural da ilha da Sicília – Itália, ao tempo do Império Romano e de Diocleciano como Imperador.
Imagem de Santa Luzia in templo / igreja de Sarzeda Sernancelhe
Consta que Diocleciano mandou perseguir ferozmente, por todo o Império, inclusive no atual território português (1) todos os que na época praticavam o culto cristão e que não estivessem dispostos a renunciá-lo a favor dos ídolos / cultos pagãos.
Entre os vários suplícios que fizeram a Luzia conta-se que lhe arrancaram os dois olhos; contudo os mesmos reconstituíram-se, e ainda mais bonitos do que os trespassados, segundo contam registos hagiológicos e populares.
A lenda e/ou realidades espalharam-se pelo mundo cristão, tendo resultado no culto da Santa protetora da vista.
&&&
Quando eu próprio era pequeno, em brincadeira com os meus primos Ramos Beco; um rapaz, já homem, chamado “Ramboia” (não sei se por alcunha) natural do Seixo, freguesia de Sarzeda, concelho de Sernancelhe, aproxima-se de mim e dos meus primos. Levanta com força a carroça da Junta Autónoma das Estradas (2), onde eu e meus primos brincávamos. Resultado: caí sobre uma objeto e fiquei em estado lastimoso com uma vista semi-vazada.
Minha mãe leva-me imediatamente e a pé, ao médico de Vila da Ponte, cerca de 10 km por caminhos que “o diabo amassou”. O médico procede imediatamente a uma cirurgia com os escassos meios ao dispor naquela freguesia das Terras do Demo, que também são Terras de Deus, e de Aquilino Ribeiro.
Juntamente, pelo caminho, a mãe rezava, e fez promessa a Santa Luzia, frente ao templo, onde se venera em Sarzeda – Sernancelhe. Hoje, só quem me observa muito atentamente, vê um ligeiro sinal de diferença entre a vista lesada e a outra.
Como nesta semana se festeja Santa Luzia, aqui deixo o meu preito à Santa, à minha prezada e saudosa mãe e ao médico que me operou. Na altura, e sempre, a mãe me contou que foi milagre de Santa Luzia e também uma interceção do Senhor dos Passos co-padroeiro da minha aldeia.
OBRIGADO sempre.
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Tags: hagiologia,  minhas memórias, Terras do Demo, Terras de Magriço, Santa Luzia
 
(1)Exemplo: os santos mártires de Lisboa de Santos-o-Velho, nomeadamente: Veríssimo, Júlia e Máxima, +cª 303, d. C

(2)Organismo estatal de que meu tio era chefe dos Cantoneiros, entre Penedono e Moimenta da Beira.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

BAIRRO ALTO / SÉTIMA COLINA CURIOSIDADES SÃO ROQUE


SÃO ROQUE. NOTAS DE UM PERCURSO

Tanto o museu como a colina de São Roque - Lisboa devem o nome a este santo, natural de Montpellier (cª 1284-cª1327). Faz ora, em 16.8.2016 o 689º, supostamente o ano da sua partida. Proveniente de família abastada, nasce quando seus pais estão de idade avançada. Os progenitores sempre terão acreditado num milagre de ter um filho. Contudo, os pais morrem antes de Roque atingir a maioridade.
001(AA) Imagem de São Roque in Capela da Freguesia da Abrigada - Alenquer, onde pode ver-se o cão a entregar um pão a Roque
Quando pode dispor de alguns bens, Roque exerce com eles o que, em termos de Nova Museologia e Social, ou de Filosofia do Cristianismo, se pode classificar de ação fratrimonial. Roque distribui os bens pelos pobres, praticamente em segredo.

Sem subsistência, resolve partir para Roma. Pede esmola para sobreviver. Já em Itália, em Acquapendente, depara-se com o alastramento da peste. Não foge da mesma. Enfrenta-a e dirige-se ao hospital para ser útil.

Consta que a sua presença em Acquapendente, como noutras localidades, por onde passa, a peste se dizima em breve tempo. Ainda em Itália tem conhecimento de que a localidade de Piacenza (ou Placência) se debate com os mesmos problemas de peste. Roque parte para ser útil nesta localidade. Também aqui vai assistir enfermos.
Contudo, em Piacenza, é o próprio Roque que não resiste incólume. Fica gravemente doente, infestado dos males que cura à polução. Afasta-se por sua vontade, muito debilitado e a custo, para não ser um peso para os outros, nem contribuir para a difusão da infestação. Abriga-se junto a uma choça, sem quaisquer bens, nem mesmo água.

Roque aceita o destino.
Quer, porventura, o Altíssimo que Roque não definhe ali, isoladamente. Junto dele vê aparecer uma fonte, que se preserva na atualidade e é visitada em memória do santo, sendo as águas procuradas como bênção.

Perto desse local de abrigo há um castelo habitado por um nobre de nome Gotardo e um cão. O cão apercebe-se da presença de Roque e vem em seu auxílio trazendo-lhe alimentação que desvia do castelo. Gotardo acha estranho o inabitual desaparecimento do animal e da comida. Resolve investigar para onde o animal se dirige e Gotardo vê-se em presença do estranho.
Gotardo conversa com Roque. Resultado - um novo convertido. Gotardo renuncia, igualmente, aos bens e vai disfarçado pedir esmola; faz-se eremita. Entretanto Roque recupera e volta a Piacenza onde cura os doentes, apenas com a sua presença e a bênção das ruas com o sinal da cruz.
É altura de voltar para a sua terra. Mas em Montpellier não é reconhecido, nem pelo seu tio governador. É preso, falsamente acusado de espião, não acreditam (ou fingem, não acreditar) nele. Na cadeia, prestes ao falecimento, cuja hora da morte consta que lhe foi revelada, pede ao carcereiro que lhe dê o privilégio de ser assistido por um sacerdote para que lhe dê a extrema-unção.

Em breve, Roque é encontrado sem vida, após a presença de uma intensa luz a sair do cárcere.
Acorre o carcereiro que se depara com uma mensagem escrita: «Os que tocados pela peste invocarem o meu servo Roque, serão livres por sua intercessão desta cruel enfermidade».
A sua morte é divulgada e ocorre gente à prisão. Entre as pessoas, um familiar certifica que é mesmo Roque, pois reconhece-lhe um sinal de cruz com que Roque nascera. E assim se difunde a aura deste cidadão europeu, de Montpellier, por quase todo o mundo conhecido, especialmente pelo mundo de tradição cristã.
002 (AA) Imagem parcial do Museu de São Roque e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

OCULTO DO SANTO EM LISBOA
O culto, em Lisboa, data de inícios do século XVI, ao tempo de D. Manuel I e liga-se precisamente ao sítio de São Roque na 7ª colina – junto ao Bairro Alto.
Neste local, fora de portas da muralha fernandina, havia um cemitério.

Como a fama de Roque se expandira em tempos de pestes, D. Manuel I resolve solicitar a Veneza uma relíquia do santo e, para isso, constrói-se uma ermida no local, onde acaba por dar origem a um templo maior, a atual Igreja de São Roque, funcionando como local de culto e como peça integrante do Museu de São Roque.

 JESUÍTAS EM SÃO ROQUE
Em 1540, ao tempo de D. João III, entram os jesuítas e já com falta de instalações em Santo Antão (o Velho e o Novo) escolhem também o sítio de São Roque na então denominada Vila Nova de Andrade.

A decisão de se expandir a cidade para a parte de cá do vale do Rossio e das Portas de Santa Catarina, terá resultado da necessidade de albergar mais gente, devido ao desenvolvimento das atividades ligadas ao mar, à expansão pelos Descobrimentos e ao sismo e maremoto de 1531. Certa população das zonas orientais; à volta do Castelo, Alfama e Mouraria, bem como outros novos habitantes, vão-se transferindo para sul e ocidente, isto é para o Bairro Alto ou de São Roque.
003 Imagem da Capela de São João Batista com iconografia do batismo de Jesus no Museu de São Roque (gentileza – publicada in https://www.facebook.com/museudesaoroque/ )
Sabe-se que desde 1513 com D. Manuel I havia sido autorizado o plano de edificação desta zona ao serem adquiridos terrenos de propriedade e/ou usados por: Guedelha Palaçano, Filipe Gonçalves, Luís de Atouguia; terrenos do Convento da Trindade e da cerca deste convento, juntamente com a Vila Nova do Olival, junto ao mesmo convento; e ainda, os terrenos de Bartolomeu de Andrade e sua esposa - Francisca Cordovil. Daí, também, a designação de Vila Nova de Andrade atribuída ao Bairro Alto.

Posteriormente, sendo rei D. João III, fervoroso adepto dos jesuítas, facilita-lhe a vinda e a instalação nesta zona. A Ermida de São Roque passa para a Companhia de Jesus em 1553 e não tarda a sua conversão em Casa Professa, onde já existia o Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos que resta em memória toponímica da zona e em alguns equipamentos e edifícios, tais como o Teatro da Trindade, a Central Telefónica da Trindade, a Cervejaria Trindade e outros equipamentos e topónimos.
Com a expulsão dos Jesuítas, em 1759, as instalações desta Casa Professa são entregues à Santa Casa da Misericórdia com os seus bens de recheio.

MUSEU DE SÃO ROQUE, CAPICUA 111
Em 1898 é criado formalmente o Museu de São Roque, que acaba por abrir portas ainda em tempo da monarquia, isto é, no ano de 1905. E aqui temos a capicua 111, que a meu ver deveria ser festejada, entre 2016 /2017.

Trata-se, em minha opinião, de um dos mais interessantes museus de Arte Sacra a nível nacional e internacional, pelo espólio original que dispõe, como coleções de «pintura, escultura, ourivesaria, iluminura, têxteis, relicários, frontais de altar […]» do século XVIII.
Bem como a própria igreja de São Roque com seu conjunto de peças, entre as quais se destaca a característica e importante capela de São João Batista onde o arquiteto e ourives português, por adoção, João Ludovice tem especial intervenção nas peças decorativas.
 
004, 005, 006 (AA) Pormenores do Palácio Ludovice / Solar do Vinho do Porto
Em memória de João Ludovice, nesta zona, podem ser visitadas, não só a capela de São João Batista, bem como as suas moradas, nomeadamente a Rua de São Pedro de Alcântara, onde se encontra o Solar do Vinho do Porto e que brevemente será hotel de charme.

Na envolvente, Igreja da Encarnação ao Chiado, repousa para a eternidade Ludovice, presente na arte do Museu de São Roque, bem como no Convento de Mafra, na qualidade de Arquiteto Mor. Acresce que o Convento de Mafra faz ora 300 anos do lançamento da primeira pedra. Nesta altura já existia o Bairro Alto onde João Ludovice acaba por construir o seu palácio do qual as três imagens supra são testemunho.
Tags: Arquitetura, Bairro Alto, História, João Ludovice, Museu de São Roque

Fontes:
-CERVEJARIA Trindade, et al. – “Convento da Santíssima Trindade dos Frades Trinos da Redenção dos Cativos”. Desdobrável. Lisboa: Cervejaria Trindade, s.d. ;

Em linha, acedidos em 6.12.2016:

-AGÊNCIA Eclésia et al – Capela de São João Baptista na Igreja de São Roque https://www.youtube.com/watch?v=h1kByvmn7qs
-CML et al. – “Bairro Alto” http://www.cm-lisboa.pt/equipamentos/equipamento/info/bairro-alto

-CML, Agenda Cultural Lisboa, et al. – “Museu de São Roque” http://www.agendalx.pt/local/museu-de-sao-roque

-MUSEU de São Roque, et al. – “Museu de São Roque” https://www.facebook.com/museudesaoroque/ ; ------- - Capela de São João Baptista na Igreja de São Roque - http://www.museu-saoroque.com/pt/igreja-de-sao-roque/as-capelas/capela-de-sao-joao-batista.aspx Museu de São Roque ; Padre António Vieira ; Capela de São João Batista”

-PORTUGAL, Património Cultural, Sistema  de  Informação  para  o  Património  Arquitetónico –
“Bairro         Alto         de         São         Roque         /         Vila         Nova         de         Andrade”
 http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5019

-SANTA       Casa      da      Misericórdia,      et al.        –        “Museu        de        São        Roque”
http://www.museudesaoroque.com/pt/igreja-de-sao-roque/historia.aspx ; -------
“Robot            sorridente            mostra            Museu            de            São           Roque”

-WIKIMEDIA et al - “Companhia de Jesus”. https://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_de_Jesus
115 Cumprir a Terra AA "BAIRRO ALTO / SÉTIMA COLINA CURIOSIDADES"

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

114. PATRIMÓNIOS E SIMBOLOGIAS

A CATEDRAL DE AACHEN

A catedral de Aachen encontra-se alterada em relação ao original. No entanto, nela prevalecem elementos importantes datados da Idade Média, incluindo a capela palatina. Em minha opinião, esta catedral prossegue uma imagem de Império, através da arte e cerimoniais de coroações de reis e imperadores à maneira da latinidade e romanidade.
Tudo parece indicar que a edificação e ornamentação se inserem numa estratégia de aliança da realeza e das populações com o Papa, como forma de imaginário, saudosista e identitário do Império Romano. Está aqui patente uma influência cristã da romanidade, segundo a recomendação dos concílios: Niceia, 325 (1); Constantinopla, 381 (2); Éfeso, 431 (3); Calcedónia, 451 (4); Constantinopla II, 553 (5); Constantinopla III, 680-681 (6) e Niceia II, 787 (7).
A descrição sumária desta Catedral que aqui apresentamos, visa destacar características locais, de influência goda do norte. Exemplo: o estilo gótico. Trata-se duma obra mandada edificar por Carlos Magno, cerca do ano 790 e continuada pelos seus sucessores. Nesta Catedral encontra-se a sepultura do característico rei dos Francos – Carlos Magno, também designado Imperador do Ocidente.
Este tipo de obra precedeu as catedrais do norte da Europa de influência gótica/bárbara. Também por este motivo se tornou num ícone ao servir inclusivamente para o coroamento dos imperadores do Sacro Império Romano:
“Considera-se que o título imperial passou dos romanos para o reino Franco, em 800 d. C., o papa Leão III coroou o rei dos francos, Carlos Magno, imperador e este, por protecção à Igreja católica, na qualidade de patrício dos romanos e por força da sua dignidade imperial, condenou os perseguidores do pontífice à morte, condenação que foi retirada por intervenção do próprio papa.” (8).
Património da Humanidade
Na capela mantêm-se traços bizantinos e germânicos. A catedral recebeu uma das primeiras classificações da Unesco como Património da Humanidade e isso deve-se, certamente, ao seu significado, como obra-prima da Europa, de influência romana e cristã.

Consta que esta capela tem origem no tempo do pai de Carlos Magno (Pepino, o Breve) para servir de guarda e veneração de relíquias; entre elas, uma relíquia de singular importância.
Trata-se da capa de São Martinho de Tours (Panónia, 316 – Gália, 397). Crê-se que a própria designação de capella, hoje associada a pequeno templo, ou pequena “igreja”, provém exatamente da função inicial da capa + ela, sendo este o suposto local de preservação de tal relíquia com que o santo ficou célebre ao dividir o seu manto (capa) com o próximo - um pobre encontrado no caminho.
Outro aspeto em comum com o Império Romano é o facto da estrutura da capela, cópia da Basílica de São Vital de Ravena (atual Itália). Consta também que os mármores das colunas e os bronzes das grades do interior foram importados de Itália. Contudo são introduzidos novos elementos, o que terá levado o próprio Carlos Magno a proferir que a obra foi projetada seguindo a sua “propria dispositione”, isto é, segundo a expressa vontade (projeto) do Imperador, sem prejuízo de fazer de Aachen/Aquisgrano uma espécie de continuação de nova Roma do Ocidente.

Uma analogia com a charola do Convento de Cristo de Tomar
Outra curiosidade da capela é o facto da planta e dos alçados interiores com oito lados. – Simbologia, esta, associada à eternidade, ao poder celestial sobre a Terra, dia seguinte ao da criação do Mundo e ainda ao número preferido pelos Cavaleiros Templários (9).
Repare-se que também a capela, designada Charola do Convento de Cristo de Tomar, herança Templária, está construída sobre uma planta e alçados de 8 lados. Nos mosaicos da capela, figura Cristo rodeado por anciãos, mais uma vez, uma imagem semelhante à que aparece no Livro da Revelação/Apocalipse, segundo São João.
Esta marca é outro ponto de contacto da fé sanjoanina, prosseguida pelos Templários. Temos portanto na capela/catedral de Aachen um sinal bíblico acerca do tempo em que foi escrito este Livro do Apocalipse (séc. 1 d.C.), retransmitido para o mundo cristão.
O trono está construído em mármore, proveniente da capital Romana. Também as colunas de capitéis coríntios foram importadas por Carlos Magno da cidade de Ravena. Tudo para imitar o antigo Império Romano. Desde Carlos Magno, até 1531, foram coroados na Catedral de Aachem três dezenas de monarcas, à semelhança de Roma.
Simbologia e arte
Verificamos que a arte encanta, é veiculo de educação, cultura e identidade e, ao mesmo tempo, assusta quem dela não partilha e se considera excluído, “esmagado” e/ou ofendido pela mesma. Sublinho ainda, que a figura/retrato de Carlos Magno, (cf.  http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Magno;  acedido em 8.11.2014) apresenta a mão direita segurando uma esfera contendo uma cruz e a esquerda detém uma espada.
No escudo de armas com fundo azul, aparecem três flores-de-lis que representam as monarquias francas e são também um sinal de unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ou seja, está aqui representado o conceito/mistério da Santíssima Trindade: as três folhas da flor-de-lis estão unidas com um laço natural. Este conceito de unidade da Trindade vinha-se revelando desde o Concílio de Constantinopla do ano de 381 (v. notas infra, concílios 1 a 7).
Unidade dos Poderes Político-Religioso
O poder político franco-germânico e o papado uniram-se como forma de contornar a situação vulnerável da Europa, sobretudo após o poder de Constantinopla se ter distanciado da antiga Roma. As vantagens resultarão positivas para os dois lados – os povos da Europa procuram continuar a cultura e religião do antigo Imperio, em torno da figura pontifícia que passou a representar a unidade e a autoridade perdidas com as invasões e as disputas de poder.
A “queda/desmoronamento” do Império Romano foram, portanto, relativos. Acho que houve continuidades de influência e de poder à maneira romana, nomeadamente com as dinastias merovíngia e carolíngia.
Estas continuidades são prosseguidas nas realezas e reinos da Europa da Idade Média e Moderna.
Neste ponto de vista, parece-me que o Império Romano e a latinidade/romanidade não desapareceram.
Notas:
Concílios de:
(1)Niceia, 325.  “Condena o Arianismo e proclama a igualdade de natureza entre o Pai e o Filho”. É também deste Concílio que sai a oração do Credo.

(2)Constantinopla, 381. “Afirma a natureza do Espírito Santo e estabelece que o bispo de Constantinopla receberá honras logo após o de Roma”.
(3)Éfeso, 431. “[…] Afirma […] a maternidade divina de Maria”
(4)Calcedónia, 451.  “[…] Afirma a unidade das duas naturezas completas e perfeitas em Jesus Cristo, humana e divina […]”.
(5)Constantinopla II, 553. “[…] Condena os ensinamentos de Orígenes […] e os documentos nestorianos […]”.
(6)Constantinopla III, 680-681. “[…] Dogmatiza as duas naturezas de Cristo condenando o  monotelismo […]”.
(7)Niceia II, 787. “[…] Regula a questão da veneração de imagens (ícones) condenando os iconoclastas […]”.
(8)Cf. Lista dos Imperadores dos do Sacro Império Romano-Germânico -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_imperadores_do_Sacro_Imp%C3%A9rio_Romano-Germ%C3%A2nico
(9) A primeira sede dos Cavaleiros Templários foi na Mesquita de Al-Aqsa no chamado Monte do Templo, em Jerusalém. Os Cruzados que aqui se instalaram chamaram-lhe Templo de Salomão, por o mesmo ter sido construído sobre as fundações do Templo dedicado a este Profeta. Por esta via, os Cavaleiros que foram na Cruzada e aqui se instalaram passaram a ser conhecidos por Cavaleiros do Templo ou Templários.
 
Fontes:

-“O Embelezamento da catedral de Aachen” in coletânia de textos propostos para a aula de História Medieval da Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão (USMMA) pela prof. Catarina Midões, entre eles:
-Einhardi, Vita Karoli Imperatoris, in A. Oeuvres Complètes d`Eginhard. T., Société de l`Histoire de France, Paris, 1840, pp. 83 a 85.
 
Outros documentos em linha -

-Águia heráldica - http://pensamenteando.com/2006/04/05/aguia-heraldica-dos-brasoes-para-a-moda/;

-Bandeira da Alemanha - http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandeira_da_Alemanha;

-Brasão de armas da Alemanha - http://cildeutschbrasilia.blogspot.pt/2012/03/brasao-da-armas-da-alemanha.html;
-Brasão de armas do Sacro Império Romano-Germânico e da Alemanha -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Bras%C3%A3o_de_armas_da_Alemanha;
-Carlos Magno -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Magno; acedidos em 8.11.2014;
-Charola Templária do Convento de Cristo de Tomar - http://www.conventocristo.pt/pt/index.php?s=white&pid=186;
-Catedral de Aachen - http://www.germany.travel/pt/cidades-e-cultura/patrimonio-mundial-da-unesco/catedral-de-aachen.html ;
-Catedral de Aquisgrano http://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Aquisgrano ;
-Cronologia dos Concílios - http://pt.wikipedia.org/wiki/Conc%C3%ADlio_ecum%C3%A9nico#Cronologia_dos_conc.C3.ADlios_ecum.C3.A9nicos ;
-Lista dos Imperadores do Sacro Império Romano-Germânico -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_imperadores_do_Sacro_Imp%C3%A9rio_Romano-Germ%C3%A2nico;
-Lista dos Reis Francos - http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_reis_francos#Dinastia_carol.C3.ADngia;
-Património Cultural da Humanidade – a Catedral de Aachen - http://www.germany.travel/pt/cidades-e-cultura/patrimonio-mundial-da-unesco/catedral-de-aachen.html;
-São Martinho de Tours - https://www.google.pt/?gws_rd=ssl#q=s%C3%A3o+martinho Documentos em linha acedidos em 11-11-.2014
 
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