segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Marcas Patrimoniais em Carnide e Luz de Lisboa


 
PREPARAÇÃO DE UMA VISITA


Conta-se que Pedro Martins (Pero Martiz na grafia original) natural de Carnide, onde faleceu em 14 de Março de 1466 (segundo George Cardoso, em Agiológio Lusitano) esteve prisioneiro no Norte de África. Possivelmente capturado, não se sabe ao certo se no âmbito do desastre de Tanger (1437) ou se capturado por piratas em qualquer viagem que tenha feito ao Algarve, de onde sua mulher era natural. Na sequência desta captura, e como não houve resgate, Pedro Martins – homem religioso, só já esperava por um qualquer milagre. Teve algumas vezes a aparição e intercessão duma Senhora envolta em luz que, no cárcere, lhe prometeu que o libertaria das amarras e o faria regressar a Carnide onde trataria de edificar uma Capela em seu nome, nas bandas da Fonte do Machado, onde encontraria uma imagem escondida. A Capela foi edificada e classificada na categoria de Ermida. Subjaz, em parte, nos alicerces da actual Igreja da Luz e é visitável em determinadas circunstâncias.

 


Começou assim o culto à Senhora da Luz que veio a sobrepor-se (ou impor-se ?) ao culto do Espírito Santo e contribuir para o esmorecimento deste, até o esquecimento, não obstante ter sido venerado e estimado em Carnide durante mais de 3 séculos. Falaremos, pois, na origem do culto ao Espírito Santo com fontes bíblicas, na sua autonomização/divinização e expansão, a partir do Pentecostes, e da entrada em Alenquer, Carnide, encosta do Castelo de Lisboa e tantos outros locais de Portugal, acabando por esvanecer-se, em parte também, devido à “concorrência” de outras santidades.


Falaremos da origem do culto a Nossa Senhora da Luz, da Purificação ou da Candelária com raizes em Israel mas sendo igualmente um fenómeno de divulgação quase exclusivo da portugalidade.


Abordaremos motivações para o apoio ao culto mariano e outros santos, a que não serão alheios  factores como os ligados à Contra-Reforma e ao Concílio de Trento. E ainda a popularidade do culto, festas e folias à volta do Espírito Santo que, em muitos casos, deixou de agradar ao clero, bem como ao poder político. Tal popularidade e manifestações à volta do Espírito Santo tornaram-se perigosas (ou, pelo menos, pensaram ser perniciosas) para a manutenção da ordem, como veremos. Daí a extinsão ou apagamento destas manifestações em Portugal continental, acabando por se salvarem nos Açores e no Brasil onde, longe da corte e do clero mais “ortodoxo”, sobreviveram, não obstante algumas proibições conhecidas e a retirada de apoios do clero nos espaços de culto, nas procisões e nas folias.


Este culto em Carnide leva-nos ainda a falar das teorias milenaristas do cisterciense Joaquim de Fiori mas também das suas raizes judaicas, bandarristas (de Bandarra – célebre sapateiro de Trancoso, de que há marcas em Carnide), do padre António Vieira, de Fernando Pessoa, António Quadros e Agostinho da Silva, que não se cansava em falar no século XIII, idade por excelência do culto ao Espírito Santo e na ideia de que o Homem não nasceu com a finalidade de trabalhar.


Tal como aconteceu com o culto de Nossa Senhora da Luz, o culto do Divino Espírito Santo (hoje em dia alterado), também é um fenómeno de divulgação mundial, essencialmente a partir de Portugal. Aproveita-se para uma breves palavras sobre o modo como o conceito de Espírito Santo evoluiu até ser considerado Deus, a par do Pai e do Filho, com identidade e vontade própria e sobre o modo como este culto chegou a Portugal.  


Falaremos também da monumentalidade que existiu em Carnide até 1755 e teceremos ligeiras palavras sobre outros patrimónios construídos após o  Terramoto. Apontaremos os vários conventos ou casas religiosas e as novas funções que desempenham. Veremos  marcas deixadas pelo Correio-Mor e outras dos correios e telecomunicações ao tempo do Estado Novo.


Falaremos ainda na infanta D. Maria (1521 - 1577) filha do rei D. Manuel I, uma das infantas mais ricas e mais belas do mundo de então; apresentaremos algumas poesias de Camões (que se pensa ter frequentado Carnide) motivadas pelo amor impossível ou interditado à mesma infanta que repousa na capela-mor da Igreja. Abordaremos as marcas rurais deixadas na toponímia, tais como azinhagas, quintas, arqueologia e aquitectura, bem como a urbanização com a passagem de Carnide para o Município de Belém (1852 - 1885).


Enfim,  teremos uma palavra em relação à gestão autárquica nas últimas décadas, bem como sobre a restauração e a animação num espaço histórico que sendo alfacinha está tão perto e tão longe de Lisboa. Perto fisicamente, e, longe do ponto de vista psicológico, remetendo-nos para uma certa raiz de ruralidade que os poderes locais têm acautelado como marcas de valorização e de identidade.

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