segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

SIMBOLOGIAS ROMANO-EUROPEIAS

O EXEMPLO DA CATEDRAL DE AACHEN


A catedral de Aachen encontra-se alterada em relação ao original. No entanto, nela prevalecem elementos importantes datados da Idade Média, incluindo a capela palatina. Em nossa opinião, esta catedral prossegue uma imagem de Império, através da arte e cerimoniais de coroações de reis e imperadores à maneira da latinidade e romanidade. Tudo parece indicar que a edificação e ornamentação se inserem numa estratégia de aliança da realeza e das populações com o Papa, como forma de imaginário, saudosista e identitário do Império Romano. Está aqui patente uma influência cristã da romanidade, segundo a recomendação dos concílios: Niceia, 325 (1); Constantinopla, 381 (2); Éfeso, 431 (3); Calcedónia, 451 (4); Constantinopla II, 553 (5); Constantinopla III, 680-681 (6) e Niceia II, 787 (7). A descrição sumária desta Catedral que aqui apresentamos, visa destacar características locais, de influência goda do norte. Exemplo: o estilo gótico. Trata-se duma obra mandada edificar por Carlos Magno, cerca do ano 790 e continuada pelos seus sucessores. Nesta Catedral encontra-se a sepultura do característico rei dos Francos – Carlos Magno, também designado Imperador do Ocidente. Este tipo de obra precedeu as catedrais do norte da Europa de influência gótica/bárbara. Também por este motivo se tornou-se num ícone ao servir inclusivamente para o coroamento dos imperadores do Sacro Império Romano: “Considera-se que o título imperial passou dos romanos para o reino Franco, em 800 d. C., o papa Leão III coroou o rei dos francos, Carlos Magno, imperador e este, por protecção à Igreja católica, na qualidade de patrício dos romanos e por força da sua dignidade imperial, condenou os perseguidores do pontífice à morte, condenação que foi retirada por intervenção do próprio papa.” (8).

Património da Humanidade

Na capela mantêm-se traços bizantinos e germânicos. A catedral recebeu uma das primeiras classificações da Unesco como Património da Humanidade e isso deve-se, certamente, ao seu significado, como obra-prima da Europa, de influência romana e cristã. Consta que esta capela tem origem no tempo do pai de Carlos Magno (Pepino, o Breve) para servir de guarda e veneração de relíquias; entre elas, uma relíquia de singular importância. Trata-se da capa de São Martinho de Tours (Panónia, 316 – Gália, 397). Crê-se que a própria designação de capella, hoje associada a pequeno templo, ou pequena “igreja”, provém exatamente da função inicial da cap(a)ela como local de preservação da relíquia com que o santo ficou célebre ao dividir o seu manto com o próximo - um pobre encontrado num caminho. Outro aspeto em comum com o Império Romano é o facto da estrutura da capela, cópia da Basílica de São Vital de Ravena (atual Itália). Consta também que os mármores das colunas e os bronzes das grades do interior foram importados de Itália. Contudo são introduzidos novos elementos, o que terá levado o próprio Carlos Magno a proferir que a obra foi projetada seguindo a sua “propria dispositione”, isto é, segundo a expressa vontade do Imperador, sem prejuízo de fazer de Aachen/Aquisgrano uma continuação de Roma.
Uma analogia com a charola do Convento de Cristo de Tomar
Outra curiosidade da capela é o facto da planta e alçados interiores com oito lados. – Simbologia, esta, associada à eternidade, poder celestial na Terra, dia seguinte ao da criação e ainda ao número preferido pelos Cavaleiros Templários (9). Repare-se que também a capela, designada Charola do Convento de Cristo de Tomar, herança templária, está construída sobre uma planta e alçados de 8 lados. Nos mosaicos da capela, figura Cristo rodeado por anciãos, mais uma vez, uma imagem semelhante à que aparece no Livro da Revelação/Apocalipse, segundo São João. Esta marca é outro ponto de contacto da fé sanjoanina, prosseguida pelos Templários. Temos portanto na capela/catedral de Aachen um sinal bíblico acerca do tempo em que foi escrito este Livro do Apocalipse (séc. 1 d.C.), retransmitido para o mundo cristão. O trono está construído em mármore, proveniente da capital Romana. Também as colunas de capitéis coríntios foram importadas por Carlos Magno da cidade de Ravena. Tudo para imitar o antigo Império Romano. Desde Carlos Magno, até 1531, foram coroados na Catedral de Aachem três dezenas de monarcas, à semelhança de Roma.
Simbologia e arte
Verificamos que a arte encanta, é veiculo de educação, cultura e identidade e, ao mesmo tempo, assusta quem dela não partilha e se considera excluído, “esmagado” e/ou ofendido pela mesma. Queremos ainda sublinhar que a figura/retrato de Carlos Magno (cf.  http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Magno;  acedido em 8.11.2014) apresenta a mão direita segurando uma esfera contendo uma cruz e a esquerda detém uma espada. Será uma versão precoce dos cruzados e templários. Lembra-nos, ainda, a Ordem de Cristo com a futura esfera armilar portuguesa. No escudo de armas com fundo azul, aparecem três flores-de-lis que representam as monarquias francas e são também um sinal de unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ou seja, está aqui representado o conceito/mistério da Santíssima Trindade: as três folhas da flor-de-lis estão unidas com um laço natural. Este conceito de unidade da Trindade vinha-se revelando desde o Concílio de Constantinopla do ano de 381 (v. notas infra, concílios 1 a 7).
Unidade dos Poderes Político-Religioso
O poder político franco-germânico e o papado uniram-se como forma de contornar a situação vulnerável da Europa, sobretudo após o poder de Constantinopla se ter distanciado da antiga Roma. As vantagens resultarão positivas para os dois lados – os povos da Europa procuram continuar a cultura e religião do antigo Imperio, em torno da figura pontifícia que passou a representar a unidade e a autoridade perdidas com as invasões e as disputas de poder. A “queda/desmoronamento” do Império Romano foram, portanto, relativos. Achamos que houve continuidades de influência e de poder à maneira romana, nomeadamente com as dinastias merovíngia e carolíngia. Estas continuidades são prosseguidas nas realezas e reinos da Europa da Idade Média e Moderna e, em parte, no mundo onde os Europeus se estabeleceram e relacionaram. Neste ponto de vista, parece-nos que o Império Romano e a latinidade/romanidade não desapareceram totalmente. Daqui resultará parte da reação/antagonismo e um certo choque de civilizações.

Notas

Concílios de:

(1)Niceia, 325.  “Condena o Arianismo e proclama a igualdade de natureza entre o Pai e o Filho”. É também deste Concílio que sai a oração do Credo.

(2)Constantinopla, 381. “Afirma a natureza do Espírito Santo e estabelece que o bispo de Constantinopla receberá honras logo após o de Roma”.

(3)Éfeso, 431. “[…] Afirma […] a maternidade divina de Maria”

(4)Calcedónia, 451.  “[…] Afirma a unidade das duas naturezas completas e perfeitas em Jesus Cristo, humana e divina […]”.

(5)Constantinopla II, 553. “[…] Condena os ensinamentos de Orígenes […] e os documentos nestorianos […]”.

(6)Constantinopla III, 680-681. “[…] Dogmatiza as duas naturezas de Cristo condenando o  monotelismo […]”.

(7)Niceia II, 787. “[…] Regula a questão da veneração de imagens (ícones) condenando os iconoclastas […]”.

(8)Cf. Lista dos Imperadores dos do Sacro Império Romano-Germânico -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_imperadores_do_Sacro_Imp%C3%A9rio_Romano-Germ%C3%A2nico

(9) A primeira sede dos Cavaleiros Templários foi na Mesquita de Al-Aqsa no chamado Monte do Templo, em Jerusalém. Os Cruzados que aqui se instalaram chamaram-lhe Templo de Salomão, por o mesmo ter sido construído sobre as fundações do Templo dedicado a este Profeta. Por esta via, os Cavaleiros que foram na Cruzada e aqui se instalaram passaram a ser conhecidos por Cavaleiros do Templo ou Templários.

Fontes

-“O Embelezamento da catedral de Aachen” in coletânia de textos propostos para a aula de História Medieval da Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão (USMMA) pela prof. Catarina Midões, entre eles:

-Einhardi, Vita Karoli Imperatoris, in A. Oeuvres Complètes d`Eginhard. T., Société de l`Histoire de France, Paris, 1840, pp. 83 a 85.

Outros documentos em linha




-Brasão de armas do Sacro Império Romano-Germânico e da Alemanha -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Bras%C3%A3o_de_armas_da_Alemanha;

-Carlos Magno -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Magno; acedidos em 8.11.2014;

-Charola Templária do Convento de Cristo de Tomar - http://www.conventocristo.pt/pt/index.php?s=white&pid=186;




-Lista dos Imperadores do Sacro Império Romano-Germânico -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_imperadores_do_Sacro_Imp%C3%A9rio_Romano-Germ%C3%A2nico;


-Património Cultural da Humanidade – a Catedral de Aachen - http://www.germany.travel/pt/cidades-e-cultura/patrimonio-mundial-da-unesco/catedral-de-aachen.html;

-São Martinho de Tours - https://www.google.pt/?gws_rd=ssl#q=s%C3%A3o+martinho Documentos em linha acedidos em 11-11-.2014

Massamá-Sintra, dezembro de 2014

Alfredo Ramos Anciães

Sem comentários:

Enviar um comentário