segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

CARDAES DO BAIRRO ALTO DE SÃO ROQUE ENTRE FRATRIMÓNIOS DA NOSSA HERANÇA CULTURAL


001 Silhar no Convento dos Cardaes. Será produto da mão de artífice nacional ou holandês, e porquê?
Estamos, em meu entender, num dos sítios referenciais de Lisboa pela carga (que também é cargo e encargo), de marcas presentes, atinentes à nossa História, como povo: pioneiro, bandeirante, acolhedor e solidário, mas também, com defeitos, ou parcos de informação, a começar por nós próprios.
No caso, em destaque dos Cardaes, do Bairro Alto de São Roque, ou das Mercês e envolvência, foram tomadas opções históricas: fratrimoniais, artísticas, políticas e de gestão que nos orgulham. De modo que, podemos na atualidade admirar, reflectir, questionar e fruir tudo isto.

002 E este será holandês ou português. Porquê?
Entre a escolha do local do Convento (“estar juntos”) dos Cardaes, os seus estilos, com destaque para o barroco; as duas opções de padrões de azulejaria - uma opção estrangeira, no caso, holandês, e outra nacional, que não só têm diferenças, como, de certo modo, se complementam.
Não poderemos, depois de ter refletido, afirmar onde está o melhor padrão, o melhor modelo, a melhor arte, a melhor mensagem que estes dois tipos de herança cultural azulejar nos proporcionam e continuarão a oferecer bons motivos de visita. Apesar de tudo, é possível estabelecer comparações e, cada apreciador, na sua livre expressão, destacará as suas próprias opiniões ou a crítica, documentalmente sustentada.
Não é só este tipo de arte azulejar que nos leva a admirar e a refletir. É, outrossim: a arquitetura, a pintura, os embutidos, a talha “cintilante” que no templo/capela ou igreja contrastam com a simplicidade dos demais espaços do convento. É, também, a escultura, peças várias; os espaços, mais ou menos vazios, ou mais ou menos cheios, de bens; e de gente: que aqui vem ou reside, trabalha, descansa ou é aqui assistida social e fratrimonialmente.
Teremos, certamente, tempo e oportunidade para questionar, embora nem sempre possamos obter as melhores respostas. Questionar, p. exemplo:
-Qual o percurso para chegar até aqui, com esta dedicação e preservação para podermos fruir desta herança cultural?
-Como foi possível preservar todos estes Bens materiais e imateriais, tendo os mesmos passado por vendavais de instabilidade, não só a telúrica mas, sobretudo, os abalos sociais e políticos que atravessaram a nossa História e, particularmente, a História Conventual?
Com base nesta seleção de motivos iremos brevemente visitar o Convento dos Cardaes. Desde já desejamos um percurso agradável para fruir das melhores oportunidades; de preferência com algum doce conventual - lavor das irmãs, dos colaboradores/as e continuadores/as desta singular marca de Lisboa e Portugal.
Tags: Bairro Alto, Convento dos Cardaes, Herança Cultural, Fratrimónio, História, Lisboa, Portugal, Príncipe Real
181 AA Cumprir a Terra fich CONVENTO Cardaes Bairro Alto Príncipe Real Fratrimónio

sábado, 3 de fevereiro de 2018

UM CONVENTO SUI GENERIS






                       A Visitar Brevemente








001 Postigo da Roda do Convento

Quando D. Afonso Henriques concorda, na Invicta, com a participação dos Cavaleiros da Ordem de Santiago em prosseguir a Reconquista, não poderia prever todos acontecimentos que se seguiriam.

A Ordem de Santiago desviara a sua atenção da “libertação” do Médio Oriente. Compromete-se a acompanhar o então jovem e candidato a rei de Portugal. Face às dificuldades, Afonso reúne com as cúpulas dos Cavaleiros. Estes comprometem-se, caso ganhem a Princesa do Tejo, a respeitar as populações, quaisquer que fossem as suas origens

A então al-Lixbûnâ (1) demora a cair uns intermináveis 111 dias. Vejam só a capicua que haveria de dar sorte aos Reconquistadores. No entanto, o tempo de espera e de luta para recuperar a cidade, terá irritado ou feito esquecer as boas negociações quanto ao tratamento a dar às populações “conquistadas”.

-------(1)al-Lixbûnâ ou al-Ulixbûnâ, composição do nome que deriva do herói “Ulisses” combinando elementos gregos e árabes.

Na fúria dos embates e na ganância dos produtos (despojos de guerra), não se destrinça entre o bem e o mal, entre civilidade e barbárie. É, então, que à revelia das negociações se ultrapassam os bons sensos e, consequentemente, vem ao de cima a “fera diabólica” que permanece no ser humano, não sei desde que origens, nem até quando. Esperemos, contudo, e acreditamos, que a “fera” não seja extensível a todos os Homens, nem em todos os tempos.

Os conquistadores ultrapassam barreiras de compromissos e mandam para o Lete, o humanismo cristão. Porque é preciso continuar as conquistas, os cavaleiros são, mesmo assim, perdoados e até “premiados”, não só com o produto do saque imediato, isto é dos bens móveis. Afonso dá-lhes terras e títulos. As mulheres e filhas dos Cavaleiros de Santiago ficam em Lisboa. Recebem comendas e vão residir em Santos, atual bairro da Madragoa, num “Convento” onde as mulheres se acolhem gozando da proteção dos Santos Mártires de Lisboa (Máxima, Júlia e Veríssimo) que ao tempo do imperador Diocleciano (284-305) haviam sido sacrificados por não renegarem a fé cristã. As memórias destes santos haviam-se preservado durante séculos na comunidade moçárabe e foram, no após Reconquista, recordadas pelos moçárabes locais e pelas comendadeiras, inclusivamente dando o nome à zona (Santos) e ao Convento.

Séculos passados, já no tempo dos Descobrimentos, o espaço conventual de Santos é cobiçado, inclusivamente, pelo rei D. Manuel que vem para aqui residir, “alugando” as edificações do “convento” (hoje embaixada de França), deixando contudo a igreja para o serviço do culto público. As comendadeiras são remetidas para os lados da Graça / Barbadinhos. Não se sabe ao certo o local exato que foram ocupar, até que o Convento de Santos-o-Novo ficasse construído e apetrechado.

 


002 Fachada, nicho de São José e portaria nº 123

D. Luísa de Távora (2) pertence a estas famílias dos Cavaleiros de Santiago e pôde recolher-se, após a morte do marido Luís Francisco de Oliveira e Miranda (3) no Cenóbio das Comendadeiras de Santos-O-Novo, como era tradição.

-------(2)Isso mesmo, a família dos Távoras que viria a ser perseguida pelo Marquês em conivência com o rei D. José que “lava as mãos” e deixa ao Marquês o “serviço sujo” de perseguição e extinção dos Távoras.

D. Luísa de Távora, filha de Álvaro Pires de Távora, senhor do Mogadouro; neta de Mariana Coutinho e Rui Lourenço de Távora, 1º vice-rei da Índia.

-------(3)Luís Francisco de Oliveira e Miranda, senhor de terras em Mogadouro, Macedo de Cavaleiros, Patameira e Almada

A riqueza e influência de D. Luísa de Távora eram consideráveis. Imbuída na fé; ou por desejar mais autonomia, ou ainda por eventuais desideratos de liderança, resolve construir um Convento próprio para onde transitaria. Com ela vai um séquito de irmãs religiosas que ingressam no Cenóbio dos Cardais, numa zona agreste onde ainda havia cardos, hoje Rua de O Século.

Dá-se a este Convento o nome popular de “Convento dos Cardaes“ (de Cardos), dedicado a Nossa Senhora da Conceição na peugada da Ordem das Carmelitas Descalças, devotas da vida e das memórias de Santa Teresa d`Ávila e São João da Cruz, nos duros tempos que prosseguem a Reforma da Igreja.

Os diferendos entre Católicos e Protestantes; a transição da justiça senhorial e privada para novos paradigmas, onde o poder real, o poder público e o poder eclesial se confundem; por vezes se aliam, outras se atropelam, são o pano de fundo dos choques, acordos e desacordos, guerras, justiças ou injustiças inquisitoriais e outros acontecimentos da época.

É no seguimento a estes acontecimentos; ao primado cristão e preceitos católicos que se seguirá toda uma prática devocional; uma herança cultural e material que deixam marcas evidentes no edifício dos Cardaes e na arte móvel que: por milagre, sorte, tacto, inteligência, ou o que quiserem, se preservou do tempo, da ambição e da cobiça de liberais e republicanos da I República ou até dos sem ideologia. O Convento dos Cardaes adaptou-se, mudando de designação para Associação de Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos, entre a prometida e, em parte cumprida, extinção oficial dos Conventos em 1832, a morte da última irmã e a retoma das perseguições pós 1910.

Hoje continua a funcionar como espaço conventual e assistencial; como museu, espaço de exposições temporárias, em colaboração com populações e artistas locais (qual nova e social museologia), onde por vezes a exposição do belo, levado do exterior e em locais delimitados, ultrapassa certos e tradicionais preconceitos.

003 Convento dos Cardaes - Expo de Artista local - Natércia Pinto, no espaço do locutório, 2007

Em nossa opinião, nenhuma outra instituição em Portugal, conseguiu uma semelhante preservação de bens culturais; eis porque é importante conhecer os Cardaes. É este interessante testemunho: de mentalidades e de sensibilidades estéticas; de um programa arquitetónico e de recheio, de assistência e colaboração com as populações; e ainda de apuramento do gosto na arte da doçaria conventual que iremos visitar; um resultado não imaginado ao tempo da instituição do Convento, muito menos na altura da Reconquista e dos Cavaleiros de Ordem de Santiago de Espada.

..............................

Fontes:

VIEIRA, Irmã Ana Maria; RAPOSO, Teresa et al. O Convento dos Cardaes: Veios da Memória. Losboa: Quetzal Editores, 2013

 Em linha acedidas em 03.02.2018:

 

--ANCIÃES, Alfredo Ramos

62 Atalaiahttp://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/02/62-al-andalus-portugal-atalaia-almourol.html ;


68.SANTOS-O-VELHO - http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/06/68-santos-o-velho.html  http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/67-santos-o-velho


69.MADRAGOA SANTOS E ENVOLVÊNCIAS - http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/06/69-madragoa-santos-e-envolvencias.html  http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/69-madragoa-santos-e-envolv-ncias


70.DAS COMENDADEIRAS DE SANTOS AO REAL PALÁCIO E EMBAIXADA DE FRANÇA -  http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/06/70-das-comendadeiras-de-santos-ao-real.html  http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/70-das-comendadeiras-de-santos-ao-real-pal-cio-e-embaixada-de  


http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/10/104-uma-visita-lisboa-em-tempo-de-santos.html  


71.SANTOS / MADRAGOA QUESTIONAR A HISTÓRIA E O PATRIMÓNIO -  http://cumpriraterra.blogspot.pt/2016/06/71-santos-madragoa-questionar-historia.html   http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/71-santos-madragoa-questionar-a-hist-ria-e-o-patrim-nio


 -Câmara Municipal de Lisboa, et al. – Igreja de Santos-o-Velho in http://www.cm-lisboa.pt/equipamentos/equipamento/info/igreja-de-santos-o-velho

--Evangelho Quotidiano, et al. Santos Mártires de Lisboa inhttp://evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT&module=saintfeast&id=11618&fd=0

-Moisão, Cristina - Santos-o-Velho - Período Romano: Histórias e lendas inhttp://lisboaantiga.blogspot.pt/2012/11/santos-o-velho-periodo-romano-historias.html


-Moisão, Cristina - Santos-o-Velho - Período Romano: Histórias e lendas inhttp://lisboaantiga.blogspot.pt/2012/11/santos-o-velho-periodo-romano-historias.html

-Público; Canelas, Lucinda (texto); Cruz, Dário (fotos) - O embaixador de Paris é um conservador de património em Lisboa in http://www.publico.pt/temas/jornal/o-embaixador-de-paris-e-um-conservador-de-patrimonio-em-lisboa-23861634


-République Française et al. – Ministère des Affaires Étrangères et du Dévelopement International -Fim da missão em Portugal do Embaixador Pascal Teixeira da Silva (12.09.2013) in http://www.ambafrance-pt.org/Fim-da-missao-em-Portugal-do

--Wiki et al --


-D. José Maria da Piedade de Lancastre e Távora (1819–1870) - Lista dos condes de Vila Nova de Portimão in https://pt.wikipedia.org/wiki/Conde_de_Vila_Nova_de_Portim%C3%A3o


-João Antunes (1643, +1712, arquiteto da Corte) inhttps://pt.wikipedia.org/wiki/João_Antunes 

-João Antunes (arquiteto) in https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Antunes

-Marcos da Cruz (pintor 1610, Lisboa +1683) in

-Marcos Cruz ou Marcos da Cruz (pintor 1610, Lisboa +1683) inhttps://pt.wikipedia.org/wiki/Marcos_da_Cruz
180 AA Cumprir a Terra

domingo, 28 de janeiro de 2018

ARTE E MENTALIDADES EM ABORGAGEM PASSEIO A UM FRATRIMÓNIO SINGULAR


 

Quadro de André Gonçalves. Lisboa: (1685-1754) com Nossa Senhora da Conceição

 

Situado no altar-mor da cintilante capela dos Cardaes ao Príncipe Real/Bairro Alto. A cena tem significados vários. Destaco, porém, - a mudança da tradicional estética hispânica do “naturalismo tenebrismo”, ainda influenciada pelo Concílio de Trento, contudo em mudança/adaptação para uma pintura, como a presente, mas mais suave e colorida, uma veia de Arte, então a fazer percurso em Itália, França e Portugal, sem ter abdicado da visão programática do Concílio em referência.

Há como que duas composições na mesma iconografia ou, quiçá, duas faces da mesma moeda. A parte central e superior rejubila de alegria e Esperança com o foco nas Esperanças da Virgem Conceição e nos felizes anjos; enquanto a parte inferior contém elementos considerados perniciosos, ou informativos; não obstante a Senhora Virgem ter sob controlo, debaixo dos seus pés, os referidos elementos.

Há uma carga simbólica adjacente à figuração, para lá da aparente simplicidade do primeiro olhar e da nobreza das cores.

Segundo as fontes da História d`Arte, Religião e Mentalidades tudo parece indicar que existe um mundo intermédio correspondente ao da Virgem e da Terra (planeta solar) onde a mesma Virgem concebe e dá à luz o Salvador. Porém, há ainda um estrato inferir na Terra onde existem perigos e tentações; terreno de “anjos caídos”, orgulhosamente auto comparados ao Altíssimo.

Não obstante a alegria de sermos contemplados por um Salvador, devemos estar vigilantes porque não se sabe; nem o dia, nem a hora em que seremos chamados para prestação de contas dos atos de que somos responsáveis.

A composição revela função didática, numa altura em que os murais das igrejas eram o écran por excelência; um denominador artístico, com interesse na contemporaneidade para avaliarmos as raízes de que nossos pais e, mesmo nós, ainda somos enformados.

Fontes:

--ANCIÃES, Alfredo Ramos – “Convento dos Cardaes”. Lisboa: CICTSUL, 2003

--VÁRIA: Bíblia Sagrada. Lisboa: Difusora Bíblia (Seminários Capuchinhos), 11ª Ed., Lisboa, 1984. Temas: Anjos; Árvore do Bem e do Mal

--VIEIRA, Irmã Ana Maria; RAPOSO, Teresa et al. O Convento dos Cardaes: Veios da Memória. S.L.: Quetzal; Convento dos Cardaes, 2003

Em linha, acedidas em  28.01.2018 -

--ANCIÃES, Alfredo Ramos – “Arte e Mentalidades – Interpretando a Imagem Central do Convento dos Cardaes” http://cumpriraterra.blogspot.pt/2018/01/arte-e-mentalidades-em-aborgagem-de.html  ...................

--WIKI.. et al. - “Anjo Caído” https://pt.wikipedia.org/wiki/Anjo_ca%C3%ADdo

-ASTROCENTRO, et al - “Quem são os Anjos Caídos – Nomes e explicações” https://www.astrocentro.com.br/blog/anjos/anjos-caidos-nomes/
.....179 AA Cumprir a Terra My Fich  Arte e Mentalidades em Abordagem Passeio a um Fratrimónio Singular .. http://cumpriraterra.blogspot.pt/2018/01/arte-e-mentalidades-em-aborgagem-de.html  .....

domingo, 21 de janeiro de 2018

CRISTIANO E MAXIMILIANO NOS PRIMÓRDIOS DAS TELECOMUNICAÇÕES E ELETRIFICAÇÃO DO PAÍS


Quanto aos equipamentos telefónicos, uma Companhia norte americana passa a invocar a titularidade de patentes:

«A Edison Gower Bell Telephone Company of Europe Limited unicos proprietários em Portugal das patentes [...] perseguirá judicialmente toda e qualquer pessoa que fabrique, forneça ou use quaisquer instrumentos [...]» (Diário de Notícias, 18 e 19 de Março de 1882).

Antes da concessão oficial, os telefones utilizados eram os de modelo Bell, logo modificados com melhorias, por Maximiliano Augusto Herrmann natural de Lisboa (1838-1913). Este artesão e industrial foi construtor de aparelhos de precisão, inventor e inovador, inspetor das linhas telegráficas dos Caminhos-de-Ferro; instalou alguns dos primeiros equipamentos de luz elétrica em Lisboa; frequentou a Escola do Instituto Industrial; colaborou na Escola Politécnica como formador e lecionou Física na Escola Marquês de Pombal.

Consta que Maximiliano concorreu juntamente com Cristiano ao contrato de exploração da telefonia em Portugal mas a economia liberal dos EUA, Inglaterra, Alemanha e, em parte, da França vão impor-se. A fase de tipo artesanal, por mais qualidade que tivesse, cederia perante a fabricação em série. Seguem-se os contratos de fornecimento de tecnologias e serviços, por parte de sociedades e capitais cada vez menos centrados nas pessoas e mais nas empresas de responsabilidade limitada.

Maximiliano e Cristiano não estavam preparados para esta economia, nem residiam no centro das grandes atenções, isto é, nos espaços geográficos em moda (Paris, Londres, Berlim) ou nas cidades de empreendedores e capitais da América do Norte. Eis porque a qualidade de Maximiliano, Cristiano e outros bons técnicos portugueses não fizeram negócios de monta com os seus equipamentos, invenções e inovações; sendo, porém, que algumas tecnologias foram aproveitadas no exterior sem o devido reconhecimento.

 

Da autoria de Maximiliano é o telefone seguinte:

 



001 Telefone português de Maximiliano Augusto Herrmann - modelo privilegiado

 

É igualmente de destacar o telefone inovador de Cristiano:

 

002 Telefone de Cristiano Augusto Bramão, 1879

 

Cristiano Augusto Bramão natural de Elvas (1840- +Lisboa 1881). Oficial experiente nas tecnologias de telegrafia. É chefe de estações telégrafo-postais. Destacado para a Repartição Técnica do Material, onde leciona teoria e prática de eletricidade, telegrafia e telefonia. Torna-se inovador e inventor de aparelhos telegráficos e telefónicos. O Journal Télégraphique e os Annales Télégraphiques de 1878 (Suíça e França) dão eco da sua contribuição no evento universal. A Direcção-Geral dos Telégrafos Portugueses recebeu pelo seu trabalho um Diploma de Honra equivalente a uma Grande Medalha pela presença na Grande Exposição Universal de Paris, de 1878. Ali foi apresentado um telégrafo inovador, entre várias outras peças.

 


003 Telégrafo de Cristiano Augusto Bramão

 

Cristiano teve como colaborador o técnico e construtor Maximiliano Augusto Herrmann. Ambos fizeram uma dupla interessante do ponto de vista qualitativo de equipamentos. Contudo os tempos já haviam mudado e são as grandes empresas com os capitais competitivos que vão vencer, expandindo os novos negócios e tecnologias.

É de notar que Portugal, no último quartel do século XIX, andava ocupado e fragilizado com a questão de África. A intensão de unir a costa ocidental atlântica, nomeadamente Angola, com a contracosta - Moçambique e os países vizinhos, no Índico, estava na mente e nas pretensões dos britânicos. Assim, para travar estas ambições, seguidas por outras, de países europeus, sem tradição naquelas geografias, impunha-se o desbravamento e o conhecimento dos territórios.

As crises relacionadas com o “Ultimato” e a míngua de capitais, iriam desembocar na queda do regime monárquico, absorvendo os Governos e os portugueses deixando-os fragilizados para os negócios.

Verifica-se que não são sempre os melhores equipamentos e as melhores ideias que entram ao serviço. São o misto de tecnologias das empresas que conseguem impor-se no registo de patentes (ideias, por vezes, gratuitamente copiadas, ou compradas). É a Era do desenvolvimento dos grandes países, sobretudo do hemisfério nórdico. A telefonia em Portugal vai evoluir mas não tão rapidamente como acontecera com a telegrafia.

Apesar de tudo, a arquivologia, a biblioteconomia e a museologia guardam e demonstram uma interessante história das tecnologias em Portugal. Não chegámos, porém, ao fabrico de material em série, capaz de fornecer as necessidades internas e a de potenciais compradores no exterior. Eis, em nosso entender, uma outra razão, porque o liberalismo económico falhou. Apostar no alheio não foi a melhor opção para desenvolver Portugal.

 

Palavras-chave: Cristiano Augusto Bramão, História, liberalismo económico, Maximiliano Augusto Herrmann, Portugal, tecnologias, telecomunicações,

 

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Para-Guião Expo` Permanente. Secção Patrimonial de Telecomunicações. Lisboa: FPC Património Museológico, 2001 (Policopiado)

-MUSEU dos CTT et al. Bramão e Outros Inventores Portugueses no Museu dos CTT / TLP. Exposição Comemorativa do 1º Centenário do Telefone Bramão 1879-1979. Lisboa: CTT / Nova Gráfica, Ldª, 1979

-PORTUGAL, AG-CTT - Administração-Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones. Concessão do Serviço Telefónico, 1879 a 1901 - 1955

-SERRÃO, Joaquim Veríssimo – História de Portugal, vol. IX (O Terceiro Liberalismo – 1851-1890). Lisboa: Verbo, p.239-241

Periódicos -

-Boletim Telegrapgho-Postal, nº 17, maio, 1895

-Diario de Noticias, 21 jan; 10 e 11 fevereiro, 18-19 março; 23-29 abril; 2-6 maio 1882

-O António Maria, 2 agosto, 1883

-O Comercio do Porto, 1 julho 1882

-O Século, 20 abril; 6-7, julho, 1882;

Em linha -

-RUANO, António Lisboa - "O Mapa Cor-de-Rosa e o Ultimato Inglês". Lisboa: RTP, 1973 in http://ensina.rtp.pt/artigo/ultimato-ingles/

Imagens gentileza -

001 Grupo de Trabalhadores, Célula do PCP ;

002 e 003 Fundação Portuguesa das Comunicações

178 AA Cumprir a Terra My Fich CRISTIANO E MAXIMILIANO NOS PRIMÓRDIOS DAS TELECOMUNICAÇÕES E ELETRIFICAÇÃO DO PAÍS

sábado, 6 de janeiro de 2018

OS PRIMEIROS COMUTADORES E CENTRAIS TELEFÓNICAS EM PORTUGAL


(Imagem do Grupo de Telefonistas do Porto. Cª finais séc. XIX, cortesia Fundação Portuguesa das Comunicações)

Um novo serviço público de telecomunicações começa a ser disponibilizado a partir de 1882. O telefone é apresentado como uma nova tecnologia e ganha adeptos pelas suas valências inovadoras: É um meio de comunicação mais intimista e mais informal em relação ao telégrafo. As conversações não precisam ser previamente concebidas e escritas. Os interlocutores comunicam mais rapidamente, em direto e em tempo real.

A licença de atribuição e exploração das redes oficiais, foi atribuída pelo Governo à Companhia –The Edison Gower Bell Telephone of Europe. Em Lisboa a inauguração das centrais telefónicas tem efeito a 26 de abril e no Porto a 1 de julho do mesmo ano de 1882. Cinco anos após, a The Edison Gower Bell Telephone of Europe é comprada pela The Anglo-Portuguese Telephone Company que passa a explorar as redes. Mantém o nome em inglês porque as tecnologias e os capitais são essencialmente ingleses, porém começa a tendência de um maior envolvimento do Governo e dos técnicos portugueses.

É de destacar que antes da inauguração de 1882 já havia centenas de telefones a funcionar em linhas privadas. Considerados à margem da Lei. A Companhia dos telefones – The Edison Gower Bell Telephone Company of Europe Limited, faz publicar anúncios em jornais diários:

«[A] concessionaria das redes telephonicas chama a attenção do respeitavel publico para o facto de que [...] a collocação, e uso de todos os fios para transmissão de correspondência pelo meio da eletricidade (como são os fios telegraphicos e telephonicos), é por lei, em Portugal, monopolio do governo e que só por especial auctorização ou concessão do mesmo é permitido fazel-o. Esta companhia portanto recomenda particularmente ao publico e no reciproco interesse de ambos que se acautele o não infringir a lei, pois assim não incorrerá nas penalidades que a mesma lei impõe.

(Escriptorio da Companhia, rua Nova do Carmo, 90»  in Diário de Notícias, 10 e 11 de Fevereiro de 1882)
Palavras-chave: centrais, comutação, História, Portugal, telecomunicações, telefoniaVeja também:
--[Para Uma História da Ciência e Tecnologias de Telecomunicações:]  https://www.youtube.com/watch?v=8_h4B1PNVyM 
--[Fabricação e preparação de fibra ótica submarina] https://www.youtube.com/watch?v=ZkOILB8dU9E ;
--Lançamento de cabo submarino: https://www.youtube.com/watch?v=MKmJrDs0nnk ;
https://www.youtube.com/watch?v=rJqLL4Pj8cQ ;
--«História do Telefone Celular» in https://www.youtube.com/watch?v=yjiB_Yw05RE ;
--[Redes Globais de Cabos] https://www.youtube.com/watch?v=8_h4B1PNVyM&feature=share
Cumprimentos patrimoniais e fratrimoniais AA
177 AA Cumprir a Terra My FICH “ Os Primeiros Comutadores e Centrais Telefónicas em Portugal ”

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

AS LINHAS DA IDENTIDADE


Pretende-se com estas linhas da identidade:

a)observar e sentir in loco o Território das Linhas de Torres, como uma entidade viva e cujo conceito (Linhas de Torres e da Identidade) se pretende alargar a todo o Território onde houve intervenção de ações integradas na terceira invasão napoleónica;

b)reconfirmar a identidade de independência que nos torna mais coesos como herdeiros e atores da portugalidade que se moldou na dor e no sacrifício, pelo menos desde 1147, altura em que D. Afonso Henriques e o seu séquito chegam a estas paragens, coincidentes com as Linhas de Torres e envolvência. Este é também o Território de Santiago (de Espada e dos Velhos), cujas marcas da reconquista por aqui se encontram em Arruda dos Vinhos, concelho que faz parte do PILT – Projeto Integrado das Linhas de Torres.

O que por aqui, no PILT, podemos ver e noutras localidades relacionadas com os territórios da terceira invasão não são fetiches, meras peças de arqueologia e paisagem, mas sim importantes testemunhos de memórias: pessoais e do matrizmónio, isto é da relação das populações que partilham a portugalidade com a matriz territorial.

Esta identidade também se molda quando «[...] Massena, indignado, reclama de Wellington uma guerra de cavalheiros e não de assassinos. Este responde-lhe que não se trata de assassinos mas de homens das Ordenanças [milícias portuguesas] e que os [...] actos que praticam não eram mais do que uma leal e forçosa consequência das guerras de independência que transformavam uma guerra política numa guerra de extermínio (1) ]. Prosseguindo este ponto de vista, na peugada de Wellington, o prof. António José Telmo acrescenta que esta «é a guerra de um exército contra os povos da Península, animados por um patriotismo exacerbado contra o invasor que procurava impor com mão de ferro hábitos, religiões e costumes estranhos.» (cf. PINTO, ob cit., p 130-131)

(1) Sim, pode-se considerar guerra de extermínio o conjunto de baixas e malefícios provocados pelas invasões francesas. Só para exemplo de baixas do próprio lado francês e só na terceira invasão, relacionada com as Linhas de Torres; as tropas napoleónicas entram em Portugal com 88.515 homens e uma parafernália de equipamentos e animais. No regresso a França contabilizaram cerca de 41.000 pessoas, o que significa 47.515 baixas, mais de 50% do total. Contudo, contabilizadas as baixas diretas em combate, os números apontam para a ordem dos 10.000 soldados. Daqui se infere que a grande maioria de baixas se deveu a morte e perdas em outras situações, algumas bem mais sofríveis, tais como: rixas, míngua de alimentos, doenças e deserções das fileiras, acabando muitas destas também em morte.

ALÉM DA RECUSA DO IMPERIALISMO LIBERAL GERA-SE UM SENTIMENTO ANTI-INGLÊS DE RESISTÊNCIA INDEPENDÊNCIA E PATRIOTISMO:

Começam por sugir atritos em Mafra e Alhandra, não sendo as ordens dos ingleses bem recebidas. Algumas foram mesmo contestadas, tanto mais que não respeitavam as habituais hierarquias sociais, mobilizando elementos do clero, nobreza, burguesia, representantes da justiça e das finanças, o que levou alguns a recusar-se participar directamente nos trabalhos das fortificações.

«O Coronel Fletcher comandante dos engenheiros do exército Britânico, achando, para as muitas obras que tem, muito poucos trabalhadores [...] mandou pedir todos os homens sem excepção de pessoa alguma, nem mesmo eclesiásticos [...] custou-me muito persuadi-lo [diz o governador de Mafra] fosse metade da população uma semana e metade outra e que alternadamente assim continuaria, para poder haver trabalhadores que fossem trabalhar pelos eclesiásticos, e por todas as mais gentes que não estão acostumadas a semelhantes trabalhos”. (AHM, 1ª div. 14ª secção, cx 96, p. 95, ofício do governador de Mafra para Miguel Forjaz (*) , de 28 de Março de 1810, cit. por Clímaco (2010), p. 53.54). (*) D. Miguel Pereira Forjaz era 9º conde da Feira, secretário da regência de D. João VI, titular da pasta dos Negócios da Guerra e Estrangeiro.

TENDÊNCIAS DE PODERES ABSOLUTOS DOS INGLESES A COMEÇAR PELOS MILITARES DE WELLINGTON:

«Com Wellington há uma tentativa de pôr o poder político [português e inglês] na dependência do poder miltar [...]. Assim, vai pretender que o Estado e as estruturas do poder, bem como todos os recursos do país sejam disponibilizados e postos ao serviço dessa [...] Causa [...]. A sua intervenção ultrapassa os limites da esfera militar, nomeadamente quando prõem à regência a alteração do regime alfandegário [..]». "Quanto às operações militares [Soriano destaca as palavras de Wellington] "nem a regência nem algum outro corpo de estado se deve nelas intrometer e emiscuir [...] quando deva tomar tudo sobre mim e ser responsável por tudo, devo ter pleno poder, e de ninguém deverei receber ordens"».  (Cfr. Clímaco (2010), pp. 113-114 ; SORIANO, História da guerra e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal..., ob. cit. p.151)

ESTRATÉGIAS DE NACIONALISMO PERANTE AS AMEAÇAS E CHANTAGENS DOS INGLESES:

«Welington com o apoio do governo inglês, ameaça repetidamente, ao longo da sua estada em Portugal, abandonar o país e deixá-lo a braços com a invasão francesa. A resistência à presença inglesa começava a manifestar-se em todo o país, inclusive no seio da regência, se bem que esta continuasse a fornecer aos ingleses a maior colaboração [...] Nobres, magistrados e até mesmo os estratos mais baixos da sociedade opõem uma resistência passiva a Wellington, que se traduz por uma certa má vontade em obedecer às suas disposições, provocando atrasos na execução das ordens emanadas dos oficiais ingleses [que acabam por confundir os portugueses] por indolência [segundo a visão de Wellington] uma das formas de resistência do nacionalismo lusitano» (Clímaco (2010), p. 117. Cfr. Correspondência de Wellington para Charles Stwart, 16 Jan.1811 in Gurwood, Recueil choisi des dépêches et ordres du jour ... ob. cit. p. 483).

HAVIA EM PORTUGAL ADEPTOS DOS FRANCESES E DAS DOUTRINAS LIBERAIS E REVOLUCIONÁRIAS?

Sim. Repare-se apenas em alguns exemplos:

Marcos Portugal, (1762, Lisboa; 1830 Rio de Janeiro). Figura de proa, a nível internacional. Marcos Portugal compôs, dirigiu e interpretou músicas, durante o tempo da 1ª invasão, para os franceses, actuando na presença dos generais Lannes e Junot, chegando a ser apelidado de jacobino;

Bocage (1765, Setúbal; 1805, Lisboa): Mais intervencionista, pela escrita e presença em cafés, foi o poeta Manuel Maria Barbosa Du Bocage. Adepto das liberdades individuais. No seu primeiro volume de poesia cantou a liberdade e denunciou o despotismo. Acusado de pedreiro-livre, preso na cadeia do Limoeiro. Traduziu Rousseau (1712-1778) e Voltaire (1694-1778) em quem se influenciou para os ideais de liberdade. A consciência da necessidade de liberdades vem-lhe também pelo ambiente em que vive. No tempo em que a raínha D. Maria I elouquecera:

«[...]. No "Botequim das Parras", no "Café Nicola" e noutros lugares de encontro dos noctívagos lisboetas, Bocage foi rubricando críticas aceradas aos múltiplos problemas nacionais, ao despotismo de Pina Manique, ao ambiente de suspeição em que se vivia, à natureza do regime e à ausência dos direitos humanos mais elementares. [...] Compôs poemas de carácter satírico contemplando pessoas do regime, tipos sociais e o clero [...] Poemas como "Liberdade, onde estás?" [...]» (cf. "Exposição biobibliográfica comemorativa dos 230 e 190 anos do nascimento e morte de BOCAGE / Câmara Municipal de Setúbal, Daniel Pires. Setúbal: C.M.S., 1995). Veja também entrada acedida nas fontes de apoio acima: Bocage [poeta neo-clássico, arcádico, pré-romântico, pró-revolucionário e anticlerial].

Dom Pedro de Almeida, Marquês de Alorna. É votado a um “Decreto de Banimento” [...] que esquecido do seu nascimento, e das distintas Mercês, com que o mesmo senhor o havia honrado [...] achando-se empregado no atque contra estes Reinos, e tendo procurado pelos meios da força, e da sedução alienar os ânimos dos Fiéis Portugueses, afetando ser general Portuguez para melhor os iludir; espalhando proclamações sacrílegas, e destinadas a seduzir o Povo, e a Tropa, a quem convida ao serviço Francez, para levar a morrer desgraçadamente nas injustas guerras desta Potencia [...] manda o Principe Regente Nosso Senhor declarar o dito Pedro de Almeida Réo de Lesa Majestade de primeira cabeça [...] e procedendo o manda privar de todos os Titolos, Honras, e Dignidades, e até do nome Illustre Portuguez, de que se fez indigno: determina que se considere como banido, para que cada hum do Povo o possa matar sem crime, e oferece o premio de mil moedas de ouro a quem o apresentar vivo, ou morto [...].

Estas posições pró liberal e até pró bonapartistas não significam, à partida, falta de patriotismo; elas resultam das contradições do absolutismo e dos finais do Antigo Regime, bem como da intensa propaganda liberal que então chegava ao reino português, para lá da aqui elaborada. Por outro lado, não creio que as figuras pró liberais e pró bonapartistas tivessem, por exemplo, conhecimento dos preceitos, anti Portugal, patentes no tratado secreto de Fontainebleau entre a França bonapartista, associada à Espanha de Carlos IV contra o nosso país.

SIGNIFICADO DA RETIRADA E O QUE FICOU:

Foi o começo do fim do imperialismo francês. Ficaram ideias revolucionárias e um crescente sentimento anti "Antigo Regime", algo que haveria de levar à Revolução Liberal de 1820. Além de todas as misérias provocadas: dezenas de milhares de baixas, fomes, destruições, roubos, perda até ao presente, do território de Olivença houve, no decurso das três invasões, intercâmbios de relações forçadas e/ou consentidas entre militares franceses e mulheres portuguesas.
Em tempos conversei com o meu amigo marquês Arthur Lambert da Fonseca pertencente à antiga nobreza dos Coutinhos (Magriço, capitão dos Doze de Inglaterra), Fonsecas e Lambert. Lambert da Fonseca  confessou-me que o seu nome Lambert vem da sua mãe e que na origem está um oficial da altura das invasões francesas que se encontram por aqui, em Lisboa (Quinta do Lambert ao Campo Grande / Lumiar) e alguns elementos no Norte de Portugal. Na altura não lhe perguntei se esse seu ascendente era francês ou inglês, sendo que existem Lambert em França e em Inglaterra (2). Presumo, porém, pelo que conheci do Dr. Arthur Lambert da Fonseca, que é descendente, na parte materna, de um oficial inglês.

(2)cf.PINTO, ob. cit., p. 80; 117)

Outro nome, Jacques marido da professora e pintora Olinda Gil. A Prof. Olinda Gil crê que o marido é proveniente dos militares franceses, quando aqui estiveram;
E em 30.09.2015 vejo uma reportagem no jornal “i” onde o Engrº José Modesto Massena Gago se afirma descendente de Gago Coutinho da parte materna e do Marechal Massena da parte paterna.

Consta que o general Massena se «envolveu com uma nobre portuguesa [...] Teresa de Carvalho, condessa de Condeixa [...]. Quase dois séculos depois, em 2007, Massena Gago decide fazer uma visita ao tetravô, em Paris, e foi ao cemitério de Père Lachaise para ver a campa do seu familiar. É uma espécie de pirâmide. “A rua do cemitério é muito grande a até andam lá automóveis”, sublinha. [...] “Paris está cheio de ruas, paraças, liceus e  estátuas do Massena”, acrescenta [...]» (reportagem in “Memórias de um algarvio acidental. ´O meu tetravô invadiu Portugal`», jornal “i”, 30 Setembro 2015) 

De facto as invasões francesas são ainda um manancial de surpresas e de interesses. Deixo aqui apenas alguns exemplos, haverá muitos mais, até porque da primeira vez que os franceses entraram em Portugal permaneceram por cá com um Governo cerca de 8 meses, elaborando inclusivamente leis enquanto a corte portuguesa estava no Brasil.

Em conclusão: ao tempo da primeira invasão, os franceses já se consideravam donos, pelo menos de parte de Portugal, porém, as populações vêm paulatinamente ganhando consciência da dependência a que estavam a ser sujeitos, também face aos ingleses. Foi uma questão de tempo; esperar pelas oportunidades de luta e retoma da soberania.  Não foi fácil e as consequências estenderam-se pelas décadas seguintes.

Palavras-chaves: identidade, independência, Linhas de Torres, patriotismo

Fontes:

---JONES, John T. Memoires sur les Lignes de Torres Vedras élevées pour couvrir Lisbonne en 1810 […]. Paris: Anselin, 1832

---GOTTERI,  Nicole – La mission de Lagard policier de l´empereur pendant la guerre d`Espagne 1809-18102. Edition des depeches concernant la Peninsule Iberique. Paris: Publisud, 1991

---GURWOOD,  Colonel John - Recueil choisi des dépêches et ordres du jour de feld Maréchal duc Wellington. Bruxelles: Meline, Cans et Cie, 1843. Edição impressa disponível na BNP - Biblioteca nacional de Portugal.

---LIMA, major-general António Luís Pedroso de Lima, et. al - “Bicentenário do Corpo Telegráfico 1810-2010”. s.l.: Blueprint, Ldª, 2010.

---PINTO, Alexandre de Sousa, MONTEIRO, Miguel Corrêa (coord.), VENTURA, António, VICENTE, António Pedro. -  As Linhas de Torres Vedras: um sistema defensivo a norte de Lisboa. Torres Vedras: PILT, 2011

--- KOCH, General Jean Baptiste Fréderic - Mémoires de Masséna redigées d`après les documents qu`il a laissée et ceux du dépôt de la guerre et du dépôt des fortifications. Paris: Paulin et Lechavalier, 1848-1850

---PELET-CLOZEAU, general Jean Jacques Germain. Mémoires sur ma campagne du Portugal 1810-1811. Paris: Librairie

--- PELET-CLOZEAU,  general Jean Jacques Germain;  SCHNEIDER, Christian -; Mémoires sur ma campagne du Portugal (1810-1811).. Paris: Editions Historiques Teissèdre, 2003

---VENTURA, António - Memórias de Massena - Campanha de 1810-1811 em Portugal“. Lisboa: Livros Horizonte, 2007

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