sexta-feira, 30 de junho de 2017

166. A ÍNFIMA PARTÍCULA


 

001 "Partícula de Deus", também chamada "bosão de Higgs", nome do seu descobridor

       À Terra e ao Universo não virão quaisquer males por agora a partícula se chamar "de Deus". Os melhores cientistas foram/são quase todos religiosos. Ao que tudo parece indicar, os cientistas menos bons, são predominantemente ateus ou de "livre" consciência.
       Religião é aquilo que nos liga a algo. Acreditamos em algo mais ou menos presente, mais ou menos transcendente.

       A descoberta desta partícula não irá ser a última descoberta, já que é comum dizer-se (em especial, os cientistas dizem) "por detrás de cada porta que se abre na ciência haverá várias outras que imediatamente se apresentam para abrir".

       Ninguém pode dizer que não há Deus, pois nunca ninguém provou que não há Deus.

       Os crentes deverão ter a liberdade de acreditar que há algo para lá da matéria e deverão ter a liberdade de se associarem em torno da ideia de um Criador e/ou Organizador, isto é, deverão ter a liberdade de seguirem uma religião que dê coerência às suas vidas.

       Deixem os cientistas (crentes ou não; parece que a maioria são crentes) fazer o seu trabalho e dar o nome que entenderem às suas descobertas.

       Não virá mal algum ao mundo pelo facto de a mais minúscula partícula, descoberta no início do mês de julho 2012, se chamar: "Partícula de Deus".

       Fontes, acedidas em 01.07.2017

CERN et al. - «Descoberta nova partícula com semelhança à “partícula de Deus”»


-------------- - «Cientistas anunciam que podem ter descoberto a "partícula de Deus"»


quinta-feira, 29 de junho de 2017

165 A “PROVIDENCIAL BARATA” E OS PEDRÓGÃOS


001

«Costa admite indemnizar vítimas» se tiver provas de que o Estado foi culpado pelas tragédias dos incendidos de junho 2017.

É este o título e a ideia, expressos no C.M. pág. 1 que nos remete para as páginas 24, 25 e 48 (a) do dia 29.06.2017 e para a imprensa que tem tratado o tema.

002

(a)”Sebastião sabe pouco” (titulo). […] “Depois, Abrantes conhecia bem a política portuguesa. Já Pereira, não percebe nada disto. Achar que Costa tem a carreira em perigo só porque morreram 64 pessoas, é não conhecer a sua tenacidade. Houvesse um holocausto nuclear e sobreviviam a proverbial barata e o nosso PM. Que imediatamente, trataria de culpar a barata pela destruição.” (José Diogo Quintela in C. M. 29.06.2017, p. 48)  

003

Seria interessante contar com a verdade e a possibilidade deste raciocínio. Contudo o Senhor Primeiro-ministro conhece bem o sistema em que “ora e labora”.

O Primeiro-ministro sabe que no estado em que nos encontramos não lhe é fácil cumprir as promessas de indemnizar, e rapidamente, como refere, as vítimas dos incêndios de 2017.

004

Como bem diz o José Diogo Quintela in C.M., p 48, 29.06.2017 «a proverbial barata” tornar-se-á a única culpada das negligências, do deixa andar.

Se Sua Exª o Primeiro-ministro de Portugal deseja ter provas. Não é preciso vasculhar muito nos arquivos e nas “comissões de inquérito”, arrastando Pessoas e Tribunais.

005

Apenas terão de investigar os discursos dos presidentes de Câmara dos concelhos do Interior e verificar que os anseios, as políticas ambientais, as promessas e os planos não foram cumpridos neste Governo, nem nos antecessores, resultando em prejuízo para a Nação e para o Estado.

Verifiquem que as populações do interior e das regiões periféricas aos regimes não tiveram alternativas viáveis senão sair para o litoral e para os países que lhes deram garantias de prosseguir as suas vidas e as dos que deixaram nas suas terras natais. Neste aparte o Senhor Primeiro-ministro sabe que “o Estado a que chegámos” é produto do abandono do interior e das zonas periféricas.

006

Já está demonstrado:

-que o Estado não cumpriu bem o seu papel de administrador e regulador;

-que os culpados não limparam as matas;

-que se contam pelos dedos das mãos as multas aos que não limparam a sua parte;

-que os responsáveis gerais pela ordenação do território, floresta e pasta da agricultura são os Governos.



007

O senhor Primeiro-ministro sabe e, se calhar, desde há décadas, que o Estado deveria se substituir aos proprietários que não têm condições ou não querem limpar ou ordenar propriedades. Logo, o Estado e os Governos são os principais e primeiros culpados.

Deste modo não precisa de mais provas que se substituam às “proverbiais baratas” expiatórias. O caminho está facilitado para agir. Querendo, poderá ser uma pedra basilar para mudar o status caótico e homicida para um status mais justo, mais amigo do ambiente, do território e das pessoas.

008

Caríssimo Sr. Primeiro-ministro,

-primamos para que a verdade o proteja, agora e sempre,

-para que os Portugueses dignos do nome sejam os beneficiários das políticas;

-para que os egoísmos sejam os perdedores;

-para que a verdade, os lusófonos, os portugueses, os amigos do território e do ambiente sejam os vencedores.

Senhor Primeiro-ministro, querendo poderá ajudar a mudar o ambiente de Portugal, de “pedrogãos pequenos” para Pedrógãos Grandes, Fratrimoniais e Luminosos.

Com um Abraço.
Palavras-chave: 2017, Ambiente, Incêndios, Pedrógão Grande, Ordenamento do Território
Iconografia de Pedrógão Grande. Arq. pessoal AA, junho 2017

domingo, 25 de junho de 2017

164 A QUINTA / PALÁCIO DA MARQUESA DE RAVARA E O CULTO AO DIVINO ESPÍRITO SANTO EM CARNIDE


001
Palavras-chave: Associação Socorro e Amparo, Carnide, Colégio do Menino Jesus, Culto do Divino Espírito Santo, Marquesa de Ravara, Ordem de S. Miguel de Ala
       Antigo palácio, situado na Rua do Norte (ex-Rua do Correio-Mor), na imediação do Largo do Coreto, antes designado Alto do Poço. Continua a fazer jus à antiga proprietária D. Anna Maria Guido - Marquesa de Ravara ou Marquesa de Fora; assim conhecida, talvez pela procedência italiana do título nobiliárquico.

002

Prima pela simplicidade na arquitetura e na decoração, como singela e popular era a religiosidade que liga este palácio à proprietária e ao culto, com a filosofia milenarista e práticas relacionadas com o Divino Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. As atuais funções parecem ainda fazer jus à origem.

003

Aqui tem sede a Associação Socorro e Amparo: Colégio do Menino Jesus, bem como a sede sul da Ordem de S. Miguel de Ala, cuja tradição diz ter sido fundada por D. Afonso Henriques há 870 anos (2017-1147=870).

Segundo Vitor Bom Norte, o lugar de “Grão-Mestre da Ordem de São Miguel da Ala "é [ou pertence ao] Rei de Portugal” que não estando em funções, é representado pelo(s) pretendente(s) ao trono.

O facto de haver dois ramos aspirantes à coroa portuguesa tem gerado desinteligências inclusivamente em processos nos tribunais. Nada que não possa ser resolvido na Justiça e na Sociedade portuguesa (a). Contudo, o lugar de Grão-Mestrado está atribuído ao Arcanjo São Miguel, patrono da Ordem e também protetor associado ao culto do Divino Espírito Santo.

(a)A História de Portugal regista várias mudanças de dinastia. Até será salutar que se mantenham dois ou mais ramos; permitirá quando um falha, ser investido outro.

004

O logótipo que acima vemos com uma asa e um sol traduz uma “aparição” a D. Afonso Henriques e seus próximos que terão visto este signo na mui difícil batalha da reconquista da cidade Escalabitana, escassos meses, antes da chegarem a Lisboa.

005

A decoração dos tetos conta com anjos e crianças tocando flauta, a descansar ou sonhar, distribuindo flores, ou apanhando borboletas. 

006

D. Anna Maria Guido - Marquesa de Ravara uma das últimas apoiantes (no Continente europeu português) do interessante culto ao Divino Espírito foi, em meu entender, mestra exemplar de fratrimónios(a) na versão setecentista, baseada na ancestralidade e na pureza do bodo e do ágape, tantas vezes representados por figuras angélicas e crianças do povo.


007

Daí que peça permissão para divulgar as imagens decorativas dos anjos que povoam esta quinta / palácio e associação de socorro e amparo; imagens estas, publicadas em primeira mão pelo amigo Vitor Bom Norte.


008

(a)O termo fratrimónio, traduzido em práticas museológicas, segundo tudo parece indicar, começou com o amigo, ex-Professor de Museologia Mário de Sousa Chagas. Este conceito tem sido por nós ampliado, inclusivamente nas aulas de Nova Museologia da USMMA - Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão e na USIA - Universidade Sénior Intergeracional da Amadora


009

Fontes:
-Imagens - 001 a 004 Arq. pessoal AA; 005 a 009 Sítio - gentileza de Vitor Bom Norte / Associação Socorro e Amparo - Colégio Menino Jesus 
-Bibliografia -
ANCIÃES, Alfredo Ramos – Alma e Luz de Carnide. Lisboa: Apenas Livros, Ld.ª, 2013

-Em Linha, acedidas em 19.06.2017

quinta-feira, 15 de junho de 2017

163 CARNIDE – LISBOA: OS SANTOS E AS FESTAS POPULARES


001 Cartaz de Carnide. in sítio da Junta de Freguesia, 2017
Palavras-chave: Carnide, Lisboa, marchódromo, Santo António, santos populares
       Hoje, dia 16 de Junho de 2017, teremos novamente as marchas no Largo da Luz. Tudo parece indicar que na origem destas festas há um fundo pagão. O processo de cristianização foi-se mesclando com novos hábitos e novas manifestações. Contudo há uma essência que se mantém.

O primeiro dos santos populares a ser festejado é Santo António, devido à data da sua morte ter ocorrido a 13 de junho. Venerado em quase todo o mundo cristão com especial destaque para a cidade natal de Lisboa.

002 Decoração de rua, festas populares na Voz do Operário, 2016
Com fama de santo milagreiro, foi canonizado em 1232 no ano seguinte ao da sua morte. O processo foi dos mais rápidos da História eclesiástica, tal era a consideração e a fama de que gozava entre a hierarquia da Igreja e a população.

Para lá de santo foi proclamado Doutor da Igreja em 1946 pelo Papa Pio XII (1). Na Arte tem representação na escultura, pintura, numismática, filatelia e museografia, com destaque para o Museu da Cidade, Museu Antoniano de Lisboa e Igreja de Santo António.
(1)Pio XII considera Santo António um «exímio teólogo e insigne mestre em matérias de ascética e mística».

003 Arte parietal na Voz do Operário, 2016
Fernando de Bulhões, nome de batismo de Santo Antoninho, como é carinhosamente chamado por muita gente. Nasce a dois passos da Sé Catedral, tendo crescido junto à Matriz e estudado na vizinhança, em São Vicente de Fora. Não admira a densidade de representação artística na cidade. Ademais, o Papa Leão XIII intitulou-o de “Santo de todo o mundo”.

São dignas de nota as manifestações populares, o enfeite das ruas, escadinhas, largos e demais espaços públicos com destaque para os bairros e sítios com antiguidade.

004 Marcha Infantil de Carnide, 2016

Exemplos marcantes de novos envolvimentos, público e do poder local nas marchas, verificam-se em Carnide. Esta freguesia de Lisboa criou o seu próprio marchódromo no Jardim da Luz, junto à igreja e convento dos franciscanos.

Carnide apresenta várias Marchas. Algumas são de população infantil, co-organizadas com as escolas locais. A “Marcha dos Avós” e a “Grande Marcha Popular do Teatro de Carnide” também têm animado Carnide. Além dos recursos locais, Carnide também tem apresentado em desfile uma Marcha convidada.
Fontes imagens. 001 Gentileza à Junta de Freguesia de Carnide; 002 a 004 Arquivo pessoal AA.

Fontes em linha, acedidas em 15.06.2017:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos - Festas Juninas – Do Paganismo ao Popular - 


sexta-feira, 2 de junho de 2017

066 162 CARNIDE VISTO PELO PÓRTICO ORIENTAL

037

Palavas-chave: Bandarra, Carnide, Igreja, José de Guimarães, São Lourenço, Templários

Por volta de 2010 encontrei nas festas da minha aldeia uma conterrânea. Queria agradecer a Nossa Senhora mas não sabia como. Pergunta-me se, em Lisboa, sabia onde era a Senhora da Luz.

-Tenho uma oferta para Ela e não encontro gente que conheça o sítio onde se encontra a imagem.

-Caríssima, o que é que deseja em relação à Senhora da Luz?

-Queria muito lá ir mas não posso. Se fizer o favor de me levar a promessa que tenho para a Santa, fico-lhe muito agradecida.

-Eu é que agradeço em confiar-me o cumprimento desse tão nobre desejo. Respondi à Srª Maria, esposa do amigo e saudoso Manuel Eiras, das Terras de Magriço.

038

Chegado a Lisboa fui entregar a oferta ao funcionário do santuário. Pedi um recibo para levar de recordação. Nesta altura começava o estudo na zona mas não sabia que, em termos paroquiais, o sítio da Luz e Carnide se chamava (e chama) paróquia de São Lourenço e não paróquia de Nossa Senhora da Luz como pensa a quase generalidade dos visitantes e mesmo muitos residentes locais.

039

Quando o colaborador da Igreja me entrega o recibo, fico a olhar para o mesmo, ao ver a referência à paróquia de São Lourenço e não de Nossa Senhora da Luz. Depois de uma breve conversa com o Sacristão, comecei a investigar o porquê de se chamar paróquia de São Lourenço. Fui às netes e bibliotecas. Entrei no recinto e no templo / Igreja de São Lourenço para perceber a grande influência deste santo mártir (Huesca, Hispânia, 225 -- +258, Roma), então pertencente ao império romano. Tudo parece indicar que a divulgação e frequência desta Igreja de São Lourenço terá sofrido “concorrência” do santuário da Luz, após a construção da Igreja e Conventos no Largo da Luz.

040

Antes de entrar no atrium da igreja de São Lourenço, analiso o recinto muralhado. Olhando atentamente vejo vários painéis coloridos. Um deles contém a legenda supra: “AS TENTAÇÕES / JOSÉ DE GUIMARÃES”.

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Entro e deparo-me com um espaço que me dá uma sensação de templo cristão mas não me pareceu tão católico e trentista como o templo da Senhora da Luz e tantas outras igrejas portuguesas. No interior existe o mínimo de imagens. As paredes predominantemente brancas. No altar-mor vejo uma imagem, algo inigmática, que não tem semelhança com as tradicionais imagens de arte religiosa.

042
Interroguei um responsável pela igreja e não soube, ou não quis, responder à interpretação da imagem no plano central do altar mor. Trata-se de uma pintura moderna ou pós moderna que me pareceu, antecedida por uma silhueta de figura antropomórfica na retaguarda, segurando uma espada.
Já na fachada, junto à porta principal deparo-me com a imagem seguinte.

043

E continuei a investigar, até que um dia encontrei um residente – expert em brasões. Trocámos impressões.

Ele pergunta-me:

-O amigo das Terras do Demo e de Magriço sabe da existência de um Sapateiro, o Bandarra?

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-Sim, vivi em Trancoso. Teremos que continuar a investigar a influência do “bandarrismo”, especialmente nesta zona de Carnide, certamente.



«Foi o fogo do teu amor, Senhor, que permitiu ao diácono São Lourenço permanecer fiel» (cf. Santo Agostinho (354-430) Bispo de Hipona, Norte de África, Doutor da Igreja).

«O exemplo de São Lourenço encoraja-nos a dar a vida […]. Não são as chamas da fogueira, mas as chamas de uma fé viva que nos consomem […]. Pois não foi o próprio Salvador que disse, acerca deste fogo sagrado: «Vim lançar fogo sobre a terra […]» (Lc 12,49).

«Foi também graças a este incêndio interior que São Lourenço permaneceu insensível às chamas do martírio: ardendo em desejos de estar com Jesus, ele não sentia a tortura. Quanto mais crescia nele o ardor da fé, menos sofria […]. A força do braseiro divino que tinha encendiado no coração acalmava as chamas do braseiro ateado pelo carrasco. (cf. E. Q. do dia 10.08.2015 e Arautos do Evangelho)

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E cogitámos sobre o significado de vários símbolos em Carnide, alguns que parecem inéditos na Igreja de São Lourenço e envolvência. Há, em nosso entender, razões para a existência destes signos nesta zona, outrora “termo de Lisboa”, que também foi um dos termos do concelho de Belém.

P. S. A visita guiada com o grupo de Nova Museologia da Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão trará outras explicações.

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Alma e Luz de Carnide. Lisboa: Apenas Livros, Ldª, 2013

Em linha, acedidos em 01.06.2017 -

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – “067 161 Carnide e a sua Infanta: A obra e a relação platónica com o Poeta” http://cumpriraterra.blogspot.pt/2017/05/067-161-carnide-e-sua-infanta-obra-e.html

------------- - “068 160 Alô Carnide alô Lisboa: Aproveitando a o fim de ano letivo & preparação para as festas e feira tradicional de Nossa Senhora da Luz” http://cumpriraterra.blogspot.pt/2017/05/068-alo-carnide-alo-lisboa-aproveitando.html

quarta-feira, 31 de maio de 2017

067 161 CARNIDE E A SUA INFANTA: A OBRA E A RELAÇÃO PLATÓNICA COM O POETA



020


 Filha de D. Manuel I, a infanta D. Maria (1521-1577) nasce nos Paços da Ribeira e entrega a alma ao criador em Santos-o-Novo, Lisboa. No ano em que vem ao mundo, falece seu pai, D. Manuel I (Alcochete, 1469 — +Lisboa, 1521) e, pouco tempo após, a mondadeira leva a sua mãe – Dª Leonor de Áustria (1). Dª Leonor (1498 — +1558), filha de Filipe, O Belo (1478 —+1506) (2) nasce em Bruxelas, atual Bélgica e falece em Talavera, Espanha.

D. Leonor, mãe da infanta deixa Portugal, após enviuvar, regressando a Espanha.

……………………………………..

(1) Dª Leonor de Áustria, também dita de Habsburgo ou de Espanha, 3ª esposa de D. Manuel I, arquiduquesa de Áustria, princesa de Espanha e sucessivamente rainha de Portugal e de França, após casamento em segundas núpcias com Francisco I.

(2) Filipe, O Belo rei consorte de Castela por se ter casado com a rainha Joana, a louca, filha dos reis católicos.



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A infanta, protetora de Carnide, fica entregue a sua tia D. Catarina de Áustria, esposa de D. João III e irmã do Imperador Carlos V. A vida de D. Maria fica, assim, subordina aos interesses do Reino e do Rei, seu irmão.

D. João III ordena a constituição da Casa da Infanta, tendo esta 16 anos. Couberam-lhe avultados bens, uma herança das maiores da Europa, o que lhe permitiu torna-se senhora de cidades, vilas, terras e muitos outros bens em Portugal, Espanha e França.



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No seu paço particular de Santos-o-Novo apoia a música, a literatura e as artes manuais. Cria uma espécie de Universidade à dimensão da época. Desejada para casamento pelos príncipes de França, Espanha, Hungria e Alemanha; e até por Luís de Camões.

Como a realização de um amor carnal/material fosse impossível no contexto dos padrões culturais e sociais da época, desenvolve-se um Amor platónico que apenas é conhecido pela tradição e dedutivamente pela poesia de Camões.

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A principal razão de nenhum dos casamentos com a infanta se ter efetuado foi, certamente, o impedimento imposto pelo rei seu irmão. Urgia evitar que a infanta deixasse a Casa Real de Portugal com um importante dote que fazia falta à família e a Portugal. Após a morte de D. João III, a infanta vai a Espanha. Visita a sua mãe e esta implora à filha que fique com ela e com as muitas fortunas que lhe cabem. Porém D. Maria prometera regressar a Portugal e cumpriu a palavra.

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O adiamento ab eterno do casamento da infanta serve não só os propósitos de D. João III, bem como do seu tio, Carlos V, imperador do Sacro-Império Romano-Germânico e Rei da Espanha. Este monarca sabe da vontade de D. Leonor, mãe da infanta, em casar com o delfim de seu marido Francisco I de França (1497-1547). Porém, Carlos V convence os seus próximos de que a transferência dos bens da infanta e de sua mãe para França constitui um perigo para a paz gálica e hispânica.



025

Os valores da infanta não são apenas os da sua riqueza material. Consta que era dotada de grande inteligência, memória e cultura. Aprendida com a sua família, também com a aia e irmã desta (Luísa Sigeia e Ângela Sigeia, de Toledo) que a iniciaram nas letras e nas artes, incluindo latim e música. Com frei João Soares de Urró aprendeu vária teoria e escrituras sagradas. No seu Paço de Santos–o-Novo são ensinadas estas disciplinas e também artes manuais.



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Além da Igreja, Convento e Hospital da Luz (ou de Nossa Senhora dos Prazeres) a infanta apoia várias outras instituições: Santa Helena do Calvário, Nossa Senhora dos Anjos, Capuchos Arrábidos e de Torres Vedras, S. Bruno, Santo Cristo dos Milagres (Santarém), S. Bento de Avis e Nossa Senhora da Encarnação (Lisboa). Dá início à Igreja de Santa Engrácia, apoia o Convento da Graça e o Mosteiro de São Bento; disponibiliza muitos recursos para vestir e dar de comer aos pobres.



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Quanto aos bens materiais «[…] em 1571 o secretário do cardeal Alexandrino chamava-a “a princesa mais rica da christandade”, referindo-se a suas inumeráveis joias, e um milhão de bens patrimoniais, que ia gastando com os pobres». Em 1577, pouco antes do falecimento, faz uma relação de bens e rendimentos, deixando-os em testamento, sobretudo para apoiar os necessitados.



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A publicação “O Instituto”, Nº 63 de 1916, pp. 283-288 apresenta uma súmula desse testamento. Prevendo a morte antes que a Igreja da Luz estivesse concluída “determinou a infanta que o seu corpo fosse provisoriamente depositado no mosteiro da Madre de Deus, em Xabregas […]» (cf. ARAÚJO: 24), ali bem perto do seu Paço.

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A trasladação para a Igreja do Mosteiro de Nossa Senhora da Luz de Carnide efetua-se em 1597, tal como consta na descrição das duas legendas infra. Sepultada definitivamente, segundo a sua vontade, em campa rasa e sem legenda. Contudo, os freires de Cristo acabam por lhe dedicar uma lápide situada no lado esquerdo da capela-mor, onde pode ler-se: «A CAPELLA-MOOR D`ESTE MOSTEIRO DE NOSSA SNRA DA / LUZ E ESTE CRVZEIRO SÃO DA SEPOLTVRA (sic) DA SERENIS/SIMA IFFANTE DONA MARIA Q[UE] D[EU]S TE[M] FILHA D`ELREI DÕ / MANUEL E DA RAINHA DONA LIANOR SVA MOLHER NA / QVAL CAPELLA E CRVZEIRO SE NÃO DARA SEPOLTVRA A P[ESSO]A / ALGVVA DE QVALQVER CALIDADE QVE SEIA NEEM EM TEM / PO ALGVM SE FARÁ NHV~ DEPÓSITO NEM NENHUM LETE/REIRO POR ASSI ESTAR ASENTADO POR SVA M[AJESTA]DE E POR / CONTRATO SOLENE E CELEBRADO Q[VE] SE FEZ CO O PA/DRE CONFIRMADO PELO PA/DRE DO[M] PRIOR E MAIS PADRES DO SEV CONVENTO DE THOMAR / CUIO TRE[S]LADO ESTA NA TORRE DO TOMBO E NESTA CASA / DE NOSSA SNRA FALECEO A DEZ DO N FRº DE 1577.»



030

Porém, em altura diferente, é-lhe dedicada uma outra legenda mais sintética, sobre a própria pedra tumular: «AQVI JAZ / A IFFANTE DONA MARIA / FILHA DEL REI DÕ MANOEL / E DA RAINHA DONA LIANOR / FALECEO EM 1577».

 

Já no século XX, a sepultura chã é classificada como monumento nacional.



031

Beleza, grandeza e simplicidade da infanta

O conde de Vila Franca (3) apresenta a infanta “[…] alta, de esplêndidas formas. Elegantíssima […] denotando grande energia e isenção de carácter, uma formusura suavíssima, bem revelada na alvura da pelle, no azul dos olhos vividos e na cor loira dos cabelos, que lhe coroavam de ouro a espaçosa e ampla fronte, onde o talento espontâneo evidentemente se expandia. Este talento era ainda abrilhantado por muita erudição e incessante amor ao estudo ” (4).

……………………..

(3) Condes de Vila Franca, da família Gonçalves da Câmara (séc. XVI-XVII).

(4) RODRIGUES, José Maria “Ful text of “Camões e a Infanta D. Maria” in https://archive.org/stream/cameseinfantad00rodruoft/cameseinfantad00rodruoft_djvu.txt

………………………..



032

Diversos príncipes europeus desejaram-na para casamento, quer pela sua beleza, quer pela fortuna, porém a infanta de Portugal e da Luz de Carnide, não aceita propostas. Contudo, levantam-se suspeições de que o seu irmão D. João III contribuiu para esse “desiderato” da infanta em recusar matrimónio.



033

“Seu viver tão ajustado era aos sãos princípios da religião, tão sereno e regular […] que mais parecia a Infanta uma religiosa vivendo em estreita clausura do que uma Princesa estadiando no meio do século na posse de fortuna colossal”. (cf. ARAÚJO, A. de Sousa: 19; O Instituto, nº 63 (1916), p. 54).



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«A própria Infanta no fervor da sua paixão pelo local chega a residir pontualmente em Carnide, tendo comprado as casas de D. Maria Coutinha que ficavam próximas da ermida». (ARAÚJO, A. de Sousa: 20, cita SOVERAL: l. 39 vº).
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«Considerada no seu tempo a princesa mais rica herdeira da cristandade» (cf. ARAÚJO, A. de Sousa: 20-23). Usa a sua imensa riqueza para ajudar os pobres, quer em vida, quer depois da sua morte. Em 1577 faz uma relação de bens e rendimentos para apoiar os necessitados.
035

O Amor Platónico de Camões pela Infanta

José Maria Rodrigues (Coimbra, 1910) dedica um estudo ao amor platónico que Camões revelava pela infanta. Vai buscar a redondilha do “perdigão que perdeu a pena” como manifestação de melancolia e sofrimento, quiçá revelando um saudosismo e lusitanismo. Atribui a Camões sentimentos dolorosos ao considerar-se infeliz por não ver retribuído o mesmo amor. Tudo parece indicar que a redondilha de melancolia e sofrimento data da época da crise portuguesa que antecede o desastre de Alcácer Quibir. Próximo dos finais da vida, Camões revela o seguinte pensamento: “morro com a Pátria” (5)

…………………….

(5) Frase citada in. "Obras de Luiz de Camões: precedidas de um ensaio biographico, no qual se relatam alguns factos não conhecidos da sua vida augmentadas com algumas composições inéditas do poeta pelo Visconde de Juromenha ...".. Francesco Petrarca. Lisboa: Imprensa Nacional, 1860, volume 1, p. 148

 «Perdigão, que o pensamento

Subio a um alto logar,

Perde a penna do voar,

Ganha a pena do tormento.

Não tem no ar, nem no vento,

Asas com que se sostenha.

Não ha mal que lhe não venha!

Quis voar a uma alta torre,

Mas achou-se desasado;

E vendo-se depennado.

De puro penado morre.

Se a queixumes se soccorre,

Lança no fogo mais lenha.

Não ha mal que lhe não venha!».

Carolina Michaëlis de Vasconcellos (6) também se dedicou ao tema dos amores platónicos de Camões pela infanta. O soneto citado por Carolina (7) é, na opinião desta filóloga, um dos que melhor caracterizam o amor não correspondido:

…………………………

(6)Carolina Wilhelma Michaëlis de Vasconcelos. Nasceu em Berlim, na altura reino da Prússia, em 1851. Faleceu no Porto, em 1925. Contudo é considerada portuguesa, quer pelo seu casamento com Joaquim António da Fonseca de Vasconcelos, quer pelo grande sentimento português, tendo mesmo dirigido a revista Lusitânia, daí o seu lusitanismo na análise da obra da Infanta e de Camões. (cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Carolina_Micha%C3%ABlis )

(7)Cf. VASCONCELOS  - A infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas Porto: 1902, p. 4

 «Doce sonho, suave e soberano,

Se por mais longo tempo me durára!

Ah! quem de sonho tal nunca acordára,

Pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano!

Se por mais largo espaço me enganára!

Se então a vida misera acabára,

De alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, não estando em mi, pois tive.

Dormindo, o que acordado ter quisera.

Olhae com que me paga o meu destino!

Emfim, fóra de mim ditoso estive.

Em mentiras ter dita razão era,

Pois sempre nas verdades fui mofino»

[mofino = desgraçado, desventurado].

Outro soneto, muito conhecido e divulgado nos estudos de José Maria Rodrigues, Coimbra, 1910 e no blogue de Montalvo é dos que mais revela a desilusão de tanto ter errado, suspirado e lamentado por erros que incluem o amor não correspondido:

«Erros meus, má fortuna, amor ardente

Em minha perdição se conjuraram;

Os erros e a fortuna sobejaram,

Que para mim bastava amor, somente.

Tudo passei, mas tenho tão presente

A grande dor das cousas que passaram,

Que já as frequências suas me ensinaram

A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o decurso de meus anos;

Dei causa a que a fortuna castigasse

As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.

Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse

Este meu duro Génio de vinganças!»

José Maria Rodrigues classifica o poeta da epopeia como:

«[…] o genial doido, ao comparar [o próprio poeta] com o perdigão desasado, se devia recordar, com amarga saudade, do tempo, não muito afastado, em que julgava pôr o pensamento em tão alto lugar!»

«Num tão alto lugar, de tanto preço,

Este meu pensamento posto vejo,

Que desfalece nele inda o desejo,

Vendo quanto por mi o desmereço.

Quando esta tal baixeza em mi conheço,

Acho que cuidar nele é grão despejo,

E que morrer por ele me é sobejo

E mór bem para mi, do que mereço.

O mais que natural merecimento

De quem me causa um mal tão duro e forte,

O faz que vá crescendo de hora em hora.

Mas eu não deixarei meu pensamento,

Porque, inda que este mal me cause a morte,

Un bel morir tutta la vita honora.»

Neste soneto, Camões (1524-1580) reconhece a sua pequenez de estatuto social perante tão altíssimo e nobre amor, em relação à infanta D. Maria, evidenciado em: “Quando esta tal baixeza em mi conheço”.

Ainda estamos no período clássico renascentista da literatura. Camões denuncia: “[…] um mal tão duro e forte / O que faz que vá crescendo de hora em hora”. Contudo, ainda não está cansado de tanta desilusão, como no final dos seus dias. A força de vontade e um certo contentamento são evidenciados entre o grande sofrimento: “Porque, inda que este mal me cause a morte, / Un bel morrir tutta la vita honora.”

Verificamos que as descrições: física e psicológica acerca da infanta têm como base as memórias recolhidas por fr. Roque do Soveral, em "História do insigne do aparecimento de Nª Srª da Luz e suas obras", bem como as investigações de George Cardoso em "Hagiológico Lusitano", sendo o primeiro da altura do decadentismo, com a perda da independência e o segundo já depois da restauração e ainda coincidente com a estética barroca.

Outras fontes acerca da infanta são as de Norberto de Araújo em "Inventário de Lisboa" (8) e de António de Sousa Araújo - escritor na Editorial Franciscana em "O Santuário da Luz - Glória de Carnide".

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(8)Acerca deste movimento e suas reminiscências cf. ARAUJO, Ana Paula in http://www.infoescola.com/movimentos-culturais/saudosismo-portugues/

      Estas descrições pendem para o lado laudatório com reminiscências de saudosismo e lusitanismo. Camões, por sua vez é destacado como o grande poeta da epopeia, o eterno apaixonado, conhecedor do ambiente da Corte mas pobre e, nos finais, caído na desgraça, juntamente com a Pátria.

José Maria Rodrigues e Carolina Michaëlis de Vasconcellos analisaram a vida e obra de Camões entre finais do século XIX e primeiro quartel do século XX, também num tempo de saudosismo e lusitanismo.

Nota final: para quem estiver interessado, a freguesia de Carnide preserva marcas físicas e memoriais referentes à infanta, desde a sua sepultura, legendas, brasão, um retrato no retábulo esquerdo do cruzeiro da igreja e documentação afim.

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Alma e Luz de Carnide. Lisboa: Apenas Livros, 2013

-ARAÚJO, António de Sousa – O Santuário da Luz – Glória de Carnide. Lisboa - Braga: Paróquia de Carnide (Edit.); Oficinas Gráficas da Livraria Editora Pax. Ldª (Imp.), 1977

-ARAÚJO, Norberto de – Camões não foi bem como Aquilino o viu “conferência proferida na Camara Municipal de Lisboa, 4 de Julho de 1949

------------- – Inventário de Lisboa. Lisboa: 1955

-CARDOSO, George – Hagiológico Lusitano, II, Lisboa: 1657

-O Instituto, nº 63 (1916)

-SOVERAL, Fr. Roque do - História do insigne aparecimento de Nª Srª da Luz e suas obras. Lisboa: 1610

-VASCONCELOS, Carolina Michaëlis - A infanta D. Maria de Portugal e as suas Damas. Porto: Edição facsimilizada da Typ. a Vapor Arthur José de Souza, 1902
Em linha acedidas em 23.4.2015 e 31.05.2017:

--ANCIÃES, Alfredo Ramos “41 Portugal Amores e Patrimónios Lusófonos Comunicados”



--ARQNET, et al. - “Maria (D.). Infanta de Portuga” http://www.arqnet.pt/dicionario/maria_inf7.html);



--CAMÕES, Luís de; Jornal de Poesia et al. -  http://www.jornaldepoesia.jor.br/camoes80.html

--PORTAL SÃO FRANCISCO et al . - “Doce Sonho Suave e Soberano”


--RODRIGUES, José Maria - “Camões e a Infanta D, Maria...”  https://archive.org/stream/cameseinfantad00rodruoft/cameseinfantad00rodruoft_djvu.txt;

--RODRIGUES, José Maria et al. - “Camões e a Infanta D. Maria: Parte I” - http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.pt/2010/08/camoes-e-infanta-d-maria-parte-i-o-meus.html;

--VASCONCELOS, Carolina Michaelis de -“Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas damas” http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.pt/2011/09/infanta-d-maria-de-portugal-1521-1577_29.html

--WIKI.. et al. -  “Maria de Portugal, Duquesa de Viseu; ” http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_de_Portugal,_Duquesa_de_Viseu
--WIKI.. et al. - Imagem da Infanta D. Maria de Portugal, 6ª duquesa de Viseu in http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_de_Portugal,_Duquesa_de_Viseu#/m...