sábado, 27 de outubro de 2018

D `O NOME DA ROSA` AOS PADRÕES DE MEMÓRIAS:


Da Semiótica e dos Patrimónios Bibliotecários e Arquivísticos na Abadia d` “O Nome da Rosa.(cf. http://cumpriraterra.blogspot.com/2016/08/89-d-o-nome-da-rosa-aos-padroes-de.html )
Nota Prévia. O presente resumo resulta de uma abordagem na óptica de socio-museologia, documentação e informação, em torno de um título e obra como «O Nome da Rosa» do semiólogo Umberto Eco e das envolvências históricas, mentais e sociais.
As memórias guardadas nos grandes conventos e abadias da Baixa Idade Média (séc. XI a XV) levam o semiólogo Umberto Eco e os seus personagens a descobrir segredos da Idade Clássica que haviam recolhido e guardado “a sete chaves” É aqui que entra o frade franciscano William (representado por Sean Connery no filme). Com a sua nova mentalidade pré humanista, filósofo e racional, aristotélico e agostiniano, vai desvendar mortes misteriosas ocorridas na abadia.
Este novo monge, novo no sentido de moderno, ou pelo menos pré-moderno, baseia-se nas memórias de Santo Agostinho (354-430) que apesar de não ser contemporâneo da Idade Clássica, ainda assim, estava perto das memórias de Platão, na versão do pensamento neo-platónico.
Memórias inclusivamente transmitidas por árabes: Avicena, Averróis e Al-Farabi; pelo judeu Moisés Maimonides; pelos cristãos: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino; por Amonio Sacas, o alexandrino; pelo Pseudo-Dionísio, o areopagita, quiçá sírio; por João Escoto Erígena, irlandês; entre outros.
Na biblioteca do mosteiro, camuflada / escondida por causa do receio que o uso deste bem cultural provocaria nas mentalidades, nomeadamente nos monges degenerados ou obstipados pelo tempo; são incapazes de disponibilizar e difundir a cultura dos clássicos.
Mas eis que chegam novos actores. No caso, os franciscanos Guilherme e Melk, os quais representam n´ “O Nome da Rosa” a pré aurora renascentista. Quanto à interpretação dos pergaminhos, inclusivamente das memórias neoplatónicas de Santo Agostinho, deixo aqui uma ligeira frase:
«[…] que os cristãos podem e devem tomar da filosofia grega pagã tudo aquilo que for importante e útil para o desenvolvimento da doutrina cristã [;] desde que seja compatível com a fé » (Livro II, B, Cap. 41)
Os velhos bibliotecários tinham na sua mentalidade conservadora que: se as pessoas lessem os autores clássicos, perdiam “o temor a Deus”. Contudo, pelo sim e pelo não, esses bens culturais, inclusivamente do filósofo Aristóteles são acautelados e alguns até traduzidos e valorizados. Careciam agora, no século XIV, de ser divulgados, até porque os pensadores das ciências e das letras, como o caso dos filósofos árabes começavam a rarear, nomeadamente com as guerras de reconquista.
Alguns bibliófilos sentiam, portanto, o perigo da literatura memorial da biblioteca se começar a perder, na época que emergem nações europeias e despontam brisas de renascimento na península itálica, onde se passa a trama d` “O Nome da Rosa”, no ano de 1327. Enquanto isso, franciscanos, beneditinos e agostinhos travam disputas teo/ideológicas com diferentes interpretações sobre a forma de ser e de estar no mundo, reflectindo uns, e debitando outros, ideias feitas, outras novas, ou de conveniência, em relação aos caminhos da salvação.
Os franciscanos são a favor da simplicidade e, de certo modo, da aceitação dos clássicos, sobretudo através dos neo-platónicos, agostinhos, tomistas e aristotélicos.
A velha Ordem de frades, cuja genuinidade já alterada com os tempos, encontram-se em fase de modorra. O frades ficam mais inquietos com medo dos novos tempos, inclusivamente dos processos inquisitoriais.
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Note-se que o próprio emblema da ordem agostinha tem como signo, um livro. Este livro é um sinal que representará o Livro dos livros (a Bíblia). É deste Livro dos livros que tem raiz o conceito de Biblioteca (lugar seguro para livros). O outro elemento do emblema é um coração flamejante, representando, porventura, que a Bíblia e o saber se (entre)cruzam (ainda o conceito de cruz) com o fogo (energia) que aquece e modifica;
Porém com a presença de uma flecha que significa dor. É que, o saber e a experiência são alcançados com sofrimento.
Contudo, o tempo já é de mudanças substanciais. A ainda jovem Ordem dos Franciscanos, nas pessoas de Williams (Guilherme) de Baskerville e seu pupilo Adso, nas suas visitas à abadia deparam-se com mortes misteriosas entre os frades. No seu labor, para tentarem descortinar a origem dessas mortes estranhas, acabam por se perder em labirintos que, no entanto, os levam à descoberta dos tesouros bibliotecários e arquivísticos.
Neste ponto de vista Baskerville e Melk são símbolos de prenúncio:
-De que o Renascimento está para breve,
-De que baseados nos saberes clássicos irão, pela ciência, pelas letras, pela filosofia e pela técnica, alcançar novos caminhos;
-De que a Europa conquistará novos mundos.
Mas como diz o adágio: “não há bela sem senão”. Estes prenúncios de renascença trazem, não só progressos e liberdades. Paralelamente:
-Verificam-se reacções que geram novas crises e novas guerras;
-Interesses individuais e corporativos; o Poder temporal e a Inquisição lançam os seus braços de morte. É entre este confronto de oportunidades e de mentalidades: medievais e pré renascimento que o jovem frade Adso Melk descobre a sensualidade e a luxúria; e que o seu mestre Guilherme de Baskerville descobre e/ou reforça o amor ao saber, consubstanciado nas memórias, não permitidas e ocultas na abadia.
No confronto, Guilherme é acusado de orgulho intelectual ao querer ter acesso à Biblioteca. Não tendo conseguido tal permissão, Baskerville e seu pupilo entram clandestinamente nos labirintos de uma das maiores reservas documentais da Europa. Ao mesmo tempo que se perdem, ficam extasiados com os tesouros da Antiguidade. Ao abrir um livro, o jovem Melk pronuncia as seguintes palavras:
O amor não é uma doença [apenas …] se transforma em tal, quando começa a obcessão […]».
É, com efeito, o racionalismo clássico que entra em acção. Extrapolando algo, é ainda, graças a estes saberes que o Mundo se vai expandir e globalizar. Aqui entra o papel das Ordens dos Templários e de Cristo, o Jesuítico e o da portugalidade através de achamentos e descobrimentos; da expansão territorial, da leitura de velhos e novos documentos que farão parte das memórias e bens culturais para que possamos avaliar os Homens em que nos tornámos, também os homens que não queremos ser e os Homens que ambicionamos Ser.
(Palavras-chave: agostiniano, antiguidade clássica, aristotélico, beneditino, franciscano, neoplatonismo)
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Nota final: Deixo aqui um reconhecimento fratrimónial a:
-A Associação de BAD – dos Bibliotecários Arquivistas e Documentalistas;
-FPC MC – Fundação Portuguesa das Comunicações e Museu;
-GAM-C – Grupo de Amigos do Museu das Comunicações;
-MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia de que é actual Presidente Mário de Souza Chagas
-USMMA – Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão.
 
Fontes:
-ECO, Humberto – O Nome da Rosa; PINTO, Maria Celeste (trad.). s.l.: Gruppo Editoriale Fabrori-Bompiani; creacíon editorial, s.l., 2009
Em Linha –
-FILHO, Miguel Attie; GALLI, Marcelo, Editora Escala - http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/66/artigo244834-1.asp ;

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