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domingo, 21 de julho de 2019

UM “MUSEU” AO AR LIVRE

O Mundo na Palma da Mão demonstra a vontade e a universalidade dos naturais e residentes. Pode ser um exemplo para outras localidades da Grande Lisboa e algures. Que as pessoas se unam. Que as discriminações se dissipem e extingam.

Tão Longe e Tão Perto, foi com este slogan que há cerca de 20 anos iniciámos visitas ao norte do concelho de Loures.

Museus ao ar Livre é uma das categorias de museus. Os bens culturais e económicos estão predominantemente expostos ao tempo. As pessoas participantes nestes museus são parte integrante e principal deste tipo de museologia.
Na Quinta do Mocho a tendência deverá ser a de valorizar cada vez mais os naturais e/ou moradores. A arte local na Quinta do Mocho é importante como meio de comunicação, pelo atrativo da estética e mensagem mas a população, não importa de que origem ou prática legal e de paz, não pode estar em qualquer plano secundário. As pessoas e a vida são ainda mais importantes do que quaisquer expressões artísticas.

Consta que o primeiro museu ao ar livre foi o “Museu a Céu Aberto Skansen” situado na Suécia, na envolvência de Estocolmo. Aqui se representavam e representam as casas e as artes de várias regiões distintas. Além da construção, arte e ofícios, o museu tem espaços zoológicos.
Este museu data do século XIX, fundado em 1891. Não se trata de um equipamento e museu parado no tempo. Com efeito e só para exemplo: “O padeiro acorda ao romper da aurora para trabalhar com os foles […] o boticário manuseia jarras, garrafas e pipetas […] e no acampamento do povo […], as renas estão sendo ordenhadas […]”  (cf. «klm.com» et al “O Museu ao Ar Livre Mais Antigo do Mundo” inhttps://www.klm.com/destinations/br/br/article/the-worlds-oldest-openair-museum )

Em Portugal também temos museus ao ar livre, alguns com história. Por aqui são, frequentemente, designados como ecomuseus. Não é o caso da Quinta do Mocho, espaço problemático há uns anos e hoje começando a ser exemplo pelos bons motivos de convivência, integração, arte e curiosidade.

Visitei este espaço e comunidade algumas vezes. Percorri quase todo o bairro, fotografei, sem problemas e sem que tivesse achado nada de estranho. Entrei em estabelecimentos comerciais.
As pessoas não me observaram de forma esquisita. Ninguém se intrometeu na minha visita e reportagem fotográfica. Na terceira e mui recente visita, parei numa rua de Sacavém. Como não ia com atenção suficiente à sinalética, perguntei a um Agente de Polícia o caminho para a Quinta.

-“Olhe que o local é perigoso”.

Já visitei a Quinta algumas; desta vez é que me enganei no caminho. Não houve qualquer problema.

-“Olhe que eu trabalhei lá cerca de 10 anos!”.
Indicou-me, o caminho. Agradeci.

Nesta visita encontro um Guia. Fazia uma apresentação a duas turistas. Abordou-me com simpatia. Conversámos um pouco. Fez questão de me oferecer um desdobrável informativo, onde constam contactos e uma série miniatura de mais de 100 figuras de pinturas murais. Agradeci, dizendo-lhe que iria voltar em visita de grupo.

-“Está bem, quando quiser. Tem aí os contactos. Podemos até organizar um almoço de grupo com iguarias africanas, incluindo animação”.

Muito bem. Perguntei-lhe por um restaurante. Levou-me até à esquina de uma rua e indicou-me o local onde poderia tomar uma refeição.
Além das “galerias murais”, encontrei, painéis com imagens artísticas de exposições temporárias a céu aberto. O bairro parece-me ainda mais típico e organizado do que nas primeiras vezes que o visitei. Mesmo à beirinha dos prédios observo um pequeno rebanho de gado ovino. No fundo da portaria de um prédio, encontro deitada uma cabra leiteira que ali parecia descansar em horas zenitais. Mais adiante, junto a outra portaria, alguns vizinhos, mulheres e homens, bebiam e conversavam. Já não sei quem meteu conversa primeiro, se os vizinhos, se da nossa parte.

- “ Aqui por fora, parece que está tudo bem, mas lá dentro há miséria”.

Diz uma senhora.

-“No entanto temos habitação. Pagamos renda, mas é social”.

Diz outra senhora.

-“Venham visitar-nos quando quiserem. Muito obrigada, muito obrigada!”
&
Porque é que intitulámos este espaço por “museu”, embora entre aspas?

1- Em primeiro lugar: o sítio ainda é algo informal do ponto de vista institucional, embora, cada vez mais organizado. 2- Se não me engano e pelo que investiguei, falta uma sede aberta com permanência, no entanto o local tem vindo a contar com o apoio autárquico e com a Associação Cultural de Sacavém. Esta Organização tem sede muito próxima, cerca de uma centena de metros ou pouco mais da Quinta do Mocho. Esta Associação coorganiza visitas de grupo mensais à Quinta, com o apoio e envolvimento da gente local.

3-Há um Grupo de Guias locais que podem ser contactados pelas redes sociais, ou por telefone (v. infra referencias documentais em link).

4- Este Grupo de Guias, a Associação e Autarquia têm-se desdobrado em colaboração com entidades, instituições de ensino e educação, incluindo Universidades.

5-As populações do Bairro colaboram em informação, restauração e animação e são guardiãs dos valores artísticos.

6-Há cada vez mais um assumir de entidade e valores da Quinta do Mocho, como sociedade multiétnica e multicultural.

7-Os valores da paz e convivência têm vindo a ser implementados. A imagem das populações tem vindo a ser recuperada para o lado positivo. Hoje, em dias, não é mais problemático visitar este bairro, sozinho ou em grupo, do que muitos outros bairros ou localidades da Grande Lisboa e outras regiões.

Logo, há na Quinta do Mocho quase tudo para se poder considerar um Museu ao Ar Livre, um Novo Museu Social, um Ecomuseu ou designação equivalente; porque e em resumo:

-O Bairro trabalha com: 1) Bens artísticos e culturais. 2) Assume-se como Comunidade que vai ganhando identidade. 3) Há uma envolvência territorial em que Quinta do Mocho vai adquirindo contextos positivos, quiçá, como que Quinta da Sabedoria, até porque o mocho vai fazendo parte da expressão artística, como um prenúncio e um logótipo associado à sabedoria que a ave representa.

4) Adotam cada vez mais a visão e prática democrática de funcionamento. 5) Esforçam-se, e mui especialmente com o apoio autárquico, por assumir a modalidade de museu ao ar livre. 6) As populações podem participar em projetos e cada vez mais em decisões, bem como – 7) na gestão e na fruição de bens imateriais e equipamentos.
Notas finais

Além destas definições apresento aqui o essencial sobre o que é um museu na conceção dos ICOM (*) Conselho Internacional de Museus.

(*) Definição de museu segundo os estatutos do ICOM Conselho Internacional de Museus; associação não governamental, ligada à UNESCO/ONU com sede em Paris. (Cf. Estatutos do ICOM in 10º Encontro Nacional de Museologia e Autarquias. Monte Redondo, 19 e 20 junho, 1999 in Biblioteca Victor de Sá, Univ. Lusófona). Entre várias outras funções o ICOM é uma Organização que gere os processos da candidatura dos bens a «Património Cultural da Humanidade» e funciona como um regulador entre os bens culturais e as instituições museológicas. Cada país pode ter o seu prório ICOM seguido do nome do respectivo país . – tal como o ICOM Portugal).

«Artigo 2. Definições: 1.O museu é uma instituição permanente, sem finalidade lucrativa, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que realiza investigações que dizem respeito aos testemunhos materiais do homem e do seu meio ambiente, adquire os mesmos, conserva-os, transmite-os e expõe-nos especialmente com intenções de estudo, de educação e de deleite.

[…] Além dos “museus” designados como tal, são admitidos como correspondendo a esta definição:  
(i)os sítios e os monumentos naturais, arqueológicos e os sítios e monumentos históricos […]
ii)as instituições que conservam coleções e que apresentam espécimes vivos de vegetais e de animais tais como os jardins botânicos e zoológicos, aquários, viveiros;
iii)os centros científicos [exemplo: o Observatório de Constança, Observatório da Ajuda] e os planetários [exemplo: o Planetário de Belém]; […] »
iv) os institutos de conservação e galerias de exposição que dependem das bibliotecas e dos centros de arquivo;

(v) os parques naturais;

(vi) as organizações nacionais, regionais ou locais de museu, as administrações públicas de tutela dos museus tal como foram acima definidas;

(vii) as instituições ou organizações com fins não lucrativos que exercem atividades de investigação, educativas, de formação, de documentação e outras relacionadas com os museus ou a museologia;

(viii) qualquer outra instituição que o Conselho executivo, segundo opinião da Comissão consultiva, considere como detentoras de algumas ou da totalidade das características de um museu, ou que possibilite aos museus e aos profissionais de museu os meios de fazerem investigações nos domínios da museologia, da educação ou da formação». (os sublinhados nas citações são nossos).
Nota conclusiva: A Quinta do Mocho, na freguesia de Sacavém, concelho de Loures, situa-se num bairro em que o decurso das vivências e segurança não nos parecem mais problemáticos do que em tantos outros bairros e cidades. Esperamos que o espaço e projetos continuem a ser valorizados e dignos de serem considerados, não apenas como galeria de arte a céu aberta mas um espaço social e museal a céu aberto. 

Palavras-chave: economia, desenvolvimento, galeria, museu ao ar livre, participação, Quinta do Mocho, social, território

 Referências documentais:

-ASTROLOGOOBSERVADOR, et al - “Os Aninais e a Cultura – o Mocho, Sabedoria e Augúrios“ https://atuavidanosastros.com/2013/07/os-animais-e-a-cultura-o-mocho-sabedoria-e-augurios/

 -CRUZ, Diogo Balestra “Guias do Mocho – Bairro de Arte Pública”  https://www.facebook.com/dbalestracruz/posts/10155469480382256:0

 
-MUSEU Skansen ao ar livre, Klm.com et al. “O museu ao ar livre mais antigo do Mundo” https://www.klm.com/destinations/br/br/article/the-worlds-oldest-openair-museum

 

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

MUSEUS E ORGANIZAÇÕES COM MEMÓRIAS - PARA QUE SERVEM ?


Caso concreto, partindo do artigo de 22 de setembro de 2018 no jornal Expresso, Henrique Monteiro faz comentário à visita oficial do primeiro-ministro português a Angola. Como é sabido pelos Media, as relações entre Portugal / Angola andaram tensas e controversas nos últimos tempos. Pessoas e negócios foram afetados por causa de melindres de justiça, intenção de condução do processo de investigação e eventual julgamento em Portugal. Estava em causa, alegada corrupção praticada por um ex-vice-presidente do Governo Angolano – Manuel Vicente.

A instituição museu e consequentemente a imagem que se faz dele, serviu ao primeiro-ministro português para desbloquear o ambiente crispado e delicado entre os dois Governos.

A frase de descompressão e reatamento amistoso foi proporcionada exatamente com a citação de uma das tradicionais funções do museu:

O primeiro-ministro de Portugal, António Costa sai-se sorridentemente com a frase: «O passado ficou no museu».

Nesta peugada o museu serviu ainda a Henrique Monteiro para intitular o seu artigo:

«ANGOLA: PARA QUE SERVE UM MUSEU?» (cf. imagens infra).

O jornalista não se limita ao título e à frase proferida por António Costa e acrescenta:

«Acontece que os museus existem, não para esquecermos o passado mas para aprendermos com ele; por exemplo, a não sermos colonialistas, neocolonialistas, ou lambe-botas (citando a mãe do chefe do Governo) […]. Há milhares de razões para estarmos atentos

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Aproveitámos aqui para focar algumas das vantagens e funções dos museus e organizações afins, as quais servem:

-Como no caso supra, para transferir as memórias para uma espécie de limbo, sem que signifique esquecimento ou destruição. Remetendo as memórias para o museu e/ou arquivos, sabemos que não precisamos andar a memorizar permanentemente acontecimentos, só pelo receio de os esqueceremos. O facto de sabermos que as memórias se encontram preservadas dá-nos alguma tranquilidade e garantia, pelo motivo de as mesmas memórias poderem ser recuperadas e reeditadas. As memórias negativas servirão como chamada de atenção de comportamentos que não devemos repetir. Quanto às memórias positivas, estas serão apresentadas como acontecimentos e factores de amizade e sucessos.

Os museus e organizações com memórias encarregam-se, pois, de:

-Salvaguardar, preservar, conservar, restaurar, catalogar, indexar, organizar, seriar, colecionar, arrumar, informar, animar e comunicar. É o que se poderá chamar de memórias institucionalizadas e confiadas, fora das nossas casas e cérebros, por incapacidade de memorização, espaço físico, tempo e conhecimentos para nós próprios podermos guardar memórias, bens culturais e bens de prova testemunhal.

Referindo algumas das modalidades de serviço que se encarregam da gestão dos bens culturais, de lazer, de entretenimento e prova:

1)arquivologia; 2) museologia; 3)biblioteconomia; 4) jornalismo;

2.1)desdobrando aqui apenas o contributo da museologia, este serviço pode exercer-se de forma:

a)amadora e ancestral como no tempo do museion;

b)de forma amadora e tradicional como no tempo dos gabinetes de curiosidades;
c)de forma amadora/colecionista desde a Renascença até à actualidade;

d)de forma funcional e pública, como no seguimento das revoluções e dos poderes partilhados (não absolutos) quando as memórias patrimoniais e culturais passam a ser propriedade da Nação;

e)de forma democrática e social (museologia social) que pode ser do tipo: e1) associativo (associações locais, cooperativas, fundações) e do tipo público-participativo entre Autarquias, para-Regiões, Governos e Cidadãos. 

Parabéns aos apreciadores de museus / museologias e organizações com memórias.



Tags.: arquivologia, biblioteconomia, cultura, jornalismo, museologia, participação, política