sábado, 17 de maio de 2014

09 NOTAS DA TSF / RÁDIO PÚBLICA NO ANTES DE 25 DE ABRIL 1974


16"Em verdade, em verdade vos digo: o servo não está acima do seu senhor e o mensageiro não é maior que aquele que o enviou. 17Se sabeis isto, e o puserdes em prática, sereis felizes” (Jo 13, 16-17) (sublinhado meu)

As experiências radioelétricas já vinham dos finais do regime monárquico; conhecidos que eram os trabalhos do almirante Gago Goutinho (1) precedidos e continuados por outras figuras da TSF -  Telegrafia e Telefonia Sem Fios (2).

Quanto à radiodifusão (programas públicos de fonia, via rádio, para auditório aberto) é assinado em 1930 o decreto que cria a Direcção dos Serviços Radioeléctricos dos CTT (3). 

Em 1932 o Ministro das Obras Públicas e Comunicações, eng.º Duarte Pacheco aprova experiências rádioelétricas. Em Barcarena, concelho de Oeiras são instalados os primeiros estúdios e o emissor público. Contudo esta primeira estação estatal, cedo começa a ser desdobrada e deslocada para outros locais. Com efeito, em 1934 vários serviços de Barcarena são transferidos para a Rua do Quelhas - Lisboa, tendo nesta localidade feito uma longa história, até finais do século XX, se considerarmos a permanência dos estúdios e do simpático Museu da Rádio. Desde estes anos 30 a rádio pública/estatal foi designada por Emissora Nacional de Radiodifusão Portuguesa. (4)

A tecnologia adotada na Emissora Nacional era a de onda média, seguindo-se outras transmissões em onda curta para a longa distância: ultramar e estrangeiro.   

Só em 1935 após quase cinco anos de preparação é que foi inaugurada com pompa e circunstância a Emissora Nacional de Radiodifusão Portuguesa pelo Estado Novo, tendo participado na cerimónia o Presidente da República General Carmona, o capitão Henrique Galvão, o Ministro das Obras Públicas e Comunicações – eng.º Duarte Pacheco, o técnico Manuel Rodrigues Júnior, entre outras personalidades.

A onda curta foi a nova realidade que permitiu o programa Hora da Saudade. Com este programa “[…] estabelecíamos uma forte ligação à nossa casa, à nossa terra. Durava pouco, mas sabia muito bem. O procedimento mais usual era, quando os pescadores estavam a trabalhar, o capitão ia de imediato ouvir as mensagens recebidas em directo a partir de Portugal, retransmitindo-as de seguida pelo navio”. (Capitão João Braz, entrevistado por Luís Manuel Martins (5).

Nos finais dos anos 30 a tecnologia de onda curta em Barcarena beneficiou do aumento de potência dos 2 para os 10 kw permitindo melhores captações de som e o aumento do alcance da transmissão e da receção (6).

Formalmente só em 1940 a Emissora Nacional saiu da esfera tutelar dos CTT – Correios Telégrafos e Telefones, na altura integrados no Ministério das Obras Públicas e Comunicações e hoje designados CTT – Correios de Portugal, S. A.

A mudança fez-se através do Decreto-Lei 30752. Começou então a descentralização de tecnologias e serviços com a criação de emissores: no Porto, Coimbra e Faro.

Cerca de 1944 em Castanheira do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira é instalado um emissor de ondas médias com 50 kw de potência. O objetivo foi conseguido: a difusão de programas radiofónicos da parte da manhã. Em Barcarena ficou o emissor de ondas médias para transmitir os programas noturnos, encerrando contudo as emissões antes da meia-noite.  

Nos anos 40 foram célebres as temporadas de ópera, transmitidas a partir do Teatro de S. Carlos. A emissão de música tinha origem na atuação ao vivo com a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional regida pelo maestro Pedro de Freitas Branco que animava sobremaneira o país numa altura em que não havia televisão em Portugal. Em 1936 começam as gravações em discos, tentando assim disponibilizar melodias a qualquer hora e a custos reduzidos. As novas tecnologias de então contribuem para fazer chegar aos públicos um serviço com tendência a universal.

Em 1952 o Instituto Superior Técnico recebe estúdios de gravação e emissão de programas no âmbito das conferências da NATO, realizadas em Lisboa. Chegados a 1954 é a vez do presidente da República General Craveiro Lopes inaugurar o Centro Emissor de ondas curtas e médias de S. Gabriel (7) de Pegões. Esta estação emitia para longas distâncias em ondas curtas através de dois emissores, servindo o ultramar português e o sudoeste asiático.

Em meados dos anos cinquenta introduz-se nova tecnologia permitindo a emissão e receção da Frequência Modulada (FM). Equipamentos de 100 kw em Lisboa e na Lousã são postos ao serviço da Emissora Nacional (8).

Quanto à rádio pública internacional, esta ganha visibilidade em 1957 com os estúdios no Bairro Alto, Rua de S. Marçal, inaugurados na altura da visita da raínha Isabel II.

A estereofonia em Frequência Modelada (FM) é aproveitada no tempo da primavera marcelista para a emissão de música gravada em onda média das 9 às 11 da noite e das 11 à uma e tal da manhã.

A difusão de informação e propaganda tenta influenciar a Europa nas línguas: francesa, inglesa e alemã. A Voz do Ocidente da Emissora Nacional insistia em ganhar adeptos em relação à política com as províncias ultramarinas, destacando a missão da defesa militar portuguesa. Esta Voz do Ocidente combatia as emissões clandestinas comandadas por Moscovo, aproveitando o ambiente da guerra fria.

Ficou na memória de muitos contemporâneos o slogan “Aqui,  Voz do Ocidente, Rádio Moscovo não fala verdade”. As emissões do exterior eram, por sinal boicotadas, tanto quanto possível, através dos Serviços Radioeléctricos dos CTT, organismo estatal até 1968 e empresa pública a partir de 1969. A instalação de Barcarena onde funcionara a primitiva Emissora Nacional passa a ter também a função de provocar artificialmente interferências ao sinal das rádios políticas estrangeiras, tais como a Rádio Moscovo, Voz da Liberdade (Rádio Argel) e Rádio Portugal Livre (Bucareste – Roménia).

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(1)   São conhecidos as investigações e a apresentação duma patente por parte de Gago Coutinho. “Preocupando-se de igual modo com os problemas das comunicações entre o mar e a terra, escreveu sobre telegrafia sem fio, advogando que se montassem estações na costa de Portugal, de modo a salvaguardar a segurança das embarcações”. Em 1900 “Coutinho registou duas patentes de invenção em telegrafia eléctrica, uma das quais para um sistema de radiocondutor sem limalha”. (cf. fontes infra: Coutinho, Gago)

(2)   O ano de 1925 marcou outra etapa de desenvolvimento das telecomunicações em Portugal com a criação da Companhia Portuguesa Rádio Marconi, chegando a ser uma das maiores redes de radiocomunicações a nível mundial, operando de Portugal a Timor.

(3)   Os Serviços Radioeléctricos dos CTT são o embrião do ICP – Instituto das Comunicações de Portugal, agora com a designação de ANACOM – Autoridade Nacional das Comunicações.

(4)   Com as vicissitudes da História, o nome acabou por ser alterado; atualmente a estação e museu estão fundidos na RTP – Rádio e Televisão de Portugal com estúdios e emissores na Avenida Marechal Gomes da Gosta, 37. A RTP tem ainda outras sedes, emissores e estúdios no Porto, Madeira e Açores.

(5)   O programa “Hora da Saudade”, foi iniciado em 1937 pela Emissora Nacional de Radiodifusão Portuguesa. Apresentado por Curado Ribeiro, dirigia-se aos emigrantes no continente americano e aos tripulantes e pescadores dos navios bacalhoeiros na Terra Nova. (Cf. Blogue Aqui e Agora – Hora da Saudade in http://oaquieagora.blogspot.pt/2007/07/hora-da-saudade.html, acedido em 16.5.2014)

(6)   Cf. RTP 75 Anos Rádio Pública Portuguesa in  http://www.rtp.pt/wportal/sites/radio/75anos/historia.php

(7)   Note-se que o Arcanjo S. Gabriel é o padroeiro das telecomunicações.

(8)    Atualmente a rádio em  FM é a mais utilizada em Portugal, emitindo em cerca de 300 estações neste tipo de frequências.

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Da História das Telecomunicações na I República in Comunicar na República 100 Anos de Inovação e Tecnologia. FPC - Fundação Portuguesa das Comunicações. Lisboa: FPC, 2010

- Id. Da História das Telecomunicações no Estado Novo (1926-1974)

- Id. Da História das Telecomunicações na Democracia (1974-2010)

-Id. “Património museológico de telecomunicações: Criação e gestão em contexto”. Lisboa: FPC Códice Ano XI Série II, 2008, págs 52-67

-COUTINHO, Gago - Biografia de Carlos Viegas Gago Coutinho (1869-1958) in http://www.ihc.fcsh.unl.pt/pt/recursos/biografias/item/4394-coutinho-carlos-viegas-gago-1869-1958, acedido em 16.5.2014


-FARIA, Miguel Ferreira de - Marconi 75 anos de comunicações internacionais. Lisboa: Companhia Portuguesa Rádio Marconi, SA ; Printer Portuguesa, Ldª, 2000

-FONSECA, Moura da – As Comunicações navais e a TSF na Armada: sibsídios para a sua história (1900-1985). Lisboa: Edições Culturais da Marinha, 1988

-MARCONI, Guglielmo – Marconi em Portugal: Ciência e engenharia na génese das radiocomunicações in  http://www.ordemengenheiros.pt/pt/centro-de-informacao/dossiers/historias-da-engenharia/marconi-em-portugal-ciencia-e-engenharia-na-genese-das-radiocomunicacoes/, acedido em 16.5.2014

-MATOS, Artur Teodoro de – Transportes e Comunicações em Portugal, Açores e Madeira: 1750-1850. Ponta Delgada: Universidade dos Açores, 1980

-RDP Internacional in http://pt.wikipedia.org/wiki/RDP_Internacional, acedido em 16.5.2014

-ROLO, Maria Fernanda – História das telecomunicações em Portugal: da Direcção Geral dos Telégrafos do Reino à Portugal Telecom. Lisboa: Fundação Portugal Telecom, 2009

-RTP 75 Anos Rádio Pública Portuguesa in  http://www.rtp.pt/wportal/sites/radio/75anos/historia.php; acedido em 16.5.2014

-UIT - Union Internationale des Télécomunications. Du Sémaphore au Satellite. Geneve: UIT, 1965

sábado, 26 de abril de 2014

08 A Comunicação pela Arte - O Caso de Olinda e Malangatana

Nota prévia: O presente artigo foi, outrora, publicado no post (1) agora adaptado na ótica da arte e comunicações.

Benedictus dominus Deus noster qui dedit nobis Signum [Bendito seja Deus Nosso Senhor que nos deu (ou dedicou) o Sinal (Signo, Filho, Verbo,  O Comunicador)] (2).

Consideramos que a arte é essencialmente uma forma de comunicar, o que o criador sente e expressa, a um público que observa e interpreta. Enquanto veiculo de expressão e comunicação, a arte está relacionada com conhecimentos e saberes. A interpretação de uma obra de arte varia de acordo com as ferramentas com que a deciframos. Recorde-se que o termo decifrar deriva de cifra (oculto/secreto), assim o verbo transitivo decifrar significa descobrir, tornar compreensível. É isso que as exposições de arte têm ou deverão ter como objetivo, para lá do deleite.

O exemplo de Olinda Gil e de um dos seus inspiradores, Malangatana: Olinda Gil é leão de signo. A costela beirã de nascença (Covilhã) dá-lhe o sentido da luta (3). Aos 5 anos, Olinda vai para África. As terras de Nacala, ao norte de Moçambique, acabam por moldar-lhe o carácter.

A informalidade e a descontracção de influência africana são marcas, a par da sensibilidade para as artes que colhe junto da galeria de que seu pai é proprietário, em Moçambique. Uma galeria de arte, neste ponto do hemisfério, tem de apostar nos recursos locais, isto é, nos artistas nativos e naqueles que são capazes de captar a alma do povo e do território.

O carácter herdado na infância e juventude no seio da família e no meio social são essenciais para a absorção de conhecimentos que Olinda manifesta, quer na sua pena, quer na tela e pincel.

A meu ver não podemos dissociar Olinda de Malangatana (conhecidos e amigos) a começar pela Terra comum (Moçambique) que lhes serviu de berço e de vivência. Em ambos há a prevalência das representações humanas colectivas e uma cultura baseada na religiosidade do mundo judaico-cristão. Malangatana com uma prática muito desenvolvida e uma grande dedicação à pintura consegue quadros com uma carga muito densa e com semelhanças a um Picasso, passando pela estilização e formas distorcidas propositadamente. 

As cores são quentes, quer no distinto Malangatana, quer em Olinda. Apostam nos vermelhos simbolizadores de vida e energia. A religiosidade e o simbolismo são presença frequente em ambos. Em Olinda há vários elementos da cultura judaico-cristã na virgem e nos santos e até em vários quadros com a presença da serpente. Porém, a serpente em Olinda não é um animal que rasteja mas sim um elemento decorativo, simbólico, tal como é apresentado na Farmacologia e na Medicina.

A formação em História e Ciências Sociais dão a Olinda uma recorrência a temáticas que transcendem a arte pela arte e a contemporaneidade. Entre os vários quadros de Olinda escolhemos, quase ao acaso: “Homenagem a Malangatana”. Neste quadro Olinda representa o elemento social com rostos coloridos e olhos frequentemente amendoados que dão uma sensação de tranquilidade e beleza. 

Em “Oasis”. Uma pintura quase minimalista em que apresenta o essencial com cores onde se sente o fogo da vida e a água que refresca. O natural, o ideal e a evasão ao bulício da vida urbana estão ali presentes.

Em “Peixes”. Temos novamente a vivacidade da paleta de cores quentes mas também as refrescantes e de sonho no avermelhado, azul, verde e rosa. É de notar que o peixe é um dos símbolos cristãos. A água, fonte de vida, está habitada por peixes que se cruzam pacificamente, cada um em seu próprio percurso, delimitado por linhas onduladas.

Na “Virgem das Borboletas”. A autora manifesta uma simbiose entre a natureza representada pelas borboletas e o fundo cheio de flores, com a santidade (virgem com o menino). O vestido decorado com desenhos de faixas geométricas, atiram para uma influência da pintura das sociedades da pré e pro-história. O conjunto pictórico central encontra-se protegido de influências exteriores. Há como que uma redoma a dividir o desenho temático do ambiente exterior.

Em “The Seagull Princess”. Olinda representa mais uma vez um mundo ideal em que no centro figura uma princesa praticamente desnuda. Um palácio, árvores, pássaros e uma mão aberta, que se aproxima duma ave, complementam o sonho.

É de notar a criatividade e a intensa atividade da nossa amiga bloguista no blogue “Sol” (4). É de “invejar” a sua capacidade de realização entre a sua vida profissional, doméstica, artística e difusora de conhecimentos nos “blogues”, no “Facebook” e, quiçá, na sua vida social quotidiana.


(2) in  Mensagem / Fernando Pessoa. Lisboa: Editorial Império; Livraria do Dr. Pedro de Moura e Sá, 1934, p.7

(3)Tal como diziam Arnold Toynbee (Inglaterra, 1889-1975) e Fernand Braudel (França, 1902-1985) citados frequentemente por João Evangelista (não o santo mas um professor que tive em Geo-História) a serra dá ao ser humano pernas e um sistema respiratório musculados para que consigam fazer face aos desafios e aos desníveis orográficos que permanentemente têm que vencer.

(4) Endereço do blogue de Olinda Gil in http://comunidade.sol.pt/blogs/OlindaGil/default.aspx, acedido em 26.4.2014

Outras e fontes:

Anciães, Alfredo. Disponível em  http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/default.aspx, acedido em 26.4.2014

Galeria de Arte e Signos; Pérola de Cultura / Olinda Gil, disponível em:



Introdução Geral à Filosofia da Arte / Evaldo Pauli, disponível em:


O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico / Fernand Braudel, disponível em:

Teorias da Comunicações / Mauro Wolf. Lisboa: Editorial Presença, 1987  

Um estudo de História / Arnold Toynbee, disponível em:


Para mais fotos da Olinda consultar sua página do facebook: http://www.facebook.com/linda.girassol

quarta-feira, 26 de março de 2014

06 MUSEU DE COMUNICAÇÕES: RELAÇÃO COM AS NOVAS MUSEOLOGIAS

O desejo comum, outrora manifestado, da ANA, ANACOM, CTT, DN, FPC, Lusa, PT, RDP - Radiodifusão Portuguesa, RTP - Rádio e Televisão de Portugal no sentido de reunirem patrimónios museológicos - poderá ainda ser concretizado. Para este desiderato conviria assumir, não só os valores empresariais mas também uma atitude de valores de museologia com alma e afeto (1).

Um museu da área das comunicações transmite, não apenas os testemunhos físicos (ex. telégrafo, telegrama, telefone, telex, central, rádio, televisor, satélite ..., marco de correio, carruagem, divisor, carteiro, carta, selo, poema, ...) mas também os sinais, símbolos, códigos, estilos e teorias da comunicação, de modo a facilitar o entendimento humano que vai muito para lá da oralidade e da escrita comum.

Os públicos em minoria: surdos, surdos-mudos, cidadãos com deficiências motoras e invisuais deverão ter formas adequadas de atendimento e de interpretação museológica.

Os patrimónios históricos de correios e telecomunicações tiveram um marco inicial de salvaguarda e preservação em 1878 com a criação do Museu Postal e Biblioteca; contudo, só na segunda metade dos anos 90 (séc. XX) e primeiros seis anos do séc. XXI foram incorporados no inventário dois terços de todas as peças do acervo de telecomunicações.

Esta riqueza patrimonial, em quantidade e qualidade, envolve agora ainda mais esforços de preservação, documentação, divulgação e exposição. Entretanto, mudou a relação de propriedade das peças. Antes as peças eram maioritariamente pertença do Estado ou de Empresas Públicas, atualmente são maioritariamente pertença de Empresas, S.A.; daí o consideramos útil e urgente:

A) Reorganizar os patrimónios e sua gestão, de modo a desenvolver uma missão e objetivos relativos a um Museu Nacional das Comunicações e Transportes onde teriam papel relevante os atuais fundadores e proprietários: ANACOM, CTT, PT, FPC – Fundação Portuguesa das Comunicações em Associação com a Rede Portuguesa de Museus. Deveriam também estar presentes: O Ministério das Obras Públicas Transportes e Comunicações e o Ministério da Defesa Nacional de modo a assegurar a participação dos patrimónios a cargo da Direção Geral de Faróis (outrora integrados no setor postal e de telecomunicações). Eventualmente poderiam entrar outras entidades ligadas aos patrimónios em referência.

B) Acautelar/preservar os acervos, classificando as peças mais significativas: inventadas, inovadas, fabricadas, editadas e as que tiveram o seu curso marcante de vida em Portugal e nos espaços da lusofonia. As peças únicas ou raras, embora inventadas e construídas no exterior poderiam também ser classificadas, dependendo da sua relevância museológica nacional, regional ou local.

Dadas as mudanças políticas e económicas recentes, o acervo das comunicações e transportes é um dos que carece  salvaguarda especial. O simples registo de inventário, só por si, não garante proteção suficiente para um futuro incerto de proprietários de bens culturais. Estão em causa essencialmente bens informativos, de ciência e técnica, de reconstituição de memórias e de identidades, mais do que peças decorativas, como se de bibelots ou peças de redoma se tratasse.

  1. cf. Chagas; Delambre; Moutinho in Museologia do Afeto – MINOM 2013.

Para uma proposta de salvaguarda, preservação, valorização e classificação de patrimónios em benefício das populações sugerimos uma leitura dos seguintes documentos:


-Lei de Bases do património Cultural Português in




Posted: segunda-feira, 24 de Março de 2014 1:49 por AlfredoRamosAnciaes Editar

segunda-feira, 17 de março de 2014

ESTÓRIAS DA MINHA ALDEIA in memoriam

                   
Soubemos da recente “despedida” do José David, falecido em França, através do blogue “Os Ceireiros” http://ceireiros.blogspot.pt/.
O José nasceu pelos finais da 2ª guerra mundial. Portugal não entrara no teatro de guerra e dela até beneficiara, durante certo tempo. Quando, porém, a venda do volfrâmio foi interrompida, a miséria acentuou-se nas terras beiraltinas.
O avô paterno do José (marido da Srª Cacilda Eiras) havia falecido prematuramente numa fatídica noite ao regressar da festa da Senhora da Cabeça. A família sentiu sérios reveses, uma vez que partira inesperadamente o ganha-pão. Filhos e netos foram afetados. O José David, ainda menor de idade, teve que migrar, aproveitando trabalhos sazonais em Portugal e, logo que pôde, em meados dos anos 60 emigrou para França, onde viveu e acabaria por falecer.
Amante da aldeia e do concelho, o José não faltava às festas. Via-se, muitas vezes, com um foguete na mão. Um dia interpelei-o dizendo-lhe que podia rebentar-lhe nas mãos e causar-lhe danos e a quem estivesse por perto. Começou a rir-se, sem nada dizer, até que o António da Zefa ali presente me sossegou dizendo que o engenho, aparentemente novo e intacto, estava destituído de qualquer material explosivo, pois o mesmo havia sido extraído sem que nada se notasse.  
Quando fui mordomo da festa, a banda de música deu a primeira volta ao povo de manhã cedo, como é habitual. Ao chegar ao pé da igreja, em vez de contornar pela porta principal e Adro de Cima (também denominado Largo Pe. Donaciano Lages), atalhou pelo lado do Evangelho. O José protestou e acho que não reagiu de forma mais brusca pelo respeito mútuo que entre nós havia mas, mesmo assim, indignou-se publicamente. Garanti-lhe que o procedimento não voltava a acontecer. Os mordomos e a banda ficaram avisados de que a volta era mesmo contornando a igreja passando em frente do Santíssimo.
Lembro-me de jogar à bola com o José no velho quintal da Don`Ana, quando ali se realizavam os jogos de treino e brincadeiras. Recordo também um outro episódio: Na altura da juventude falava-se em jogos, namoricos, festas, música, estórias e lendas. Constava que para lá do Covêlo havia uma moira encantada que durante a noite se passeava por cima de uma grande pedra quase paralelepípeda (produto da natureza? chamada arca da moira) onde estendia os seus haveres, os quais desapareciam antes do nascer do sol. Ninguém se atrevia a ir aquelas bandas noite dentro.
Contada a estória, houve precisamente quem se dispusesse a ir à arca da moira à meia-noite certa. Na altura não havia luz elétrica. A iluminação fazia-se com candeias e candeeiros a petróleo e velas de cera.
Organizou-se um grupo de voluntários para ir à arca e às galerias subterrâneas onde a moira vivia. O grupo de curiosos contava com vários elementos: Entre eles destacava-se o José David pela sua maior experiência de vida e o Neca, o único que estudara no secundário, e que se dispôs a fazer uso dos conhecimentos, inclusivamente de química para entrar nas galerias.
Levou-se um engenho, constituído por uma vara, que segurava uma vela acesa. O objetivo era, não só alumiar mas, indicar se havia ou não atmosfera respirável. Para que ninguém se perdesse, o avanço foi feito em fila indiana, até chegar a um ponto em que a entrada se encontrava praticamente obstruída. Alguém disse que a moira tinha tapado de propósito o acesso à parte principal da morada, impedindo assim os curiosos de invadir o espaço reservado. No momento foi impossível avançar por falta de ferramenta. Era preciso voltar devidamente equipado com enxadas, ferros e picaretas.
Entretanto a emigração começou a subtrair os mais corajosos. Até hoje parece que ninguém conseguiu visitar o lugar onde se encontram os valiosos tesouros.
O Zé David e o Neca gostariam, certamente, que alguém continuasse a decifrar o enigma da arca da moira (1).
Que Deus os tenha em Bom lugar.
  1. Em prol do desenvolvimento cultural da região seria de bom tom entregar a prospeção a uma equipa de arqueólogos credenciados. O espólio encontrado e a informação respetiva reverteriam para o museu local.

domingo, 2 de março de 2014

07 DO MAR QUE SEPARA AO MAR QUE UNE

              
07 DO MAR QUE SEPARA AO MAR QUE UNE
 

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quiz que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse [...]” (1)
 

        O poeta da Mensagem interpreta a história de Portugal evocando a relação com o mar. Esta mnemónica (Mensagem),  auxiliar da memória, tornada título de uma das melhores obras primas de Fernando Pessoa sobre a portugalidade, revela que também as telecomunicações se inspiram na informação breve / telegráfica para comunicar o essencial.

         Cerca de 1845 uma goma chamada guta-percha, extraída de árvores da Malásia veio permitir o eficaz isolamento dos cabos telegráficos em meios aquáticos. Doravante foi possível estender cabos pelos oceanos e transmitir mensagens velozes, quase instantâneas, quando dantes levariam meses, tal como aconteceu com a célebre Carta de Pero Vaz de Caminha, enviada a D. Manuel I, sobre o achamento do Brasil e as primeiras relações entre os povos europeus (portugueses) e ameríndios.

           Por volta de 1930 já havia no mundo, cerca de um milhão de quilómetros de cabos: subaquáticos (submarinos /subfluviais) e terrestres; para lá de uma extensa rede de postes, isoladores de porcelana e fios nús, vencendo geografias, constituindo uma rede praticamente global antes da www.

          Em 1855, com a regeneração económica e política é inaugurada a telegrafia eléctrica em Portugal com equipamento baseado em aparelhos com caracteres alfanuméricos  sem necessidade de código. Tratava-se de um meio inovador, até pela facilidade de transmissão e receção. Qualquer oficial do corpo telegráfico, sem ciência especial, conseguia operar mensagens através de equipamento constituído por: uma mesa; um transmissor com caracteres alfanuméricos e pontuação; um recetor com o mesmo tipo de carateres, parecido a um relógio de parede; uma bússula; um pára-raios e um vaso de pilha voltaica.   

          Este tipo de telegrafia foi inaugurado em Portugal pelo então jovem rei D. Pedro V, no preciso dia que fez 16 anos de idade e assumiu o trono (16.9.1855). À frente do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria estava o ministro e conselheiro de sua majestade e de Estado, António Maria Fontes Pereira de Melo.

          Uma pequena rede relacionada com o poder e a alta administração iniciou a telegrafia elétrica: Terreiro do Paço (nome oficial, Praça do Comércio), Cortes (atual Assembleia da República), Necessidades (atual palácio dos Negócios Estrangeiros) e Sintra (palácio da Vila). Em seguida e quase num ápice, tendo em conta as tecnologias da altura, foram construídas as linhas telegráficas entre Lisboa, Santarém, Coimbra, Porto; Lisboa/ Elvas. Também de  uma forma muito veloz, o país passou a dispor de um segundo sistema de transmissão e receção, baseado no código de Samuel Morse.

          Porquê mais um novo sistema de transmissão se já tinhamos o inicial, francês, da família Bréguet? A explicação deve-se, entre outras, à eficiência dos aparelhos morse. De construção mais económica e  permitindo o registo automático dos sinais em fita de papel, ou a receção auditiva, enquanto nos equipamentos franceses de Bréguet o telegrafista na receção tinha que copiar as mensagens manualmente letra a letra, ponto a ponto, à medida que um ponteiro assinalava os carateres num mostrador.

          Entretanto, em 1856, é lançado o primeiro cabo telegráfico subfluvial que saía de Lisboa, via Ria de Samora e Alcochete. Daqui até Elvas seguia pelos postes de fios aéreos.

Data ainda deste ano de 1856 a inauguração da primeira fase do caminho-de-ferro, entre Lisboa e o Carregado. A telegrafia eléctrica acompanhou as linhas e os serviços do novo meio de transporte movido a carvão.

          O Instituto Industrial de Lisboa (precursor do Instituto Superior Técnico) teve a sua sede na Rua deste nome, situada entre o cais do Sodré e Santos. Aqui funcionou a formação para as comunicações telegráficas na Rua do Instituto Industrial / esquina com a Rua de D. Luís I, onde  se localiza desde 1997 a Fundação Portuguesa das Comunicações e o Museu. Caso para dizer, o “bom filho à casa torna”. Foi por aqui que teve início o curso para telegrafistas de 1856/1857 com um programa que incluía diversas matérias, entre elas a manutenção de equipamentos, aprendizagem de códigos alfanuméricos e a operação com o sistema  morse. A utilização deste código manteve-se em ascensão até aos anos 30 do século XX, altura em que as tecnologias proporcionaram novamente a transmissão com equipamentos sem necessidade de código.

          O telex com grande notoriedade quase leva à extinsão das transmissões em morse, a partir dos anos 1940`s. Porém, o velho código resistiu nas transmissões militares, acabando mesmo por perdurar para lá da telegrafia inovadora com teleimpressores (vulgo telex) muito em voga na segunda metade do século XX.

          Do primeiro cabo telegráfico subfluvial, instalado em 1856, nada parece restar; nem o cabo, nem as marcas toponímicas e edifícios de amarração entre Lisboa, Samora e Alcochete. Estas marcas seriam uma mais-valia para os sítios e localidades; todavia a urbanização sem critério, eliminou sem dó nem piedade marcas que tornariam mais atrativas e compreensivas as atividades humanas.

          Em 1857 com pouco mais de um ano de vida da telegrafia elétrica, Portugal assina com Espanha uma Convenção Telegráfica, abrindo-se a outros países.  A interligação fez-se então, unindo Lisboa, Elvas,  Badajoz, Madrid, alargando-se progressivamente à Europa e à Ásia.  

Via marítima

          Esta via foi, mais uma vez, essencial para as comunicações a longas distâncias. Portugal inicia-se nas transmissões por cabo submarino a partir de 1870, através da estação de cabos de Carcavelos para Inglaterra e Gibraltar, permitindo a conexão com a Europa Ocidental, Estados Unidos da América, Índia e China; seguindo-se a ligação com a Madeira, Cabo Verde e Brasil nos anos seguintes e já na década de 80 estabelece-se a ligação com o Senegal, Angola e África do Sul.

          Nos anos 90 (1893) entra em funcionamento a Estação da Horta-Faial-Açores um importante nó e relé de comunicações, chegando a albergar em 1928 quinze cabos com ligação a Carcavelos, Inglaterra, Alemanha, EUA, Canadá, Irlanda, França, Itália e Cabo Verde.

          Na Horta chegaram a viver e trabalhar várias nacionalidades nas operações telegráficas e na manutenção de equipamentos, entre ingleses/escoceses, alemães, canadianos, irlandeses, americanos e portugueses do Faial e Cabo Verde. Este importante nó da Horta só viria a encerrar completamente em 1969, sendo das últimas empresas ali envolvidas, a Cable & Wireless e a Comercial Cable Company, devido às inovações das tecnologias do século XX com mais capacidades, atingindo maiores distâncias, sem necessidades de relés de Estações, e mais facilitadas, dispensando o uso de códigos.

          Desta época de ouro para a ilha do Faial ficaram saudades nas populações; houve interinfluências no  desporto, na cultura e nas convivências entre as várias nacionalidades presentes na Horta das transmissões submarinas.  

          O Grupo de Amigos da Horta dos Cabos Submarinos com o Museu da Horta estão a  trabalhar no sentido de ativarem um museu temático dos cabos e tecnologias afins, com os espólios imateriais e materiais recuperados; nomeadamente equipamentos técnicos, arquitetura de instalação das  tecnologias, escritório de tratamento de telegramas e informação de gestão, habitações do pessoal, informação toponímica, sinalética e expressões culturais.

         A cooperação deste futuro museu local e regional (que se será designado Museu da Horta dos Cabos Submarinos?) com o Museu das Comunicações reestruturado em Museu Regional e Nacional das Comunicações permitirá uma nova dimensão, uma mais-valia e abrangência que só poderá enriquecer o País no seu todo. Deste sonhar nascerão novos mares comunicacionais que unirão Portugal, sua diáspora e família global.

 

 

------------- (1) Extrato do poema de Fernando Pessoa em Mensagem. Lisboa: Livraria do Dr. Pedro de Moura e Sá, 1984. Versos dedicados ao Infante D. Henrique que ousara a globalização, através das rotas marítimas.
Fontes:

- Anciães, Alfredo Ramos - Património museológico de telecomunicações: criação e gestão em contexto. in Revista Códice, nº 5, Ano XI, II Série, 2008, p. 52-67;

- Id - Telegrafia eléctrica. in Revista Códice, nº 2, Ano VIII, II Série, 2005, p. 80-95;

- Id - Cento e cinquenta anos da telegrafia eléctrica em Portugal – Dossier de Exposição, Fundação Portuguesa das Comunicações. Lisboa, 2005
- Museu da Horta; Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta - O Porto da Horta na História do Atlântico: O Tempo dos Cabos Submarinos – Ed. do A. Museu da Horta; Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta. Impressão: Gráfica O Telégrafo. Criação Gráfica: JCS/Açores. Horta, 2011


- Pessoa, Fernando – Mensagem. Lisboa: Livraria do Dr. Pedro de Moura e Sá, 1984

- Varão, Isabel - Os cabos submarinos e a expansão da telegrafia internacional no século XIX. in Revista Códice, nº 2, I Série, 1998, p. 58-62

domingo, 16 de fevereiro de 2014

04 MUSEU DE COMUNICAÇÕES: RELAÇÃO COM O TURISMO ECONOMIA IDENTIDADE E MUSEOLOGIA

 

          “Nem a aridez da Ciência Antropológica, nem as flores da Literatura. O [...] objectivo é diferente: É de uma natureza mais positiva; tende a facilitar a comunicação entre os povos e a transportar o pensamento escrito de um canto do Mundo ao outro” (extrato traduzido do francês proferido pelo rei D. Luís no Congresso da União Postal Universal, reunido em Lisboa no dia 11 de fevereiro de 1885)
 

          Nota prévia: Não temos indicação de que os patrimónios  de  correios, telecomunicações e filatelia estejam a ser geridos com falta de zelo. No entanto convém acautelar sobre os eventuais perigos que ligam estes acervos a privatizações.
 

          O conhecimento que nos chega informalmente de Inglaterra, em situações semelhantes, deixa-nos apreensivos.  Estão em causa peças dos CTT e PT e a breve trecho poderá ser a vez da TAP, RTP (Rádio e Televisão). Deixamos aqui um alerta sobre as incertezas em relação ao espólio museológico e documental e, simultaneamente, indicamos vantagens em preservar e gerir estes valores num museu nacional.

          Portugal tem patrimónios que refletem o quanto interagimos com outros povos, desde o século XV. As memórias dão-nos alma, identidade e possibilidade de realizar valor económico, tratando estes acervos como recursos. Estamos a pensar em patrimónios tangíveis e intangíveis dos CTT, PT, ANACOM e FPC - Fundação Portuguesa das Comunicações, entre outros da área das comunicações e dos transportes afins. Em termos históricos referimo-nos também aos acervos de telecomunicações das ex-empresas integradas na PT: TLP – Telefones de Lisboa e Porto, CPRM – Companhia Portuguesa Rádio Marconi e TDT – Teledifusora de Portugal (1). Estes acervos museológicos prevalecem à guarda na Fundação Portuguesa das Comunicações. 

          Sendo o turismo, uma das nossas atividades mais lucrativas, faz sentido criar um museu nacional das comunicações.  Além de peças originais poderá usar réplicas. Exemplo a “Carta de Pero Vaz de Caminha” sobre o descobrimento ou achamento do Brasil e os primeiros contactos com novas terras, populações e culturas. Faria sentido que esta Carta estivesse em exposição permanente, ou de longa duração, em contexto das comunicações, transportes e descobertas.

          O Museu das Comunicações, Museu dos Transportes e Comunicações, Museu Nacional da Imprensa, Museu do Cabo Submarino, Arquivo do Ultramar, Biblioteca Nacional de Portugal, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Embaixadas, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Museu de Marinha, Museu Maynense, Museu da Medicina - são alguns exemplos com preciosas peças de comunicação e descobertas que poderão alimentar exposições temporárias e de longo prazo num futuro museu nacional das comunicações transportes e descobertas e, enquanto isso não puder acontecer, que seja ativada uma rede de patrimónios afins.

          Recorrendo às novas museologias, podemos expor ideias e conceitos, materializar o imaterial ou o que já não existe, concebendo/construindo peças que visualizem, por exemplo, as primeiras trocas e comunicações de Portugal com vários povos do mundo. Estas relações constituem atos de comunicação; logo, é pertinente alargar o âmbito de ação para dar mais força e visibilidade às peças museológicas, atrair mais públicos e justificar investimentos.

          Será a oportunidade para Portugal ter o merecido, necessário e há muito aguardado museu com as temáticas da história, descobertas, encontros e relações com vários povos. Neste museu poderão participar, só para exemplo, nomes portugueses nossos conhecidos e revisitados, tais como:

- Cristiano Bramão (inovador na telegrafia e telefonia), Maximiliano Herrmann (inovador e construtor na telegrafia, telefonia, caminhos de ferro e eletrificação); Guilhermino Augusto de Barros (político e diretor da Direção Geral dos Correios Telégrafos e Faróis); Godofredo Ferreira (autor, compilador e organizador de documentação da história dos correios e telecomunicações); Gago Coutinho (cientista, inovador, cartógrafo, navegador e pioneiro na 1ª viagem aérea de Portugal ao Atlântico Sul); Sacadura Cabral (cartógrafo e aviador, colaborou na 1ª viagem aérea de Portugal ao Atlântico Sul);

- Mas também outros portugueses e do espaço lusófono que investigaram, descobriram, inventaram, organizaram, comunicaram e se destacaram, tais como:  

          - D. Dinis (rei poeta, impulsionador da marinha, letras e instituidor da língua portuguesa com que Portugal passou a comunicar oficialmente); Infante D. Henrique (o impulsionador das descobertas e comunicações com povos de além-mar); Vasco da Gama (pioneiro no Oriente por via marítima); Pedro Álvares Cabral (navegador, descobridor, iniciador das relações entre povos brasílicos e portugueses); Fernão de Magalhães (pioneiro na primeira viagem de circum-navegação);

          Fernão Vaz Dourado (na cartografia mundial); Garcia de Horta (nas descobertas e experimentalismo renascentista europeu); Marquês de Pombal (na ciência, educação, relações externas e expansão do Brasil); Luís de Camões (vida e obra); Afonso de Albuquerque (na Ásia, nos casamentos mistos, na vastidão do mar português e na diplomacia); Alexandre Rodrigues Ferreira (na ciência, comunicação e “viagem filosófica” ao interior do Brasil);

          Domingos Vandelli (italiano que fez de Portugal a sua segunda Pátria, colaborou na ciência e no ensino); frei José Mayne (na ciência, religião, filosofia e ensino); frei Manuel do Cenáculo (na “biblioteca nacional”, ciência, arqueologia e defesa do património); António Raposo Tavares (“último grande bandeirante”,  o conhecimento e a expansão do Brasil); D. Pedro IV de Portugal e I Imperador do Brasil (proporcionou a continuação das relações/comunicações e a lusofonia); Fernando Pessoa (vida e obra, especialmente o contributo para a cultura da língua portuguesa); Aristides de Sousa Mendes (direitos humanos, comunicação, diplomacia e cidadania), Egas Moniz (comunicações e desenvolvimento da medicina neurológica), Rómulo Vasco da Gama de Carvalho (2) .... ;

          Mais recentemente Eusébio da Silva Ferreira e Cristiano Ronaldo, ambos fenómenos da cultura moderna – o futebol que implica a comunicação de massas e entre vários povos do mundo.

Acreditamos que a cooperação de museus, núcleos, arquivos e bibliotecas com o Museu das Comunicações reorganizado (3) em Museu Nacional, ou nele colaborante, será uma mais valia para a imagem e a economia de Portugal.

 

Notas:
(1) Teledifusora de Portugal. Organização anteriormente gerida pela RTP para a difusão do sinal de televisão. Transitou há pouco mais de uma década para a PT.
(2) Rómulo de Carvalho (conhecido pelo pseudónimo António Gedeão) organizou o Museu Maynense da Academia de Ciências de Lisboa e sintetizou, no seu poema “Pedra Filosofal”, a ciência, técnica, arte, descobrimento(s), viagem e comunicação.
(3) Um velho e experiente gestor de patrimónios de interesse público dizia que “Os Museus renovam-se, transformam-se e modernizam-se ao serviço das suas coleções e do público que servem” (Les Musées se renovent, se transforment, se modernisent au servisse de leurs colections, au servisse du public qu`ils tentent de séduire” – Landais, HubertDirecteur des Musées de France in Faire un Musée: Comment Conduire une Operation Museographique? – Paris: La Documentation Française, 1986