Palavras chave: Aquilino Ribeiro;
Arquitetura românica; Castelos da Beira; Correio antigo; Frei Roque do Soveral;
João Rodrigues “Tçuzu”; Magriço; Marialva; Marquês de Pombal; Moimenta da Beira,
Penedono; Sernancelhe; Telegrafia heliográfica; Trancoso.
sábado, 19 de outubro de 2013
Marcas na Beiraltíssima: Terras do Demo e de Magriço - Preparação de Visita
Objetivos: Conhecer patrimónios, de forma a que possamos
fruí-los e retransmitir a informação aos nossos familiares e amigos. Porventura
já todos vimos, algures na televisão, ou ouvimos falar do património em
referência, mas isso não resultou em verdadeiro acumular de saber, talvez
devido à velocidade com que nos passaram as imagens e as palavras.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
TERRAS DO DOURO SUL E BEIRAS NO SEU ALVOR
(por Alfredo Ramos Anciães - Sintra, outubro 2013)
Tinham à
frente da sua administração e defesa um elemento da nobreza, apoiado por uma guarnição
de homens e uma fortificação, geralmente um castelo.
No tempo do império
romano já havia a ligação de Roma com as populações do Douro e Beiras que
viviam em torno dos antigos castros, reconstruídos e/ou transformados em: «… nos otros castellos id est
Trancoso [concelho do distrito da Guarda], Moraria [Moreira de Rei do atual concelho de Trancoso], Longobria [ou Longobriga, o mesmo que Longroiva] Senorozelli [atual conselho de Sernancelhe]; Nauman [Numão], Muxagata [assim ainda designada] e Almindula [atual Almendra
- aldeias do atual concelho de Vila Nova
de Foz Côa]; Alcobria [atual aldeia de
Alcarva que fez parte do concelho de Penedono e mudou para o concelho da Meda]; Caria [do atual concelho de Moimenta da
Beira], cum alias penellas [pequenas
penhas/elevações, outeiros e/ou pequenas fortificações] et populaturas [povoações com afinidades de vida]…» (cf. BARROCA,
Mário Jorge, ed. cit.)
Uma nova fase foi inaugurada em 868 com a presúria do Porto pelo conde
Vímara Peres. Antes da nacionalidade portuguesa, a defesa apoiava-se em castelos
roqueiros, entre eles a Civitas de Anegia,
também designada Cividade de Eja, junto a Entre-os-Rios, concelho de Penafiel. Sobranceiro
a Entre-os-Rios encontra-se ainda uma capela dedicada a Nossa Senhora da
Cividade, sendo que a designação de “Cividade” parece basear-se no modelo de organização do poder condal que precedeu a
designação de Terras (b).
Fernando o Magno (1016
— 1065 rei de Leão (1037-1065),
conde de Castela
(1035-1065),
reconquistou muitas terras no Douro e Beiras. Os primitivos castelos sofreram obras de ampliação e
reconstrução, sendo em muitos casos impossível discernir as marcas
arquiteturais em causa.
Estas posses dão-se no
seguimento da Reconquista mas os titulares de terras mudaram conforme os fluxos
de avanço e recuo, ante a mourama, acabando as Terras reconquistadas por ser entregues, pelos “presores” Godos ou
neo-Godos e pelos primeiros reis (c), aos que mais se destacaram em valentia,
serviços, lealdades e amizades.
Os castelos românicos e/ou
fortificações dos atuais concelhos de Lamego, Moimenta da Beira, Sernancelhe,
Penedono, Trancoso, Meda, Vila Nova de Foz Côa ..., cairam em poder de Almansor
nos finais do século X e reingressaram à posse de cristãos conforme os avanços
da Reconquista.
D. Flâmula fica, assim, senhora de muitas Terras do Douro Sul e Beiras
até que os cavaleiros integrados nas cruzadas, ao tempo do conde d. Henrique e
d. Afonso Henriques vêm, reocupar, reconquistar e redistribuir propriedades
fundiárias e construções fortificadas.
-------------
(a) Civitates (do latim) subdivisões de um conventus, sendo o conventus
um distrito jurídico-administrativo no tempo do Império Romano. Exemplo: Conventus Bracarum (Braga) que por sua
vez pertencia à Província Tarraconensis [Município
no sul da Catalunha - Espanha]; Conventus Scalabitanus
(Scallabis/Santarém) da Província Lustitânia e Conventus Pacencis (Paz Julia/Beja), também da antiga Lusitânia.
(b) Hoje em dia a denominação de
Terras alargou-se com base nas caraterísticas
económicas, culturais e históricas, tal como: “Terras do Demo, Terras de Lafões, Terras da Beira, Terras de Sicó,
Terras de Xisto …”.
(c)
“Já quando Afonso
III das Astúrias conquistou Lamego aos Mouros, começou o Povoamento do Douro
com a assenhoramento de Terras pelos «presores Godos». «E os que assim entravam
à posse, ficavam senhores absolutos de tudo o que à força das armas haviam
tomado» escreve Santa Rosa Viterbo no seu elucidário. Estes «presores» criaram
vilas rurais, vilares e casais que deles receberam os nomes, como Leomil,
Baldos, Alvite, Toitam, Mileu, Segões, Sever e Ariz”, atualmente fazendo parte
do concelho de Moimenta da Beira / Terras do Demo. Cf. História do Município de
Moimenta da Beira / Terras do Demo, ed. cit.
Fontes:
- A Romanização
da Península Iberica in
http://www.slideboom.com/presentations/30190/A-A ROMANIZA%C3%87%C3%83O-DA-PEN%C3%8DNSULA-IB%C3%89RICA, acedido em 4.10.2013.
- Caria e
Moimenta da Beira in http://www.freguesias.pt/portal/apresentacao_freguesia.php?cod=180710, acedido em 4.10.2013.
- Castanhas da
Beiraltíssima e Património Envolvente / Alfredo Ramos Anciães in http://cumpriraterra.blogspot.pt/2012/10/castanhas-da-beiraltissima-e-outro.html, acedido em 4.10.2013.
- Id. in http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2012/10/28/CASTANHAS-DA-BEIRALT_CD00_SSIMA-E-OUTRO-PATRIM_D300_NIO.aspx, acedido em 4.10.2013.
-
“Do Castelo da Reconquista ao Castelo Românico” / Mário Jorge Barroca in http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3803.pdf, acedido em 26.12.2012.
- História do Município de Moimenta da Beira / Terras
do Demo in http://cmmoimenta.dev.wiremaze.com/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=27703, acedido em 7.10.2013.
- Fortificação e
Povoamento no Norte de Portugal (Séc. IX e X) / Mário Jorge Barroca in http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3886.pdf, acedido em 4.10.2013.
sábado, 21 de setembro de 2013
CARNIDE EM FESTA
No mês de
setembro decorrem as solenidades, festa e feira de Nossa Senhora da Luz. Durante
quase um mês há barraquinhas com farturas, petiscos, artesanato e peças
utilitárias para casa e jardim. Para lá destes atrativos há, para o aconchego
do corpo e da alma, cerca de 20 restaurantes na zona histórica e proximidades.
Para
deleite do espírito e do conhecimento, Carnide tem cerca de 40 bens
classificados ou em vias de classificação de interesse municipal, para lá da
Igreja de Nossa Senhora da Luz e das marcas da sepultura da infanta d. Maria
(bens de interesse nacional).
Esta
infanta e 6ª duquesa de Viseu, filha de d. Manuel I, foi considerada a mais bela da Europa de então (Séc.XVI/XVII). Camões cantou a paixão e as desilusões do amor platónico com a infanta em sonetos
e redondilhas. A história amorosa liga-se, pois, a Carnide, onde d. Maria repousa. O poeta dos
Lusíadas terá frequentado Carnide para, à distância, apreciar a beleza do amor proibido quando d. Maria vinha verificar as obras da Luz.
Descendo ao Metropolitano e envolvência, as
duas Estações oferecem-nos a beleza de centenas de expressões plásticas de
José de Guimarães (Estação de "Carnide") e Manuel Cargaleiro (Estação do "Colégio Militar/Luz"). As temáticas são, grosso-modo, relacionadas com a "carne, tentação, luz" e cultura.
Quem quiser adquirir
e enviar, por via postal, uma lembrança para memória, encontrará em Carnide a Estação
Postal do Colombo (no Centro Comercial) e os Postos de Correio: um no Bairro da
Quinta da Luz, outro na Rua da Fonte/Largo da Praça e outro ainda no Centro Cultural de Carnide,
Bairro Padre Cruz.
A história de Carnide/Luz, inspira-nos
os dois versículos seguintes do profeta Isaías: “[…]
Se tirares da tua casa toda
a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo; Se deres pão ao faminto, e
saciares a alma do pobre, a tua LUZ
brilhará na escuridão, e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio-dia” [As
capitais em LUZ são nossas]. (Isaías 58, 9-10).
No escudo do brasão de Carnide encontra-se a flor-de-lis e uma cântara, dois pimenteiros e uma barretina que caracterizam as raízes históricas da freguesia, outrora termo rural de Lisboa, localidade de culto ao Espírito Santo e Nossa Senhora da Luz, hospital para peregrinos e carenciados, feira, quartel, colégio militar, etc.
O mês de Setembro é o mais animado com a feira/festa. Pelo Natal e junho, as coletividades, escolas e junta de freguesia esmeram-se em atividades de decoração e animação nas marchas populares. Às quintas-feiras há o programa televisivo de entrada livre "viva a música" (antena 1) com a apresentação de Armando Carvalheda no Teatro/Largo da Luz.
Carnide continua a sua vocação de festa e animação.
domingo, 1 de setembro de 2013
PEDRO TEIXEIRA - O BANDEIRANTE
Hoje venho falar de Pedro Teixeira.
O nome é praticamente desconhecido, quer nos programas escolares, quer no senso comum ou histórico dos portugueses e quiçá, brasileiros. Contudo esta figura é das mais relevantes na estirpe dos heróis que fizeram o imenso Brasil. Felizmente, também, esta figura tem vindo a ser recuperada nos últimos tempos. "Vale mais tarde do que nunca", como diz a gíria popular.
(Estátua em Cantanhede no "Largo Pedro Teixeira").
Pedro Teixeira nasceu cerca de 1585 em Cantanhede e rumou ao Brasil em 1607, onde doou todo um esforço de mais de tinta anos da sua vida, tendo falecido no ano de 1641, pouco tempo após Portugal ter retomado a independência em relação à Corte dos Filipes de Espanha.
Pedro Teixeira não é o único nome sobre o qual devem repousar os louros do acréscimo de cerca de metade do imenso Brasil mas foi o principal organizador e o lider do desbravamento do rio Amazonas e regiões afins, nas quais fez reconhecimento e marcação do território em nome do Reino de Portugal, pese embora o facto de, na altura dessa exploração, Portugal estar sob o domínio dos Filipes.
Do Governador da Capitania do Maranhão, Jácome Raimundo de Noronha recebeu ordens e alguns meios que lhe permitiram completar a exploração Amazonas acima, até à cidade de Quito, capital do actual Equador. Com uma frota composta por cerca de 50 grandes canoas, setenta soldados e 1200 Índios com flechas. Índios estes que viram em Teixeira um lider recto, tendo cativado este povo com a sua personalidade e hospitalidade, sendo que ficou conhecido na comunidade como o «Homem Branco, Bom e Amigo».(Toponímica no Alto da Ajuda - Lisboa).
Como militar participou nas lutas contra os franceses, holandeses e ingleses que disputavam negócios e terras no Brasil. Recentemente, em finais de 2009, a sua figura foi homenageada no Senado brasileiro. Por esta altura Aloízio Mercadante, Senador brasileiro implementou "um movimento para resgatar a memória de Pedro Teixeira". A sessão de homenagem teve lugar em Brasília no Senado Federal para comemorar os 370 anos da expedição de Teixeira, o "desbravador" da Amazónia. Diz Mercadante, lider da bancada do PT que "A Pedro Teixeira se deve quase metade do território" do imenso Brasil.
(Associação e toponímica "Estrada de Pedro Teixeira" no Alto da Ajuda).
Além da comemoração dos 370 anos Mercadante liderou o Projecto Lei para que o nome de Pedro Teixeira venha a ser inscrito no chamado Livro de Aço residente no Panteão da Liberdade e Democracia em Brasília, bem como propõe a inclusão nos curriculos escolares. Sendo inconcebível esta lacuna no Brasil e também em Portugal, vale mais ser preenchida tarde do que nunca. Honra seja feita a Mercadante promotor da proposta, revelando-se um patriota que reconhece os heróis do seu país que proporcionaram um dos maiores países do mundo; que está em franco progresso e é dos mais respeitáveis, até por causa do valor da Amazónia no contexto mundial.
(Toponímica no Restelo - Lisboa).
Em relação a marcas distintivas de memória e existentes em Portugal referentes a Pedro Teixeira, temos conhecimento do "Casal Pedro Teixeira", situado na Rua de Nossa Senhora da Ajuda em Lisboa, lugar onde foram construídas as denominadas cozinhas D`El Rei. Não sabemos ao certo se este Casal fora propriedade do próprio Pedro Teixeira ou se em sua memória lhe deram este nome. Acrescente-se que as Cozinhas D`El Rei e Rua do mesmo nome se encontram em Ruas e terrenos contíguos ao "Casal e Estrada Pedro Teixeira" no Alto da Ajuda.
(Casal "Pedro Teixeira" no Alto da Ajuda).
Há ainda a "Rua Capitão-Mor / Pedro Teixeira / Conquistador do Amazonas / Século XVII" no Restelo. Para lá destes distintivos de memórias, em Lisboa; no município de Cantanhede encontra-se uma estátua de grandes dimensões (3,5x1,5x1,5 m) situada no Largo do mesmo nome (Largo Pedro Teixeira. Vide. imagem 1). Em Cantanhede encontra-se ainda uma escola com o nome "Escola Pedro Teixeira". A empresa de telecomunicações Portugal Telecom estabeleceu recentemente um protocolo em que irá premiar os melhores trabalhos sobre a vida e obra deste explorador. Os prémios serão dados aos melhores trabalhos, quer realizados em Portugal, quer no Brasil. Espera-se assim, que após estas publicações haja mais incentivos para Pedro Teixeira ser apreciado como uma das figuras mais relevantes da História dos países lusófonos. Que lhe seja feita a devida homenagem.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
- (a) Quanto às grandes chaminés do Casal Pedro Teixeira existem duas teorias: 1) Terão servido como fornos de cal para a cidade de Lisboa ou 2) como assistência a recepção de caça real, conforme consta em memórias de populações locais.
Cronologia da Construção do Brasil 1500-1889 / Orlando da Rocha Pinto. Lisboa: Livros Horizonte, Ldª, 1987
Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico", Vol III / Manuel Amaral ; João Romano Torres.- Ed. electrónica 2000-2009
O Último Bandeirante / Pedro Pinto. Lisboa: A Esfera dos Livros, 3ª ed., Abril 2009
http://www.arquenet.pt/dicionario/filipe2.html
http://www.brasilescola.com/biografia/august-de-saint-hilaire.htm
http://www.cm-cantanhede.pt/
http://www.decufcg.edu.br/biografias/AugustS.html
http://www.flickr.com/photos/vitor107/64589083/
http://sol.sapo.pt/blogs/jorgepaz/default.aspx
www.cantanhede.ma.gov/br/2009/index.php
www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=245827
www.independentedecantanhede.com/
www.pai/pt/Cantanhede/Escolas.html
Pesquisa oral in situ entre as populações locais em Dezembro 2009 e Janeiro 2010.
Foto 1 gentileza de http://www.flickr.com/photos/vitor107/64589083/
Restantes fotos do A. do blogue.
Ficheiros Internet acedidos entre Dez. 2009 e Jan 2010.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
HÁ LUZ EM CARNIDE: LOCALIZAÇÃO. DIMENSÃO RURAL
Situada
a norte e noroeste da Capital, Carnide teve uma longa tradição rural, desde os
primórdios como termo de Lisboa, havendo documentação escrita a partir da
segunda metade do século XIII, referindo-se a esta localidade.
Foi
frequentada por reis. Consta que D. Afonso V, em 1442, fez doações de terras em
Carnide e que o próprio monarca aqui terá residido temporariamente. Este
monarca frequentou Carnide, nomeadamente por altura do culto ao Espírito Santo
e início do culto a Nossa Senhora da Luz. Fez parte da irmandade local. Temos
notícia de que o seu filho D. João II também frequentava Carnide, havendo uma
carta do rei, datada deste termo de Lisboa. Um restaurante na Rua do Norte tem
a denominação de “Restaurante Paço de Carnide”. Esta expressão liga-se,
provavelmente à tradição das memórias, onde neste sítio ou na proximidade se
situaria o antigo paço rural.
As
terras férteis e os bons ares atraíram agricultores, bem como nobres e
burgueses que vinham para aqui, temporariamente, acabando alguns por se fixar
em Quintas agrícolas /ou apalaçadas, algumas das quais com a função de retiro
quando a capital era atingida por pestes ou quando marinheiros, viajantes e
emigrantes vinham para aqui descansar, o espírito, a alma e o corpo.
O
“termo de Lisboa” era uma espécie de arrabalde constituído grosso-modo pelas
atuais freguesias de Benfica, Carnide, Ameixoeira, Charneca e Lumiar, onde
existiam quintas, campos, prados, bosques e pequenos aldeamentos.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
MARCAS EM CARNIDE: DA LUZ AO ESPÍRITO DE BAIRRO
Aborda-se, nesta visita uma seleção de
patrimónios materiais de valor artístico, mas também a vertente imaterial ou
espiritual de Carnide, como terra de “luz”, devoção, romaria, feira e festa com
a particularidade rara de dois patronos/oragos (Senhora da Luz e São Lourenço).
Não esquecemos o culto histórico ao Espírito Santo no Alto do Poço (atrium
ancestral de Carnide) e a fixação de comunidades religiosas, tais como os
Templários, no seguimento da reconquista. Referiremos também o papel da Ordem
de Cristo, bem como o papel dos Franciscanos, entre outras irmandades que aqui
desenvolveram e desenvolvem trabalho social, cultural e humanitário.
O
turista recém-chegado a Carnide que entre de súbito pela zona histórica, vindo
pela Estrada da Luz até à Rua da Fonte e encontre um edifício com a construção
interrompida, há vários anos, às portas do bairro histórico, dirá que Carnide é
uma freguesia parada no tempo, sem alma e sem gosto. Porém, se o mesmo turista
se tornar visitante atento, sem clichês pré-concebidos, se começar por fruir um
pouco do renovado Jardim da Luz, entrar na igreja, ler e meditar sobre o que
foi e o que é o complexo religioso, educacional e social do Largo/Jardim da Luz;
Se
entrar nos espaços tradicionais e referenciais, “Restaurante Jardim da Luz,
Carnide Clube, Espassus 3G, Teatro D. Luís Filipe, Centros Culturais e
Biblioteca Natália Correia”, entre outros;
Se
fizer uma visita aos edifícios e organizações com sede nos ex-conventos; se analisar
a obra realizada pela Junta de Freguesia e Câmara Municipal, destacando-se o
apoio à cultura e a várias organizações de âmbito social e comunitário;
Se
participar em eventos nos teatros, centros culturais e igrejas; se assistir aos
programas “Viva a Música – Música Portuguesa RTP”, no Largo da Luz, apresentado
regularmente por Armando Carvalhêda;
Se visitar exposições na sede da Junta de Freguesia e outros
espaços comunitários, apreciar locais em que perdura uma tradição e um “espírito
de bairro”; então o visitante atento, ficará com uma ideia bem diferente de
Carnide daquela com que se deparou ao entrar subitamente na freguesia.
O “bairro histórico” e a freguesia merecem ser observados
na sua totalidade, de preferência com uma explicação prévia, tendo em conta a
herança patrimonial de Carnide. Nos tempos difíceis que correm, as instituições
desta freguesia e paróquia conseguem dar apoio social, cultural e humanitário às
populações num esforço meritório e de referência.
Carnide suscita particular
interesse, até como caso de estudo, começando pelos significados etimológicos, passando
pelo seu historial, o sentido das suas marcas culturais e patrimoniais, a “Luz”,
o “Espírito Santo”, o “Espírito de Bairro” que teimam em prevalecer entre as
comunidades que aqui são referência.
É altura de uma abordagem
integrada desta freguesia e paróquia. Tal abordagem holística não será por nós conseguida
mas vamos iniciá-la e à nossa maneira. Contando com a sua participação
conseguiremos, certamente, ampliar a informação e renovar o interesse para
fruir este ex “termo” de Lisboa.
Falaremos
da origem do culto a Nossa Senhora da Luz, da Purificação ou da Candelária com
raizes em Israel mas sendo igualmente um fenómeno de divulgação quase exclusivo
da portugalidade.
Abordaremos
motivações para o apoio ao culto mariano e outros santos, a que não serão
alheios factores como os ligados à
Contra-Reforma e ao Concílio de Trento. E ainda a popularidade do culto, festas
e folias à volta do Espírito Santo que, em muitos casos, deixou de agradar à
Igreja maioritária, bem como ao poder político.
Tal
popularidade e manifestações à volta do Espírito Santo tornaram-se perigosas
(ou, pelo menos, pensaram ser perniciosas) para a manutenção da ordem. Daí a
extinsão ou apagamento destas manifestações em Portugal continental. Acabou por
se salvar o culto, folias e “impérios” nos Açores e no Brasil onde, longe da
corte e da posição mais “ortodoxa”/romana, sobreviveu, não obstante as proibições
civís e a retirada de apoios do clero maioritário nos espaços de culto, nas procisões
e nas folias.
Este
culto em Carnide leva-nos ainda a falar dos Templários e das teorias
milenaristas do monge cisterciense Joaquim de Fiore mas também das raizes
judaicas e bandárricas (de Bandarra – célebre sapateiro de Trancoso, de que há
marcas em Carnide). O milenarismo e o culto do Espirito Santo leva-nos ainda a
referir o padre António Vieira, Fernando Pessoa, António Quadros e Agostinho da
Silva.
Tal
como aconteceu com o culto de Nossa Senhora da Luz, o culto do Divino Espírito
Santo (hoje em dia alterado), também é um fenómeno de divulgação pelo mundo
através dos povos lusófonos, sobretudo no mundo ocidental. Aproveita-se para a demanda
de um pouco de “luz” sobre o modo como o conceito de Espírito Santo evoluiu até
ser considerado Deus, a par do Pai e do Filho, com identidade e vontade própria
e sobre o modo como este culto chegou a Portugal, tudo indica que, pelos
franciscanos e com o apoio de Isabel de Aragão (raínha santa).
Dedicaremos
também umas palavras:
- À questão “Filioque” que
terminou no cisma bizantino e na separação das igrejas - grega e de Constantinopla,
em relação à igreja latino-romana por causa da procedência do Espírito Santo. E
também no abandono, direto ou indireto, do culto ao Espírito Santo em Portugal
continental o que se traduziu em maiores incentivos ao cultos dos santos,
particularmente ao culto a Nossa Senhora e, daí, a introdução e incentivo do
culto a Nossa Senhora da Luz, a partir de Carnide.
Teremos
um apontamento sobre vários conventos ou casas religiosas e as novas funções
que desempenham. Veremos marcas ligadas
ao Correio-Mor e outras marcas de correios e telecomunicações.
-
Dedicaremos umas palavras a D. Maria (1521
- 1577) filha do rei D. Manuel I, uma das infantas mais ricas e mais
belas do mundo de então; referiremos alguns poemas de Camões, que pensamos também ter frequentado Carnide,
motivado pelo amor impossível ou interditado à infanta que repousa na
capela-mor da Igreja da Luz, após tresladação do Mosteiro da Madre de Deus, de
Xabregas.
Fazemos
uma abordagem às marcas rurais deixadas na toponímia: azinhagas e quintas, bem
como às marcas da urbanização com a passagem de Carnide para o Município de
Belém (1852 - 1885).
Umas palavras também à gestão
autárquica, restauração e animação num espaço histórico que sendo alfacinha
está perto e longe do bulício de Lisboa. Perto fisicamente, e, longe do ponto
de vista psicológico, proporcionando ao habitante e visitante uma certa ruralidade
que o poder local tem acautelado como marca de valorização do território e identidade
bairrista.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
AQUILINO RIBEIRO – DA LAPA À SORBONNE PASSANDO PELO M.U.D. E PELA SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES
A sua ida para o Colégio da Senhora da Lapa, em 1895, seria o início de
um longo percurso. Em 1904 foi expulso do seminário de Beja, depois de ter dado
uma “réplica cortante a uma acusação do Padre Manuel Ançã”. Chegou a Lisboa em 1906.
Escreve artigos de opinião publicados em jornais, tais como “A Vanguarda”. É tradutor e redige, em parceria com
José Ferreira da Silva, o folhetim “A Filha do Jardineiro”, uma ficção onde
perpassa a propaganda republicana e a crítica às figuras do regime monárquico, a começar por D.
Carlos.
Em Paris inscreveu-se em Filosofia na Sorbonne,
onde teve a oportunidade de ser discípulo de mestres, tais como George Dumas, André Lalande, Levy
Bruhl, Durckeim, e onde contactou com outras figuras portuguesas que, igualmente
por motivos políticos, se viram forçadas a sair de Portugal.
O curso, a política, os
projetos editoriais que desenvolveu com os mestres e companheiros de exílio, as
crónicas que enviou para Portugal, para publicação, nomeadamente na “Ilustração
Portuguesa” e no “jornal A Beira” e as pesquisas de bibliófilo proporcionaram-lhe a oportunidade da escrita.
Ainda em Paris, conheceu Grete Tiedemann, sua primeira mulher e mãe do primeiro
filho de ambos.
Em Portugal aderiu ao M.U.D.
(Movimento de Unidade Democrática) e empenhou-se na defesa e difusão da causa da
Democracia e Liberdade, por exemplo, em textos publicados na imprensa diária.
Em 1948-49 apoiou a
campanha presidencial de Norton de Matos. Integrou, com outras figuras do saber,
a Comissão Promotora do Voto.
Militou na candidatura de
Humberto Delgado à presidência da República, no ano de 1958.
Criou, com alguns
contemporâneos, a Sociedade Portuguesa de Escritores, de que foi fundador e
presidente nos anos 50`s.
Foi proposto à candidatura do Prémio Nobel
por Francisco Vieira de Almeida e subscrito por José Cardoso Pires, David
Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de
Carvalho, Joel Serrão, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol,
Luísa Dacosta, Vergílio Ferreira, entre outros.
Assistiu ao movimento em
sua defesa, após a publicação do romance “Quando os Lobos Uivam”, em
1958. Este romance foi considerado pelo regime de Salazar como “injurioso das
instituições de poder”. Instauraram-lhe, por isso, um processo crime.
O advogado Heliodoro Caldeira encarregou-se da sua defesa
formal, contando com o apoio de cerca de 3 centenas de intelectuais portugueses que se
juntaram num abaixo-assinado, a fim de obterem o arquivamento do processo. Lá fora,
contou com uma petição redigida por François Mauriac assinada por figuras
relevantes, tais como: Louis Aragon, André Maurois e publicada em vários media franceses.
Na língua portuguesa Aquilino imprimiu uma “plasticidade impressionante
combinando o rústico com o erudito. [...] Criou uma galeria de personagens passando pelos:
campesino, pequeno-burguês, cosmopolita, idealista, obcecado, asceta e sibarita” (1) alguém que deixou
para os posteros uma “visão exaltante da existência”. […] (2)
Notas e fontes:
(1)
Sibarita: pessoa ou grupo urbano de gostos
refinados pela mulher tentadora e pela virgem solícita e generosamente
disponível (dic. Web / Google / http://ar.answers.yahoo.com/question/index?qid=20070525173559AATc3fs ;
(2)
Cf. http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/bases-tematicas/figuras-da-cultura-portuguesa/1398-aquilino-ribeiro.html; acedidos e resumidos em 24.01.2013).
Subscrever:
Mensagens (Atom)