segunda-feira, 24 de junho de 2013

AQUILINO RIBEIRO – DA LAPA À SORBONNE PASSANDO PELO M.U.D. E PELA SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES


          A sua ida para o Colégio da Senhora da Lapa, em 1895, seria o início de um longo percurso. Em 1904 foi expulso do seminário de Beja, depois de ter dado uma “réplica cortante a uma acusação do Padre Manuel Ançã”. Chegou a Lisboa em 1906. Escreve artigos de opinião publicados em jornais, tais como “A Vanguarda”. É tradutor e redige, em parceria com José Ferreira da Silva, o folhetim “A Filha do Jardineiro”, uma ficção onde perpassa a propaganda republicana e a crítica às figuras do regime monárquico, a começar por D. Carlos.       

          Em Paris inscreveu-se em Filosofia na Sorbonne, onde teve a oportunidade de ser discípulo de mestres, tais como George Dumas, André Lalande, Levy Bruhl, Durckeim, e onde contactou com outras figuras portuguesas que, igualmente por motivos políticos, se viram forçadas a sair de Portugal.

          O curso, a política, os projetos editoriais que desenvolveu com os mestres e companheiros de exílio, as crónicas que enviou para Portugal, para publicação, nomeadamente na “Ilustração Portuguesa” e no “jornal A Beira” e as pesquisas de bibliófilo proporcionaram-lhe a oportunidade da escrita. Ainda em Paris, conheceu Grete Tiedemann, sua primeira mulher e mãe do primeiro filho de ambos.

          Em Portugal aderiu ao M.U.D. (Movimento de Unidade Democrática) e empenhou-se na defesa e difusão da causa da Democracia e Liberdade, por exemplo, em textos publicados na imprensa diária.

          Em 1948-49 apoiou a campanha presidencial de Norton de Matos. Integrou, com outras figuras do saber, a Comissão Promotora do Voto.

          Militou na candidatura de Humberto Delgado à presidência da República, no ano de 1958.  

          Criou, com alguns contemporâneos, a Sociedade Portuguesa de Escritores, de que foi fundador e presidente nos anos 50`s.

          Foi proposto à candidatura do Prémio Nobel por Francisco Vieira de Almeida e subscrito por José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Joel Serrão, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta, Vergílio Ferreira, entre outros.      

          Assistiu ao movimento em sua defesa, após a publicação do romance “Quando os Lobos Uivam”, em 1958. Este romance foi considerado pelo regime de Salazar como “injurioso das instituições de poder”. Instauraram-lhe, por isso, um processo crime.

          O advogado Heliodoro Caldeira encarregou-se da sua defesa formal, contando com o apoio de cerca de 3 centenas de intelectuais portugueses que se juntaram num abaixo-assinado, a fim de obterem o arquivamento do processo. Lá fora, contou com uma petição redigida por François Mauriac assinada por figuras relevantes, tais como: Louis Aragon, André Maurois e publicada em vários media franceses.       
          Na língua portuguesa Aquilino imprimiu uma “plasticidade impressionante combinando o rústico com o erudito. [...] Criou uma galeria de personagens passando pelos: campesino, pequeno-burguês, cosmopolita, idealista,  obcecado, asceta e sibarita” (1) alguém que deixou para os posteros uma “visão exaltante da existência”. […] (2)

Notas e fontes:

(1)             Sibarita: pessoa ou grupo urbano de gostos refinados pela mulher tentadora e pela virgem solícita e generosamente disponível (dic. Web / Google / http://ar.answers.yahoo.com/question/index?qid=20070525173559AATc3fs ;

(2)             Cf. http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/bases-tematicas/figuras-da-cultura-portuguesa/1398-aquilino-ribeiro.html;  acedidos e resumidos  em 24.01.2013).

 

 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

AQUILINO CÍVICO CARISMÁTICO E CASTIÇO

 
            Aquilino Gomes Ribeiro tornou-se numa figura carismática pela sua postura cívica em defesa do Homem comum sofredor e sujeito a arbitrariedades dos poderes. Em 1963 preparalham-lhe uma homenagem pública em várias cidades, coincidindo com o cinquentenário da edição de O Jardim das Tormentas. Porém, morreu subitamente sem apreciar quanto lhe estavam reconhecidos.

            “Se é certo que levantava certos obstáculos de legibilidade […]” muito por causa das modas francesas e inglesas que desprezaram o vocabulário clássico, o ibérico e o regional, o Centro de Estudos Aquilinianos promoveu um Glossário Aquiliniano para facilitar a leitura entre a comunidade que se havia acostumado demasiado ao estilo francófono e anglófono (1).

            As suas narrativas são geralmente de linguagem castiça, entrelaçada com o clássico e simultaneamente indiferente aos estilos literários do modernismo e neorrealismo correntes.

 
Algumas frases que nos parecem pertinentes em relação ao escritor e homem cívico:  

            “O que o homem mais aprecia acima de grandezas, glória, amor, acima do seu próprio pão para a boca, é a liberdade....” ;

             “Cultivem a inquietação (2) como fonte de renovamento.”; 

            “Aquilino é o nosso escritor mais emblemático do séc. XX”;    “Razão mais do que suficiente para a trasladação” para o Panteão Nacional. (Jerónimo Costa) (3);

            É um inimigo do Regime. Dir-lhe-á mal de mim; mas não importa: é um grande escritor” (António de Oliveira Salazar).

            Conheci Aquilino Ribeiro, de quem me prezo de ter sido amigo e de quem continuo, cada vez mais, com o passar dos anos e as sucessivas leituras, rendido admirador”. (Mário Soares).

            A força plástica e musical do mundo aquiliniano é admirável. A serra portuguesa, a aldeia patriarcal, o rebanho transumante, vivem nos seus livros como a vida flamenga e holandesa nos quadros dos grandes pintores dos Países Baixos”. (Vitorino Nemésio).

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(1) Existem hoje em dia diversas ferramentas/dicionários, incluindo no Google que nos apresentam os significados de quase todos os termos menos conhecidos.

 (2) Aquilino é a pedrada no charco de águas paradas e contaminadas.
 
(3) Jerónimo Costa é colaborador da Revista de Arte e Crítica de Viseu; Membro/Regedor da Confraria Aquiliniana; Colaborador da Revista “Letras Aquilinianas”.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

AQUILINO RIBEIRO E SUA OBRA





Breve resumo: Aquilino Gomes Ribeiro

            Nasceu em 1885, no Carregal, Sernancelhe, e faleceu na capital, em 1963, faz este mês de maio 50 anos. Em 1933, recebeu o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, pela publicação de “As Três Mulheres de Sansão” e, em 1935, foi eleito sócio correspondente da mesma Academia. Em 2007, a Assembleia da República aprovou uma homenagem, incluindo a transferência do corpo com honras de Estado para o Panteão Nacional de Santa Engrácia.

            Originário e profundamente beirão, aos 10 anos, fez exame da primária no Colégio da Sra. da Lapa, e aos 15, encontrava-se no Colégio Roseira”, de Lamego. Após um curto intervalo de tempo, quando estudou Filosofia em Viseu, transferiu-se para o “Seminário de Beja”. A falta de vocação levou-o a abandonar o Seminário e vir para Lisboa, aos 18. Um ano depois regressou a Soutosa (aparece em “Terras do Demo” pela grafia de Soitosa), concelho de Moimenta da Beira mas aos 21 anos já estava novamente em Lisboa, desenvolvendo uma ação de cariz ideológico republicano e colaborando com o jornal “A Vanguarda”.

            Em 1907, iniciou a publicação de livros, onde denota uma intervenção na esfera política, com o conto “A Filha do Jardineiro” em parceria com José F. Silva.  Esta obra de ficção tinha como objetivo a caricatura do regime monárquico vigente, através da análise de figuras públicas. Ainda em 1907, aderiu à Maçonaria. Pouco tempo após foi preso e acusado de anarquista. Conseguiu evadir-se da prisão e prosseguiu contactos com a Maçonaria, incluindo a vertente carbonária.           

            Em 1910, encontrava-se a estudar Letras na Sorbonne, vindo a Portugal após a Revolução do 5 de Outubro. O relacionamento com Grete Tiedemann levou-o à Alemanha, onde residiu durante alguns meses (1912/1913) e casou.

            Em 1914, nasceu o filho Aníbal Aquilino Fritz, que veio a ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Entre 1915 e 1918, exerceu funções de professor no Liceu Camões. Seguiu-se outro período intenso, na Biblioteca Nacional, como na produção literária de “Terras do Demo”, direção da revista “Seara Nova”, publicação de “O Malhadinhas”; "Andam Faunos pelos Bosques" e “Estrada de Santiago”, até que entrou na revolta de 1927, em Lisboa. Participou no movimento militar republicano contra a Ditadura Militar e na revolta de Pinhel em 1928.

            Consequentemente, procurou Paris para se exilar. Em 1929, casou em segundas núpcias, com a filha do Presidente da República, Bernardino Machado. Continuou a atividade de escrita regular de livros, destacando-se, nos anos 30, "O Homem que Matou o Diabo" e "Batalha Sem Fim”. Nos anos cinquenta, foi fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores. Continuou a produção de várias obras, entre as quais “A Casa Grande de Romarigães” (1957) e “Quando os Lobos Uivam” (1958). Neste ano de 1958 foi nomeado sócio efetivo da mesma Academia e tornou-se militante da candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República.

Em 1960, foi proposto para Prémio Nobel da Literatura

Entre um leque extenso de proponentes encontravam-se nomes tais como: José Cardoso Pires; David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Alves Redol e Virgílio Ferreira. Com uma obra literária composta, grosso-modo, por contos, romances, novelas e artigos em periódicos, desenvolveu uma linguagem vernácula e difundiu termos regionalistas ou pouco conhecidos, enriquecendo sobremaneira o vocabulário e a literatura de expressão portuguesa. Concluindo, na sua obra literária perpassam contextos e costumes, com relevância para modos de fazer tradicionais.

            A propósito do Nobel da Literatura em 1998, José Saramago disse “Se Aquilino Ribeiro fosse vivo quem o recebia era ele (Aquilino)”. Porém, entre 1960 e 1998 vão 38 anos de distância, de conquistas democráticas e de educação para a cidadania de que Aquilino foi um dos grandes arautos, precursor e motivador. (cf. Texto e galeria de imagens de Alfredo Anciães, revisão de Ana Luísa Janeira Online. (Ref.:F.331) Online Igreja de Santa Engrácia; Panteão Nacional; Rua Aquilino Ribeiro, in  http://marcasdasciencias.fc.ul.pt/imagem/original/2733.jpg)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

OS DIAS DA TERRA


Mais do que o reconhecimento pela Organização das Nações unidas (ONU) é necessário que reconheçamos que o dia da Terra deve ser lembrado todos os dias, por cada um de nós.

Somos poluidores. Podemos evitar desperdícios, fazer escolhas e seleções para o que já não queremos, depositar o que já não nos serve em locais próprios. De outro modo pagaremos, nós e os nossos sucessores.  
 
Feita a parte de cada um, cabe exigir aos poderes políticos que legislem, regulem, fiscalizem e penalizem infratores. Num mundo de concorrências não é tão fácil como pode parecer um Estado tomar as melhores opções para a Terra, logo para nós próprios e para todos os seres.

Em boa parte, as melhores soluções para a Terra dão trabalho e custam caro, daí a utilização de velhas tecnologias poluentes e o recurso ao que está mais acessível a nível de preços.

Contudo, a preservação das espécies, do homem incluído, merecem a atenção com vista à redução de danos. Se ao comprarmos, e ao utilizarmos materiais e géneros, formos mais conscientes, estaremos a agir em conformidade no plano ético. A retribuição de uma boa conduta em relação à Terra virá, mais cedo ou mais tarde.

Em especial, devemos reparar no que é importado. Se um bem que vem do exterior contribui para o desequilibrio da balança de pagamentos, ao menos que escolhamos o que é menos poluidor, menos prejudicial para a saúde, assumindo esta como um bem pessoal e público.

“FAZER BEM, FAZ BEM”
deverá ser o lema em todos os dias.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A CRIAÇÃO INCLUINDO OS EFÉMEROS HOMEM/MULHER


Olá Luc !

Já não venho a tempo de desejar o bom domingo que passou mas desejo uma boa semana e um bom domingo (próximo).

"As rolas faziam uma festa com os seus arrolhamentos, os melros já deixaram de ser selvagens e já andam nos jardins e não fogem, as árvores começam a pôr as suas folhas. É o milagre da vida a renovar, mas no bicho homem/mulher, tal não acontece, pois andam taciturnos."

Quanto a esta tua belíssima frase respondo, não só com a minha escassa ciência, pois aquela frase merece muito mais. Vou então socorrer-me do meu conterrâneo Aquilino Gomes Ribeiro, aquele de quem Saramago disse que "se Aquilino fosse vivo quem ganhava o prémio Nobel era ele" e eu reafirmo que Aquilino bem o merecia. Porquanto acabou por ganhar ainda mais - um lugar no Panteão Nacional.

Então aqui vai a resposta com ajuda de mestre Aquilino

"Está dito, tudo morre e tudo volta. Reparo que uma força criadora, decerto instilada pelo sol, palpita de modo tão intenso que o sentimento de velhice no homem se torna de uma tristeza funérea e confrangedora. É pena que se não possa regular a VIDA [*] como um relógio, andando com os ponteiros para diante e para trás segundo à nossa conveniência [...]

A Primavera, tantas vezes rebelde ao calendário, rejuvenesce tudo menos no homem. As leis da ciclicidade física assim o mandam. Para o ano, por esta altura, voltarão as aves a cantar. Que chova, que faça sol radioso, com o mundo vegetal pletórico [“superabundante” in dicionário online de português] de seiva ou mais aganado [“aganado” = estanguido, cansado in “dicionário online de português”], à triste planta humana é que nada a afasta da sua carreira para a morte. Será ela [a planta humana] a obra-prima da Criação ou a pior de todas?"

Mais uma vez, uma semana magnífica, lembrando-nos que toda a Criação é uma obra efémera, incluindo os privilégios de que as criaturas usufruem.

[* Capitais minhas]

Abraço

AA

segunda-feira, 25 de março de 2013

 
FELICIDADE É UM PROCESSO E NÃO UM FIM

Um banqueiro encontra um modesto pescador, chegando da faina com o pescado do dia.
- O banqueiro pergunta quanto tempo levou o pescador a capturar aquela quantidade de sardinha.
- Foi rápido- responde o pescador.
-Então porque é que o senhor não dedica mais tempo e apanha ainda mais quantidade de pescado!
- Não necessito, este chega para viver!
- E o que faz você com tanto tempo livre?
- Descanso, brinco com os filhos, levo-os à escola, vou à vila e bebo um vinho com os amigos, acompanhado com um petisco. E ainda toco guitarra para animar o grupo. Tenho uma vida descontraída!
O banqueiro insiste que sabe muito de finanças e de gestão e pode fazer com que o pescador pesque muito mais, tenha a sua própria frota de barcos, fábrica para preparar o peixe, uma empresa distribuidora, trabalhadores por sua conta e sem necessidade de intermediários.
- Assim controlará toda a cadeia.
- E quanto tempo pode isso tudo demorar. – pergunta o pescador.
-Aí uns quinze ou vinte anos e, no final pode vender as ações das empresas para, então, frequentar á vontade a tasca, o café, o clube, beber o seu vinho e tocar guitarra entre os amigos.
- Mas isso é o que eu já tenho agora!
Uma economia conjugada com o ágape e o bodo, precisa-se. Quando um franciscano foi eleito para liderar a maior ou das maiores organizações humanitárias é, possivelmente, a altura de se desenvolverem mudanças significativas nas sociedades para um mundo mais igualitário, embora as conjunturas europeias pareçam indicar o contrário.
Obs. Texto inspirado em PPS adaptado de Cristina Säenz Enríquez, recebido em 25.3.2013
Uma Páscoa feliz

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Marcas Patrimoniais em Carnide e Luz de Lisboa


 
PREPARAÇÃO DE UMA VISITA


Conta-se que Pedro Martins (Pero Martiz na grafia original) natural de Carnide, onde faleceu em 14 de Março de 1466 (segundo George Cardoso, em Agiológio Lusitano) esteve prisioneiro no Norte de África. Possivelmente capturado, não se sabe ao certo se no âmbito do desastre de Tanger (1437) ou se capturado por piratas em qualquer viagem que tenha feito ao Algarve, de onde sua mulher era natural. Na sequência desta captura, e como não houve resgate, Pedro Martins – homem religioso, só já esperava por um qualquer milagre. Teve algumas vezes a aparição e intercessão duma Senhora envolta em luz que, no cárcere, lhe prometeu que o libertaria das amarras e o faria regressar a Carnide onde trataria de edificar uma Capela em seu nome, nas bandas da Fonte do Machado, onde encontraria uma imagem escondida. A Capela foi edificada e classificada na categoria de Ermida. Subjaz, em parte, nos alicerces da actual Igreja da Luz e é visitável em determinadas circunstâncias.

 


Começou assim o culto à Senhora da Luz que veio a sobrepor-se (ou impor-se ?) ao culto do Espírito Santo e contribuir para o esmorecimento deste, até o esquecimento, não obstante ter sido venerado e estimado em Carnide durante mais de 3 séculos. Falaremos, pois, na origem do culto ao Espírito Santo com fontes bíblicas, na sua autonomização/divinização e expansão, a partir do Pentecostes, e da entrada em Alenquer, Carnide, encosta do Castelo de Lisboa e tantos outros locais de Portugal, acabando por esvanecer-se, em parte também, devido à “concorrência” de outras santidades.


Falaremos da origem do culto a Nossa Senhora da Luz, da Purificação ou da Candelária com raizes em Israel mas sendo igualmente um fenómeno de divulgação quase exclusivo da portugalidade.


Abordaremos motivações para o apoio ao culto mariano e outros santos, a que não serão alheios  factores como os ligados à Contra-Reforma e ao Concílio de Trento. E ainda a popularidade do culto, festas e folias à volta do Espírito Santo que, em muitos casos, deixou de agradar ao clero, bem como ao poder político. Tal popularidade e manifestações à volta do Espírito Santo tornaram-se perigosas (ou, pelo menos, pensaram ser perniciosas) para a manutenção da ordem, como veremos. Daí a extinsão ou apagamento destas manifestações em Portugal continental, acabando por se salvarem nos Açores e no Brasil onde, longe da corte e do clero mais “ortodoxo”, sobreviveram, não obstante algumas proibições conhecidas e a retirada de apoios do clero nos espaços de culto, nas procisões e nas folias.


Este culto em Carnide leva-nos ainda a falar das teorias milenaristas do cisterciense Joaquim de Fiori mas também das suas raizes judaicas, bandarristas (de Bandarra – célebre sapateiro de Trancoso, de que há marcas em Carnide), do padre António Vieira, de Fernando Pessoa, António Quadros e Agostinho da Silva, que não se cansava em falar no século XIII, idade por excelência do culto ao Espírito Santo e na ideia de que o Homem não nasceu com a finalidade de trabalhar.


Tal como aconteceu com o culto de Nossa Senhora da Luz, o culto do Divino Espírito Santo (hoje em dia alterado), também é um fenómeno de divulgação mundial, essencialmente a partir de Portugal. Aproveita-se para uma breves palavras sobre o modo como o conceito de Espírito Santo evoluiu até ser considerado Deus, a par do Pai e do Filho, com identidade e vontade própria e sobre o modo como este culto chegou a Portugal.  


Falaremos também da monumentalidade que existiu em Carnide até 1755 e teceremos ligeiras palavras sobre outros patrimónios construídos após o  Terramoto. Apontaremos os vários conventos ou casas religiosas e as novas funções que desempenham. Veremos  marcas deixadas pelo Correio-Mor e outras dos correios e telecomunicações ao tempo do Estado Novo.


Falaremos ainda na infanta D. Maria (1521 - 1577) filha do rei D. Manuel I, uma das infantas mais ricas e mais belas do mundo de então; apresentaremos algumas poesias de Camões (que se pensa ter frequentado Carnide) motivadas pelo amor impossível ou interditado à mesma infanta que repousa na capela-mor da Igreja. Abordaremos as marcas rurais deixadas na toponímia, tais como azinhagas, quintas, arqueologia e aquitectura, bem como a urbanização com a passagem de Carnide para o Município de Belém (1852 - 1885).


Enfim,  teremos uma palavra em relação à gestão autárquica nas últimas décadas, bem como sobre a restauração e a animação num espaço histórico que sendo alfacinha está tão perto e tão longe de Lisboa. Perto fisicamente, e, longe do ponto de vista psicológico, remetendo-nos para uma certa raiz de ruralidade que os poderes locais têm acautelado como marcas de valorização e de identidade.