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quarta-feira, 1 de julho de 2015

47. MEIOS E TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO NO FILME - “O PÁTIO DAS CANTIGAS”

       O Pátio das Cantigas é um filme clássico português, realizado em 1942. As festas populares de junho, prosseguidas pelas estivais dão-lhe o mote. Neste filme entra uma trilogia de célebres atores: Vasco Santana (Narciso), António Silva (Evaristo) e Ribeirinho (Rufino), entre outros. O género é de comédia. O valor histórico tem determinado a sua reposição, inclusivamente a sua reedição que terá a estreia, com atores atuais, em finais de julho do corrente ano de 2015.

Vamos ver como vai ser aceite pelo público, sendo que o título e a imagem original lhe dão projeção. Por outro lado, é uma imensa responsabilidade trabalhar sobre uma marca e atributo que tem sido de grande aceitação.

Imagem de contexto em 1942
      Sob o ponto de vista das tecnologias de animação e comunicação começamos por Carlos Alves (Sr. Engenhocas) que vivia num prédio do Pátio das Cantigas e lidava com vários equipamentos, entre eles: uma grafonola e altifalante de sacada. Punha toda a gente alegre e a dançar. A casa do Sr. Engenhocas era ainda equipada com um aparelho de rádio que o próprio Engenhocas diz ter inventado; um telefone automático de mesa modelo de coluna e um telefone de parede, modelo Herrmann/português com adaptação de bateria local e chamada por magneto (manivela).

A Srª Rosa (Maria das Neves) é avisada de que chegou a sua filha do Brasil.

Do Pátio das Cantigas, presumidamente na Ajuda, à Praça da Figueira são utilizados cinco meios de transmissão da comunicação:

Primeiro admirador e primeiro meio de comunicação: O Evaristo tenta o contacto com a Srª Rosa por telefone. Concretamente trata-se de um telefone automático modelo de coluna, com marcador de disco rotativo. Os primeiros telefones automáticos haviam sido inaugurados em 1930, em Lisboa. Porém, em 1942 (data do filme O Pátio das Cantigas) a telefonia automática, sem necessidade de Telefonista, ainda se limitava a Lisboa e circunvizinhança. Também no Porto, havia uma zona da cidade e envolvimento, então explorada pela APT – The Anglo-Portuguese Telephone Company, Limited que precedeu os TLP – Telefones de Lisboa e Porto. Fora destas zonas, quase todo o território nacional, explorado pelos CTT, utilizava ainda os telefones manuais de bateria local, isto é com grossas pilhas e manivela para chamada da Telefonista que, por sua vez, comutava a ligação entre os utilizadores: chamadores e chamados.
Imagem publicidade “cartaz publicitário de Cunha Barros/APT” in Arq. da Fundação Portuguesa das Comunicações. Dois telefones deste tipo foram utilizados nas gravações d` O Pátio das Cantigas

Acontece que a prática em utilizar os telefones automáticos era escassa e a tecnologia também não seria muito eficaz. O Evaristo, antes de conseguir ligação com a Srª Rosa, engana-se quatro vezes a marcar o número ou foi afetado pelo cruzamento involuntário de linhas. Na primeira vez a comunicação vai parar à Maternidade Alfredo da Costa; noutra tentativa vai parar à Escola Agrícola da Paiã (Pontinha-Odivelas); nova tentativa vai para o Jardim Zoológico; outra tentativa ainda, vai parar à Praça de Touros do Campo Pequeno. Só à quinta vez, o Evaristo liga ao calha tentando números, mesmo sem olhar para o disco. E não é que, desta vez, acerta a ligação!

A Srª Rosa atende o telefone na Praça da Figueira. Para agradarem à Florista, os outros admiradores, também tentam as suas sortes com meios de transmissão diferentes. E tudo se baralha!

Segundo admirador e segundo meio: O Evaristo envia um pombo-correio com uma mensagem que chega ao mesmo tempo da chamada telefónica. A Srª Rosa fica tão emocionada ao ver o seu pombinho “fofinho [que lhe] traz um recado”. E deixa o aparelho telefónico a falar sozinho, não conseguindo atender o admirador com a nova da chegada da filha, do Brasil.
Por sua vez, Narciso diz para o pombo-correio “Vai depressa para mostrar que o melhor telégrafo ainda é o pombalino” (de pombo-correio).


Pombo-correio
     Terceiro admirador e terceiro meio: Tudo numa questão de segundos ou micro segundos, chega a informação via radiodifusão através dum aparelho que o Radioamador - Sr. Engenhocas emprestara à Srª Rosa. A mensagem da rádio era muito simples: “Srª Rosa chegou a sua filha”.

Desfile etnográfico de Radioamadores na Horta – Faial em 2014 (1).

Quarto admirador e quarto meio: Entretanto chega um Boletineiro (2) com a mensagem que havia sido emitido nos Correios, hipoteticamente da freguesia da Ajuda ou de Belém; vizinhas do Pátio das Cantigas, onde o expedidor dera a indicação de que fosse transmitido depressa (3).


Ciclista Boletineiro no Terreiro do Paço
      Quinto admirador e quinto meio: Uma mensagem verbal chega através dum miúdo a pé. Quando a criança aborda a Srª Rosa, o Mensageiro não consegue falar de tanta emoção e/ou cansaço e é a própria D. Rosa que se antecipa à voz do menino dizendo:

- Já sei, chegou a minha filha!

No final comparecem todos os admiradores a reivindicar, cada um, a primícia da chegada da mensagem com intenção de ficarem bem vistos.

- Não é verdade que quem lhe deu primeiro a notícia foi o meu pombo, que por acaso é seu?! - pergunta o Narciso.

Porém, a mui pretendida dama atalha dizendo para os pretendentes:

-Foram todos; chegou tudo ao mesmo tempo!

António Silva insiste e acrescenta para a D. Rosa, face aos demais pretendentes:

-[…] sempre que chegar uma filha do Brasil, pode contar incondicionalmente com o meu telefone […].

Notas:

(1)A tecnologia aqui desfilada é algo posterior a 1942. Contudo, não era, nessa altura, nem é atualmente operada por menores, já que o radioamadorismo, ao contrário do que possa parecer pela designação, é uma atividade que exige estudos técnicos e teóricos, validados por um exame com diploma, passado pela ANACOM – Autoridade Nacional de Comunicações, só acessível a maiores de idade. Outra classe de operadores de radiocomunicações mais simples e mais livre é a designada por Banda do Cidadão, também conhecida por walkie-talkies com menos de 5 watts de potência radiada. Ainda assim resolvi editar esta foto obtida em território português e em homenagem aos Radioamadores, desde os anos 1930`s até ao presente. Radioamadores que muito fizeram em termos de cidadania, em tempos de catástrofes naturais, pondo os seus equipamentos ao serviço público.

(2)Profissional que entrega telegramas.

(3)O percurso final, desde a Estação de Correios e/ou Telegráfica para a morada ou local de trabalho do destinatário é que é feito pelo Boletineiro, ou na falta deste por um Carteiro. 

Fontes:

ANCIÃES, Alfredo Ramos; Património Postal e Telecomunicações-Fernando Moura - FPC Fundação Portuguesa das Comunicações – 100 Anos de Telefone. Lisboa: FPC, 2000

Em linha, acedidos em 27.6.2015:


-Filme Português O Pátio das Cantigas in https://www.youtube.com/watch?v=tZEWhzdWIZY. 



sexta-feira, 12 de junho de 2015

45. FESTAS JUNINAS - DO PAGANISMO AO POPULAR


Raízes e manifestações na comunicação, fé, etnografia, arte e animação.

Estas festas populares são conhecidas por festas juninas, dado serem realizadas no mês de junho quando, no hemisfério norte, se aproxima o solstício de Verão e o tempo é de grande vitalismo para a natureza. Tudo parece indicar que na origem destas festas há um fundo pagão (1). O processo de cristianização foi-se mesclando com novos hábitos e novas manifestações. Contudo há uma essência que se mantém.
O primeiro dos santos populares a ser festejado é Santo António, devido à data da sua morte ter ocorrido a 13 de junho. Venerado em quase todo o mundo cristão com especial destaque para a cidade natal, Lisboa.

Com fama de santo milagreiro, foi canonizado em 1232, no ano seguinte ao da sua morte. O processo de canonização foi dos mais rápidos da História eclesiástica, tal era a consideração e fama de que gozava entre a hierarquia eclesial e a população.

Para lá de santo foi proclamado Doutor da Igreja em 1946 pelo Papa Pio XII (2).

Na Arte tem representação na escultura, pintura, numismática, filatelia e museografia, com destaque para o Museu da Cidade / Museu Antoniano de Lisboa e Igreja de Santo António. Fernando de Bulhões, nome de batismo de Santo Antoninho, como é carinhosamente chamado por muita gente, nasceu a dois passos da Sé Catedral.

Tendo crescido junto à Matriz e estudado na vizinhança, em São Vicente de Fora, não admira a densidade de representação artística na cidade. Ademais, o Papa Leão XIII (3) intitulou-o de “Santo de todo o mundo”. São dignas de nota as manifestações populares do enfeite das ruas, escadinhas, largos e outros espaços públicos com destaque para os bairros e sítios com antiguidade.
Um dos exemplos marcantes de envolvimento público e do poder local nas marchas é o caso da freguesia de Carnide que criou o seu próprio marchódromo no Largo da Luz, junto ao convento dos franciscanos. Carnide apresenta-se com nada menos do que nove Marchas, no referido marchódromo. Seis Marchas são infantis, organizadas nas Escolas locais, e ainda a “Marcha dos Avós”, a “Grande Marcha Popular do Teatro de Carnide” e uma Marcha convidada.
O Porto rivaliza com o seu santo milagreiro, São João. As pessoas saem em massa à rua, manifestando-se com os martelinhos. Há ainda quem leve os alhos-porros. Sardinhas, petiscos e bebidas são consumidas em abundância. Sons, cantares e alegria transbordante.
 
(Festa do Município de Tabuaço – Imagem do andor de São João Batista. Gentileza de Manuel Gonçalves in  http://tbcparoquia.blogspot.pt/2014/06/festa-do-municipio-de-tabuaco-sao-joao.html )

São João comemora-se no dia 24, coincidindo com a data do seu nascimento, e não com a data da sua morte, como é comum entre os santos. Consta que São João Batista era primo de Jesus Cristo e é reverenciado não só pelos cristãos, como em certas partes do mundo islâmico, encontrando-se sepultado numa mesquita em Damasco; também é venerado pelo espiritismo, e pela maçonaria, entre outros credos. A razão da comemoração no dia do nascimento deve-se ao facto de ter sido considerado puro ainda dentro do ventre materno.

É aqui que entra a comunicação do mensageiro, anjo Gabriel, reconhecido como padroeiro dos correios e das telecomunicações com a seguinte anunciação:

"5Nos dias de Herodes, rei da Judeia, existiu um sacerdote chamado Zacarias [pai de João Baptista] […] cuja esposa era da descendência de Aarão e se chamava Isabel” […]. “7Não tinham filhos, pois Isabel era estéril e os dois de idade avançada. 8Ora, estando Zacarias no exercício das funções sacerdotais diante de Deus, na ordem da sua turma, 9coube-lhe, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso. […] 11Apareceu-lhe, então o anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. 12Ao vê-lo Zacarias ficou perturbado e encheu-se de temor. 13Mas o anjo disse-lhe: «Não tenhas receio, Zacarias, a tua súplica foi atendida. Isabel, tua mulher, vai dar-te um filho e chamar-lhe-ás João. 14Será para ti, motivo de regozijo e de júbilo, e muitos se regozijarão com o seu nascimento. 15Será grande aos olhos do Senhor […] cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe 16e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. 17Irá à frente, diante d`Ele [de seu primo Jesus Cristo] […]» 18Zacarias disse ao anjo: «Como hei-de verificar isso, se estou velho e minha mulher avançada em anos?» 19O anjo respondeu: «Sou Gabriel, aquele que está diante de Deus, e fui enviado para te falar e dar-te estas novas»". (Cf. Lc 1, 5-19)
 
 
São Pedro é o terceiro santo popular a ser festejado, a 29 do mesmo mês. Nasce cerca do ano 1 a.C. na Palestina. Terá sido, em primeiro lugar, discípulo de João Batista e amigo de João Evangelista.

Deixa a vida de empreendedor na arte da pesca para seguir o Mestre. Após a condenação à morte do Mestre, Pedro segue a missão de Apóstolo, tendo sido martirizado em Roma, cerca do ano 67. Não se sabe ao certo o dia nem o mês em que foi crucificado na capital do Império, daí comemorar-se a 29 de junho. Esta data correspondente ao dia em que os restos mortais foram trasladados, em segredo, para as Catacumbas de S. Sebastião, em Roma, decorrendo o ano 257.

A popularidade vem-lhe, possivelmente, da origem de humilde pescador e da entrega e coragem na condução da Igreja nos primeiros anos do cristianismo. Em Portugal é venerado e festejado como um dos três santos populares.

A notoriedade como santo que abre as portas do Céu é relevante no imaginário popular, daí o ser frequentemente representado com as chaves na mão. O próprio Cristo comunica-lhe:

«18Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja […] 19«Dar-te-ei as chaves do reino dos céus, e tudo quanto ligares na terra ficará ligado nos céus, e tudo quanto desligares na terra será desligado nos céus» (Mt 16, 18-19).

Na minha comarca e envolvimento, também se festejam os santos populares com grande entusiasmo, especialmente o São João, em Moimenta da Beira e em Tabuaço com liturgias, marchas populares, arraial, programas de desporto e animação; e na sede do concelho de Penedono onde à religiosidade e animação se junta uma importante feira anual onde ocorre gente local e das vizinhanças (Douro Sul, Terras do Demo e de Magriço).

O mês de junho marca, por assim dizer, o início das festas estivais onde comparecem conterrâneos e residentes de várias partes do mundo, reunidos pelo cunho religioso, artístico, etnográfico e copiosa animação de tradição gentia.

Notas:                              


(2) Pio XII considera Santo António um «exímio teólogo e insigne mestre em matérias de ascética e mística».

(3) Leão XIII (Itália: n.1810 - m.1903); Papa entre 1878-1903. No seu tempo de condução da Igreja Católica escreveu dezenas de encíclicas, entre as quais a Rerum Novarum (1891) em que faz a defesa dos trabalhadores, pondo a questão social em plano primaz, defendendo a subsidiariedade dos poderes e a Democracia que na altura era ainda uma miragem, mesmo a nível europeu. Está relacionado com Portugal, não só na questão de Santo António (português/italiano) mas também na concessão do pedido da Congregação das Irmãs do Bom Pastor (então com sede no Porto) para a consagração do Mundo ao Sagrado Coração de Jesus. Estas irmãs tiveram e têm um papel relevante na educação e assistência social. 

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos - Alma e Luz de Carnide. Lisboa: Apenas Livros, 2013

--------------------- - Um Percurso por Lisboa: Seguindo o Elétrico 28. UAL: Instituto de Artes e Ofícios (pós grad. em Gestão de Recursos Turísticos e Culturais), 1997

-Bíblia Sagrada – Lisboa: Difusora Bíblica (Missionários Capuchinhos), 11ª ed., 1984

-Câmara Municipal de Lisboa: EGEAC - Festaslisboa´15, 2015

-Carnide Boletim Informativo da Junta de Freguesia, nº 142, Junho 2015.

Imagens: Santo António, Voz do Operário; Marcha Infantil de Carnide.- Arq. AA; São João Baptista em Tabuaço, gentileza de Manuel Gonçalves in http://tbcparoquia.blogspot.pt/2014/06/festa-do-municipio-de-tabuaco-sao-joao.html

Em linha, acedidas em 10.6.2015:

-Festas de São João, Moimenta da Beira in http://www.freguesias.pt/portal/noticia.php?id=5589&cod=180710

-Penedono: Festividades do padroeiro S. Pedro et al. in https://www.facebook.com/pages/Concelho-de-Penedono/353106204743852






-Vidas lusófonas – Santo António de Lisboa in http://www.vidaslusofonas.pt/santo_antonio_de_lisboa.htm

quarta-feira, 13 de maio de 2015

42. MINHAS MEMÓRIAS. 1983 - 1985. MUSEU DOS CTT RUA DE Dª ESTEFÂNIA NºS 173-175 LISBOA


Edifício do ex-Museu dos CTT com 5 pisos, um jardim e um pavilhão de mala posta na Rua de D. Estefânia, 173-175  - Lisboa. (Gentileza da imagem Luís Marques Silva)

Exposição do Património de Telecomunicações no Piso 3

Telegrafia elétrica e telefonia

Visa-se, com este artigo, divulgar os patrimónios e as formas de apresentação dos mesmos, especialmente os de telecomunicações, nos anos 80. Deve ter-se em conta que a formação dos conservadores/museólogos, arquitetos e designers e os meios e materiais aplicados às exposições desses anos não eram os mesmos que os atuais. De lá para cá, há um intermédio de mais de 30 anos de investigações, de desenvolvimento da documentação, técnicas e materiais. Logo, a descrição que pode, eventualmente, parecer de crítica negativa, deve ser entendida com a intenção positiva de divulgar o que existia e foi feito com as condições da época.

Telegrafia elétrica Bréguet, a primeira a ser introduzida em Portugal no ano de 1855 quando o jovem rei D. Pedro V iniciava o seu reinado. Esta secção abria a exposição do 3º piso. Seguia-se a: Telegrafia em código morse nomeadamente com peças dos portugueses Cristiano Augusto Bramão e Maximiliano Augusto Herrmann. Cristiano fora inovador na telegrafia e na telefonia, ajudando a elevar a Direcção Geral dos Telegrafos portugueses à categoria dos galardoados na Exposição Universal de Paris, de 1878, tal como descrito pelos responsáveis de uma das maiores exposições de sempre. A referência a Portugal, nomeadamente no que concerne às telecomunicações carateriza-se na seguinte comunicação:

“Exposition Universelle de 1878. Distribuition des Recompenses aux Exposants et Procédes de la Télégraphie: Grands prix. Diplomes d`  honneur equivalent a une grand medaille. Direction Générale des Télégraphes Portugal” (1).

Cristiano Augusto recebera da Direcção dos Telegrafos a quantia de 700.000 reis para o registo da patente do seu telégrafo em vários países, antes de ter sido apresentado em Paris na Exposição Universal. Em 1872 o Director dos Telegrafos portugueses Valentim do Rego referiu-se a Cristiano  nos seguintes termos: “O empregado mais apto que tenho para dirigir o ensino […] é o telegrafista de 1ª classe Cristiano Bramão […]. Em 20 de Julho de 1872 foi-me presente uma memória pelo telegrafista Bramão, sendo o novo aparelho telegráfico de sua invenção, com o qual esperava […] produzir 33% de serviço a mais com o mesmo trabalho […]. Estudando a questão […] mandei construir um aparelho conforme as indicações do inventor […]. Este aparelho começou a ensaiar-se em Dezembro de 1872 entre Lisboa e Carcavelos e em consequência dos bons resultados obtidos achavam-se em Agosto de 1874, 10 destes aparelhos a funcionar regularmente” (2).

Também em relação ao patronímico Herrmann, apenas ligeiramente indicado em legendas: telefónicas e telegráficas, o visitante não se apercebia do valor deste autor para as telecomunicações. Alguns visitantes pensavam que se tratava de um autor estrangeiro, no tempo em que o quase homónimo Herman José ainda não estava consagrado na galeria dos artistas. O patronímico Herrmann (ainda com dois rr e dois nn) parecia indicar-nos que se tratava de alguém distante. Não era o caso. Maximiliano Augusto Herrmann, era natural de Lisboa, industrial, inventor e inovador. Morou na Calçada do Lavra, nº 6 – Lisboa, onde possuiu uma das maiores oficinas portuguesas de construção e assistência a diversos equipamentos. Herrmannn também foi notável nos caminhos de ferro; deu início à introdução da iluminação elétrica e manufaturou diverso equipamento mecânico e eletromecânico. A título de exemplo: Foi o próprio Maximiliano Herrmann quem construiu o telégrafo e telefone inovadores de Cristiano Augusto Bramão; inventou e construiu o seu próprio modelo (Herrmann) batizado de “Telefone Privilegiado”.

Telegrafia Hughes, também conhecida como telegrafia modelo piano por apresentar um teclado de caracteres alfa numéricos servindo de transmissor. Este telégrafo fora objeto de inovação portuguesa. Contudo na exposição não se notava esse importante contributo português;

Telegrafia Baudot (3) de transmissão de uma até quatro mensagens pela mesma linha e ao mesmo tempo. Também conhecido por sistema multiplex – revelava a inovação de Jean Maurice Émile Baudot no último quartel do século XIX. Este engenheiro dos correios e telégrafos franceses contou, já no século XX, com uma aplicação portuguesa de suma importância. Tratou-se de um regulador de velocidade e estabilização que permitiu viabilizar e divulgar a telegrafia multiplex em vários países. As frequentes alterações da força motriz da corrente elétrica criavam quebras e picos prejudiciais para a transmissão. Impunha-se uma inovação. Inicialmente projetada por António dos Santos, ex-aluno da Casa Pia de Lisboa na primeira década do século XX. Esta inovação foi posteriormente desenvolvida por Francisco Mendonça e Cassiano de Oliveira, empregados dos Correios Telégrafos e Telefones de Portugal.

Novas telegrafias com teleimpressores, vulgo telex: A segunda metade do século XX assiste à introdução do telex em estações públicas dos CTT nas empresas e agências subscritoras do serviço. A nova telegrafia permite a transmissão e a receção de telegramas sem necessidade de aprendizagem de códigos. Os teleimpressores, também conhecidos por telex eram aparelhos modernos, parecidos com máquinas de escrever elétricas. Renovaram as agências de notícias, viagens, serviços meteorológicos e empresas. Contudo faltava alguma informação complementar: sobre as redes, tráfego e contexto que chamasse a atenção para este novo tipo de telegrafia iniciada em Portugal nos anos 40; só “destronada” pelo corfax/telecópia na década de 90.

Aparelhos terminais telefónicos: Na sala de telefones expunha-se um acervo significativo, constituído por modelos precursores (4), alguns da autoria de inventores e inovadores portugueses. Telefones e centrais de comutação manuais através da intervenção de telefonistas. A exposição de  telefones e comutadores apresentados sem imagens de telefonistas ou manequins que indicassem o ambiente de trabalho nas Estações e Postos tornava-se pobre de informação e emoção. 

Sala de Telefones automáticos: Entre todas as salas do 3º piso esta era a que mais despertava a atenção. Podia mesmo dispensar documentação. O conteúdo era ainda recente. Expunham-se telefones com marcadores rotativos, muito comuns na época (anos oitenta). A central de comutação com busca e seleção dos números através do processo “sobe e roda”, segundo a gíria dos técnicos CTT e TLP era uma peça chave.

Despertava-se a atenção dos visitantes ao poderem ligar de um telefone para outro, ao verem e ouvirem in loco o processo automático de seleção de linhas. Tratava-se duma sala de conhecimento prático, de contacto vivo e de animação. Poderia, contudo, ali ser apresentada alguma informação sobre tráfego telefónico; imagens de manutenção nas Estações e diagramas relativos a redes de comunicações. Porém, Este espaço era apreciado e ali se acumulavam pessoas, sobretudo quando havia visitas de grupo.

 
Equipamentos de comunicação radioelétrica

A sala era pequena para integrar peças e informação que pudessem dar uma ideia do que eram e como funcionavam os serviços, mormente em relação com as Ilhas.  Apresentavam-se diversos equipamentos, o que era natural porque as comunicações radioelétricas insulares foram muito utilizadas. Na década de 70 (finais) pensou-se na descentralização do Museu dos CTT, tendo sido enviados espécimes para integrar um polo de museu em Ponta Delgada, o que parece ainda não se ter concretizado até ao presente.

Quanto à representação telefónica e telegráfica por via radioelétrica no território continental, seria de bom-tom apresentar algo sobre os serviços de gestão e fiscalização do espectro de rádio. Sendo a Direção dos Serviços Radioelétricos como um virtual agente sinaleiro do espaço no continente e ilhas (5), convinha que o visitante saísse da exposição com uma ideia sobre estas transmissões,  estudo das condições de propagação, licenciamento, regulação e redes. O visitante gostaria de saber qual o papel das organizações e utilizadores das frequências radioeléctricas, sendo um bem escasso a gerir.

Os anos 80 coincidiram com as fortes cheias do Ribatejo e com o devastador terramoto dos Açores, onde as comunicações via rádio, incluindo: redes privativas, radioamadores, utilizadores da banda do cidadão e Direção dos Serviços Radioelétricos tiveram um papel relevante, prestando um verdadeiro serviço público e de cidadania. A secção radioeléctrica do Museu não abordava esse papel social, humanitário e de gestão destas comunicações: públicas, privativas e particulares. Havia nesta sala escassez de informação sobre o serviço público e organização das frequências no espaço português: entre Portugal continental, o espaço marítimo, a Madeira e os Açores.

Outros comentários à exposição: Não obstante a informação que se poderia obter na sala de telefones, provocava-se alguma sensação de “enfartamento”, dada a quantidade de objetos mas pobre em cenário e elementos interpretativos. Os vários tipos de telefones não estavam apresentados por um fio condutor facilmente percetível ao visitante comum. Contudo, cineastas, artistas de teatro, de televisão, escritores e todos os que procurassem interesse funcional e estético poderiam ter ali matéria de inspiração. Releve-se que a decoração interior do Museu atenuava a componente técnica, embora alguns museólogos tivessem a impressão contrária, isto é, para estes especialistas a decoração do interior do edifício dispersava as atenções em relação à exposição.

Um dos primeiros exemplos de legendas: “Telefone Bramão, 1879 / Construtor Herrmann, Lisboa / Modelo com chamada por manipulador Morse” não era muito atrativo (v. infra outras legendas). Os nomes de  Bramão e Herrmann em algumas legendas, como a acima indicada, não despertavam muita motivação e informação. Quanto a Cristiano Augusto Bramão conviria que o visitante ficasse com uma ideia do contributo deste técnico e autor para as comunicações. Num relatório de 1865, o Conselheiro José Vitorino Damásio, Director-Geral dos Telégrafos escreveu o seguinte em relação ao telégrafo de Cristiano Bramão e construído por Maximiliano Herrmann: “Um aparelho deste sistema [telegráfico] tem funcionado na Estação Central de Paris, e ali mereceu a aprovação das pessoas entendidas […]” (6). Porém, esta citação, ou outras referências equivalentes não faziam parte da exposição; apenas contávamos com legendas consideradas demasiado técnicas, como as abaixo indicadas:

“Telefone de parede de bateria central / tipo ATM 332”;

Telefone de parede  / com microtelefone fixo / sistema de bateria central / usado pela APT”;

Telefone de parede / com microtelefone e chamada por corrente contínua”;

Telefone de mesa de bateria central / cor de marfim / tipo: 7A”;

Telefone de mesa, / com microtelefone e chamada por magneto”.

Nota de contexto museológico: A ideia que o cidadão comum fazia dos museus como instituições do passado (não só referente ao Museu dos CTT) resultara das crises por que passaram, depois da II Guerra Mundial, em parte devido à concorrência de outros meios de informação (rádio e televisão); falta de condições económicas para renovar cenários de exposições; saída de públicos ou potenciais públicos para a emigração e para o serviço militar obrigatório no continente e ultramar.  

Chegado o 25 de Abril de 1974 as atenções voltaram-se para outras sensibilidades e olhares, tais como o usufruto de liberdades, constituição de associações e reorganização económica.

Os museus continuaram à espera de novas formas de apresentação dos patrimónios com novas museografias. Nos anos 80 a APOM – Associação Portuguesa de Museologia vinha-se esforçando com a presença e apoio a eventos e formação; mas foi o MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia quem primeiro lançou debates inovadores ("a pedrada no charco", no dizer de Mário Moutinho) sobre os processos museológicos e museográficos com a atenção mais voltada para as pessoas, as localidades, os novos patrimónios, naturais e imateriais, do que para as peças tradicionais de arte, arqueologia e etnografia. Com a viragem do século as duas Associações começaram a convergir em termos de abordagem conceptual.

Contudo o  Museu dos CTT, e temporariamente dos TLP, promoveu nesses anos algumas formas mediadoras dignas de destaque na divulgação do património e programas de comunicações, sobretudo no seio das comunidades escolares. Em próximos artigos faremos referência ao contributo do Museu dos CTT e TLP.

Notas:

(1)FERREIRA, Godofredo. Anotações in BARROS, Guilhermino Augusto de – Memória Histórica Acerca da Telegrafia Eléctrica em Portugal. Separata do Guia Oficial dos CTT, 2ª ed. ampliada com notas, gravuras e retratos coligidos por Godofredo Ferreira, Lisboa, 1943, p XCVIII.

(2)Id., pp. LXXV-LXXXIV

(3)BAUDOT, Jean-Maurice-Émile (1845 - 1903), francês, Inventor da telegrafia simultânea (até 4 mensagens).

(4)Precursores, isto é, iniciais, que estão entre os primeiros modelos concebidos e ainda se consideram na fase experimental.

(5)Atividade hoje a cargo da ANACOM – Autoridade Nacional de Comunicações.

(6)FERREIRA, ob. cit. pp. LXXV-LXXXIV

 
Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Ensaio de Investigação e Organização da Telegrafia do Museu dos CTT. Lisboa: Edição pessoal realizada no âmbito de Seminário de Biblioteconomia e Arquivologia. Lisboa: UAL “Luís de Camões”, 1987/1988, 85 pp.

----------------  O Museu dos CTT. Lisboa: Arquivo UNL, 1988/1989. Disponível também em Arquivo do Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações

-APOM – Panorama Museológico Português: Carências e Potencialidades. Actas do Colóquio APOM / 76. Porto, 1 a 5 de dez, 1976

-MOUTINHO, Mário - "Museus e Sociedade". In Textos de Museologia. Jornadas sobre a Função Social do Museu. Cadernos do MINOM Nº 1, 1991

-NASCIMENTO, Rosana - A Historicidade do Objecto Museológico, Cadernos de Sociomuseologia Centro de Estudos de Sociomuseologia, 3-1994, Lisboa: ULHT

-SANTOS, Rogério – Do telefone à central digital: contributos para a história das telecomunicações em Portugal. Lisboa: TLP, 1989

-TLP – 1882-1992, 110 anos a telecomunicar. Lisboa: TLP, 1992

-VIANA, Mário Gonçalves – Arte de organizar colecções exposições e museus. Porto: Ed. Domingos Barreira, 1972

Em linha, acedidas em 5.5.2015:

ANCIÃES, Alfredo Ramos – Minhas memórias  - Exposição 2º Piso Museu dos CTT in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/37-minhas-mem-rias-exposi-o-2-piso-museu-dos-ctt

------------------ Minhas memórias do Museu dos CTT Rés-do-Chão da Rua de D. Estefânia entre Abril de 1983 e Maio de 1985 in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/34-minhas-mem-rias

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